Opinião

Desfiles militares e desfiles de moda

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

Fazia muito tempo que não via desfiles militares. Nos últimos anos, quando vi desfiles, nem que fossem só pela televisão, eram de moda.Os militares se fazem em paradas e os de moda em passarelas: o que passa por umas ou outras se torna óbvio.

25/09/2022  Última atualização 08H02

O desfile de modelos passou a fazer parte das imagens do florescimento económico e social ao mesmo tempo em que os desfiles de polícia e de militares desapareceram.

Quando era adolescente, houve um tempo em que vestir à moda militar era a minha primeira escolha. Feito adulto já um senhor não tenho nenhum problema em arriscar e usar uma camisa de linho cor de rosa e com um estampado as flores: e eu penso que esse atrevimento é uma influência do lugar da moda no imaginário colectivo.

Numa época dada, aquela que, se mal não recordo, se corresponde aos primeiros anos da universidade, para ir às aulas vestia, quase invariavelmente, calças com o estampado dos fardamentos militares, ténis pretos ou brancos e camisolas verdes, azuis ou brancas. A repetição transformou aquela roupa do dia-a-dia em farda.

No fundo, sabia que, na minha guerra, eu estava em luta contra a ignorância, que deveria estudar e formar-me para servir da melhor maneira à sociedade. Na outra guerra, fria ou quente, a dos adultos do tempo em que fui criança, o que estava em jogo eram outras coisas que eu ainda não divisava.

Anos antes, quando ainda estava no ensino pré-universitário, nas aulas de preparação militar já tinha aprendido a montar e a desmontar uma arma AK47: fazia-o muito lentamente, uma consequência que  hoje quero atribuir ao desequilibrio que existia entre o peso da arma e a fraqueza dos músculos dos meus braços. 

Não tinha físico nem para ser polícia nem para ser militar: porém, o foco, a dedicação, a ordem e o cumprimento de horários,a disciplina e outros valores morais que, em parte, hoje tenho como adulto os adquiri naqueles anos de educação quase militar, em que era comum ver desfiles.

Que tipo de desfiles foi-se tendo nos últimos vinte anos em Angola e o que eles significam ou reflectem no que às mudanças sociais, políticas, económicas e culturais se referem? Não será a combinação entre o que os desfiles de moda e os desfiles militares representam uma das vias para despoletar parte da transformação social de que o país precisa neste momento?

No desfile militar realizado na Praça da República, por ocasião da tomada de posse do Presidente João Lourenço, os mestres de cerimónia fizeram questão de frisar que o que pretendiam era atrair os jovens para a carreira militar: o objectivo pareceu-nos singelo demais à vista dos meios e dos recursos empregues. O desfile militar significou muito mais do que uma demonstração de força.

Os desfiles de moda representam uma aposta pela economia da cultura e os desfiles militares uma aposta pela economia de guerra, no caso, em tempo de paz: isso significa que ambos os sectores, o da cultura e o da defesa e segurança necessitam de um investimento nos recursos humanos, formando e educando os cidadãos desde o ínicio da sua vida adulta, em valores que unam a disciplina à criatividade.

Se formos mesmo consequentes, devemos admitir que talvez houvesse aí uma oportunidade para que o Estado acelerasse a solução militar como via para recrutamentos voluntários massivos: é que há, na prática, um "exército de cidadãos ociosos”, em pleno desenvolvimento físico e mental, com idade fértil e sonhos que deve ser transformado num "exército produtivo”, num catalizador da riqueza nacional.

Em tempo de guerra, o exército recrutou e até mesmo rusgou à força muitos cidadãos para fazer a guerra. Assim que se, em tempo de paz, o exército recrutar cidadãos para formá-los, ajudar a lutar contra calamidades, apoiar as soluções de emergência económica e transformar-se num vector de coesão social e de educação cívica, os desfiles militares serão, também, desfiles que estarão na moda.  

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