Opinião

Desigualdade e meritocracia: a luta contra a desigualdade social como defesa de pertença dos membros da sociedade angolana

Garcia Matondo Vita Bige*

A luta contra a desigualdade social é um esforço ativo para promover a igualdade de oportunidades e tratamento justo para todos na sociedade. Isso envolve a criação e defesa de políticas que eliminem desigualdades em áreas como educação, saúde, emprego, renda e direitos civis e políticos.

23/06/2024  Última atualização 07H32

O objetivo é um Estado onde todos tenham as mesmas oportunidades, independentemente de sua origem ou gênero. A ausência de condições básicas restringe a participação do cidadão na vida pública.

Segundo Sandel (2021, p. 322), "quebrar barreiras é positivo; ninguém deve ser impedido pela pobreza ou preconceito. Mesmo em sociedades bem-sucedidas como os EUA, é importante garantir que aqueles que não ascendem socialmente possam prosperar e se sintam parte de um projeto comum. Quando não fazemos isso, dificultamos a vida das pessoas sem credenciais meritocráticas e as fazemos duvidar de seu lugar na sociedade”. Concordamos com essa perspectiva.

A sensação de não pertencimento frequentemente leva à emigração em massa, como temos visto recentemente em nosso país. Embora seja um direito constitucional, muitos angolanos emigram em busca de melhores condições de vida, especialmente para seus filhos, visando educação e saúde de qualidade. Infelizmente, essa busca por serviços de qualidade na Europa é feita por pessoas de todas as classes sociais, incluindo líderes e cidadãos comuns. Precisamos nos questionar: por que não melhoramos nossos próprios serviços para atrair pessoas de outros lugares? Devemos trabalhar para que, no futuro, também sejamos procurados por líderes europeus em busca de nossos serviços de saúde e nossas universidades.

Essa mudança é crucial para alcançar verdadeira independência e união como nação. Estranha-me o silêncio das entidades sobre o mau desempenho das universidades angolanas, que não fazem parte das 300 melhores universidades de África. Esse deve ser um problema nacional que merece ser analisado com profundidade e acuidade. Ninguém se desenvolve sem um ensino de qualidade. Por que recuamos em vez de avançarmos?

Em teoria, todos somos iguais, uma única nação sem distinção de classe. No entanto, a realidade nos mostra o contrário; a estratificação social excessiva cria uma sensação de exclusividade, e a cooperação muitas vezes se resume a estratégias de marketing ou simplesmente não funciona. Cada camada social ocupa seus próprios espaços, levando a uma crescente separação entre as pessoas. A educação também reflete essa divisão, com crianças de famílias abastadas frequentando escolas diferentes daquelas frequentadas pelos filhos de famílias mais humildes. Esse cenário dificulta a convivência entre membros da mesma sociedade que se diferenciam apenas pelo seu status social.

Como diria Sandel, hoje em dia, a igualdade de condições é uma realidade distante. Raramente encontramos espaços públicos que acolham pessoas de todas as classes sociais, origens étnicas, raças e crenças. Nossas vidas são divididas em esferas separadas: trabalhamos, nos divertimos e fazemos compras em ambientes distintos, nossos filhos frequentam escolas separadas. A meritocracia, ao selecionar quem alcança o sucesso, muitas vezes reforça a crença de que os bem-sucedidos o são por mérito próprio, enquanto os menos favorecidos merecem sua posição na base da escala social.

Essa dinâmica alimenta uma polarização política intensa, tornando até mais desafiador estabelecer conexões "interpartidárias”do que aceitar diferenças religiosas em relacionamentos. Não é de surpreender que tenhamos perdido a capacidade de dialogar construtivamente sobre questões sociais e até mesmo de nos compreendermos mutuamente.

Então, quer dizer que todos devemos ser iguais? Não exatamente. As diferenças são inevitáveis, mas quais diferenças são importantes? Aquelas que promovem progresso, colaboração, aprimoramento e benefícios. Aqueles com mais recursos (bem-sucedidos) devem contribuir de forma mais substancial para apoiar os menos privilegiados (perdedores). Como Rawls destacou, as habilidades e talentos individuais são valiosos quando beneficiam os menos favorecidos. Assim, a diversidade deve ser uma fonte de inspiração para a criatividade, não um obstáculo.

Qual é a solução? A solução passa por trabalhar para uma ampla igualdade de condições que permita que aqueles que não alcançam grandes riquezas ou posições de prestígio vivam com dignidade e respeito, desenvolvendo e exercitando suas habilidades em trabalhos que sejam socialmente valorizados. Eles devem participar de uma cultura de aprendizado difundida e de debates com seus concidadãos sobre questões públicas.

A riqueza de uma nação como Angola vai além de seus recursos naturais; ela reside principalmente na razoabilidade de seus cidadãos. A diversidade e a capacidade das pessoas de viverem harmoniosamente na diferença impulsionam a criatividade e o progresso. A moralidade é essencial para a civilização; sem ela, não há civilização. Buscar um equilíbrio entre ideologias conflitantes, com sistemas de responsabilização, promove a coexistência pacífica e evita a violência. Somente assim, seremos de facto "um só povo e uma só nação”, capazes de nos entender e conviver harmoniosamente enquanto compartilhamos este tempo juntos, pois a morte é certa para todos.

A convivência na diferença promove um interesse público maior, resultando em uma cultura pública mais rica e criativa. O bem comum só é alcançado através da deliberação com nossos concidadãos, enfatizando que a democracia não pode ignorar a diversidade e exige encontros entre cidadãos de diferentes origens em espaços públicos compartilhados.

 

* Docente no Instituto Superior de  Ciências de Educação - ISCED do Uíge

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