Opinião

Desperdício do possível

Apusindo Nhari

Jornalista

“Angola é Angola, oi ki povo sabi (...) paciencia dum concequencia, resistencia dum stravagancia” (*)

23/01/2022  Última atualização 07H17
"Cabo Verde: gestão das impossibilidades” é o título do livro que publicou, em 2015, José Maria Pereira Neves, quando já quase terminava o seu mandato de 15 anos como Primeiro-Ministro (2001-16).
O livro – explicava o autor aquando do lançamento – fala do percurso da sua pátria "considerada um país impossível em 1975, quando ascendeu à Independência (tinha ele então 15 anos!). Um pequeno arquipélago, sem recursos naturais, seco, em processo de desertificação, um dos mais carentes do mundo em água”. Tendo na ocasião defendido que "quarenta anos depois, Cabo Verde é um país possível: vencemos a seca, vencemos a fome e já não somos ‘os flagelados do vento leste’ como dizia o poeta (Manuel Lopes). Hoje somos uma nação possível e estamos a construir novas possibilidades”.
Não é sem interesse comparar o percurso dos cinco espaços "lusófonos” africanos. E as visitas de Estado entre os cinco são ocasiões em que se pode procurar discernir a verdade da artificialidade: analisar o que foi efectivamente possível construir (nível real das relações entre os povos, as suas culturas, economias e estratégias de desenvolvimento), independentemente do que escolham dizer "para a ocasião” a imprensa e os políticos em benefício dos seus interesses de circunstância.
Cabo Verde não é apenas o único dos nossos cinco países que teve o privilégio de não ter conhecido guerra ou golpes de Estado. É também um país que se construiu sobre as asperidades das suas condições naturais e à escassez dos seus recursos materiais. E talvez isso "explique” o cuidado que a nação crioula tem tido com os seus cidadãos, com a organização da sua sociedade, levando a significativos avanços: uma consolidada e representativa democracia, que inclui tanto as instituições autárquicas como uma liderança ordeira e democrática exercida alternadamente desde 1981, por cinco presidências e cinco governos com Primeiro-Ministros de dois partidos diferentes (PAICV e MpD). E um dos bons resultados alcançados pelo país irmão diz respeito à valorização dos seus recursos humanos (tirando proveito de uma "melhor herança” colonial em matéria de quadros), atenção à educação e ao ensino, investindo na criação de competência institucional nas escolas e universidades públicas do país.
Daí o interesse – na medida em que contribua para tirar ilações para nós mesmos – em reflectir sobre a sensatez do cancelamento da deslocação do Presidente cabo-verdiano ao "campus” da Universidade Agostinho Neto (incluída no programa oficial da sua recente visita de Estado).
É frequente escondermos as insuficiências e incapacidades detrás de designações e conceitos valorizantes: "hospitais de referência”, "democracia partidária”, "centros de ciência e tecnologia”, "imprensa livre”, "diplomacia económica”, "instituições de excelência”; …e tantos outros, de tal forma que – por simplesmente decretarmos essas designações e conceitos – nos convencemos de que isso somos e temos.
É o caso da designação "campus universitário” no nosso país. Mais ainda se nos referimos "ao” da Universidade Agostinho Neto, vulgo "do Camama”. Qualquer dos docentes, funcionários e estudantes da nossa "prestigiosa” Universidade, ter-se-ão perguntado: "como é possível que as 'instâncias superiores' (linguagem correntemente utilizada na instituição, tal é a sua falta de autonomia) tenham tido o descaramento de programar uma deslocação de tão ilustre visitante ao nosso designado ‘campus'...?”
As suas indignas condições materiais (não se consegue, apesar de tantas promessas, passar – em mais de 20 anos! – da "primeira fase” do seu projecto de construção) e o desfuncionamento geral das faculdades, cursos e organismos administrativos que ali estão instalados, são alarmantes. E resultam  da hemorragia contínua do seu staff e da progressiva degradação das regras básicas e boas- práticas universitárias ao longo dos anos, e que prossegue. O facto da visita estar programada num momento em que vigorava uma suspensão das actividades académicas devido à Covid, em plena greve de docentes e diante de um estado de insatisfação extrema dos estudantes... só aumentava a estupefacção.
O Presidente João Maria Neves foi desviado à última hora para outro local, onde deu a sua aula-magna (...e foi assim poupada a maquilhagem ao Camama).
Não faltou dinheiro ao Ensino Superior angolano que apesar do exíguo Orçamento estatal, beneficiou de avultadas verbas petrolíferas de cuja utilização não se conhece prestação de contas. Não faltaram, ao longo de tantos anos, jovens ávidos de aprender e de se formar condignamente. Não faltaram docentes desejosos de desenvolver trabalho académico e científico, e de construir uma instituição forte. O que faltou?
Tantas possibilidades. Tanto desperdício.
E temos hoje um universo de instituições por todo o país – que deveriam ser de Ensino Superior – com Orçamento insuficiente, sem cultura académica nem capacidade de atrair recursos humanos adequados, persistindo-se na construção de uma ilusão que tanto prejudica o país, pois não se lhe consegue fornecer os quadros com as habilidades que tanto precisa.
Tanto nos acostumámos a esta degradação progressiva, de tal maneira estamos assombrados pelo nível de precariedade a que chegámos, que se torna extremamente difícil – mesmo aos próprios universitários, docentes, funcionários e estudantes – ter uma visão clara e consistente de como sair de tão imenso problema.
A solução (tem de haver uma!: a nação merece, a inteligência do país merece, os estudantes merecem) tem de ser encontrada com urgência.
O nosso país (e o seu Ensino Superior) também é – tem de ser – possível.

(*) versos tirados de "Angola”, de Ramiro Mendes, 1996

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