Opinião

Desculpa esfarrapada!

Augusto Cuteta

Jornalista

Hoje, é domingo, mais um dia como tantos outros daqueles em que, quando me levanto, na lista das primeiras coisas a fazer no dia, além das questões de higiene e alimentação, é correr à igreja.

21/11/2021  Última atualização 09H10
Ouvir uma boa homilia sacerdotal é algo que gosto, principalmente quando o padre for alguém que domina técnicas de comunicação: argumentação ou persuasão. Sou fã de bons oradores. E, no domingo passado, tive essa sorte de ver o padre Augusto. Não sei qual o seu nome completo. Retive apenas o primeiro nome, talvez, por ser meu xará.

Esse padre, que visitou, no dia 31 de Outubro, a Paróquia do Santíssimo Redentor do Kilamba, é um jovem, na casa dos 30, recém-ordenado. Apesar dessa sua juventude sacerdotal, o padre mostrou dominar técnicas de como falar em público. É sucinto, claro e profundo.

A mensagem, na missa nova rezada pelo, também, recém-ordenado padre Mateus Luvualo, em mais ou menos dez minutos, fez uma interpretação bíblica e bem contextualizada de dar inveja. E, quando assim for, eu fico babado.

E a prestação desse padre naquela missa fez-me lembrar de muitos bons pregadores, com os quais convivi no meu tempo de acólito, desde miúdo. Aprendi o saber comunicar ainda antes de pensar em ser professor ou esse jornalista que sou hoje, embora essa última profissão fosse o sonho de menino. Por um triz, quiçá, teria entrado para o seminário e, agora mesmo, estaria a celebrar uma boa missa, não fosse a dona Fineza Cuteta apostar em transformar-me neste pai que sou hoje!

Nessas lides do acolitado, pude partilhar o presbitério com inúmeros monstros pregadores da Igreja Católica, como D. Alexandre Cardeal do Nascimento, D. Serafim Xingu-Ya-Hombo, D. Damião Franklin, D. Anastácio Kanhango, Cardeal D. Eugénio Dal Corso, na altura, ainda padre da Congregação dos Pobres Servos da Divina Providência, assim como uma lista sem fim de outros padres.

Antes de ser catequista, fui catequisando. E tive a sorte de pertencer a turmas de catequistas seminaristas. Mas, seminaristas mesmo dos bons, àqueles que cruzam o nosso caminho e damos logo conta de que a forma de ser e de estar é de alguém, semelhante, mas com ares diferentes dos nossos.

Esses mestres da evangelização ensinaram-me uma coisa. A comunicação evangélica só tem efeitos na vida do evangelizado quando o evangelizador vive o que prega. Aliás, a Bíblia, em Tiago 2-17,19, chama a atenção de que "a fé sem obra é morta”. À essa, junto outra célebre frase: "Ai de mim senão evangelizar”, um alerta do apóstolo Paulo, na sua carta aos Corintos 9-16, no fundo, um convite para que as pessoas vivam para servir individualmente ou em comunidade, levando a Palavra de Deus para os que mais necessitam.

Porém, nos dias que correm, parece que um grande número de comunicadores da Palavra de Deus, além de transformar esse dom de pregar em negócio, decide não viver o que anuncia. Alguma hipocrisia quando se defende e se promove o que não se vive? Então, não é essa suposta fé, por ser sem obra, que se diz ser uma falsa evangelização.

Aliás, naquela missa, o padre Augusto, nos seus dez minutinhos de homilia, disse uma coisa que me chamou muito a atenção. Criticou os que defendem já ser normal para quem evangeliza ou educa ou aconselha, não importa em que sector da vida, passar o conhecimento, a informação ou anúncio, ainda que não se viva, de facto, essa mesma mensagem que se passa aos outros.

E o sacerdote realçou que esses tais pregadores, até criaram, infelizmente, condições para se apegarem à frase "Faça o que digo e não o que faço”, no sentido de não serem questionados pela falta de exemplos na sua vida quotidiana! Para o padre, essa questão é desculpa esfarrapada.

Além de muito esfarrapada, o padre acredita que não é justo que se apresente aos outros o que não vivemos nem sabemos como se vive! Por exemplo, não fica bem que um pregador anuncie que os pobres é que herdarão o Reino de Deus, mas ele busque, de forma insaciável, riquezas e, mais grave, retirando o pouco que os pobres têm! Será que esses pastores negam o céu e a vida eterna?
Um dia, ainda desconfio, quando esses evangelizados abrirem os olhos, vão preterir o céu pelos bens materiais, tal como o faz o evangelizador que os "serve”!

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