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Descoberto esconderijo do líder dissidente da Renamo

A Polícia moçambicana anunciou, quarta-feira, a descoberta do esconderijo do líder guerrilheiro dissidente da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), Mariano Nhongo, mas sem o conseguir deter, segundo fonte oficial, citada pela Lusa.

08/10/2021  Última atualização 08H50
Governo moçambicano deu um ultimato a Nhongo para se render e evitar ser morto © Fotografia por: DR
Nhongo lidera um grupo de antigos guerrilheiros da Renamo suspeito de matar 30 pessoas, desde 2019, como forma de contestar o acordo de paz assinado naquele ano, e as condições que lhes são oferecidas para o desarmamento.

A descoberta do esconderijo, no centro do país, na localidade de Mazanga, em Inhaminga (distrito de Cheringoma, província de Sofala), foi feita na sequência de "operações de perseguição iniciadas no dia 28 de Setembro, dirigidas pelas Forças de Defesa e Segurança (FDS)”, disse o porta-voz da Polícia da República de Moçambique (PRM), Anelton Zandamela, numa declaração feita na cidade da Beira. Nhongo e alguns dos seus homens "saíram em debandada” quando sentiram a aproximação das FDS, deixando para trás roupa, comida, utensílios de cozinha e medicamentos, acrescentou, sem fazer referência a qualquer apreensão de armas ou dinheiro.

"Também encontrámos capulanas (peças de tecido tradicional moçambicano) roubadas de um estabelecimento comercial em Chinapamimba”, distrito de Muanza, atacado semanas antes onde morreram duas pessoas, acrescentou.

O grupo de Mariano Nhongo, antigo líder de guerrilha da Renamo, contesta a liderança do actual presidente do principal partido de oposição em Moçambique, Ossufo Momade, e as condições para a desmobilização dos guerrilheiros, decorrentes do acordo de paz assinado em 2019.

Segundo Nhongo, o seu grupo enviou uma carta com reivindicações para o Governo moçambicano em 2019 e continua à espera da resposta para uma negociação. Na segunda-feira, durante as celebrações do Dia da Paz, o Presidente moçambicano fez um novo apelo a Nhongo para que se entregue, prometendo-lhe integração no processo de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR).

Na ocasião, descreveu o episódio de perseguição anunciado pela Polícia, em que o líder dos ex-guerrilheiros foi "corrido de um lado para outro, até se esquecer do casaco”, disse o Chefe de Estado.
"Tem de se entregar. Faz o DDR e organiza a sua vida”, concluiu Nyusi, assinalando que pode escolher em que local do país pretende retomar a sua vida.

 
Debate sobre a paz

O Instituto para a Democracia Multipartidária (IMD) promoveu, quarta-feira, um debate para a consolidação da paz e reconciliação nacional, numa discussão que envolveu políticos, especialistas e um antigo negociador do Acordo Geral de Paz para Moçambique. "A conferência teve por objectivo reflectir com múltiplos actores sobre os alicerces, desafios e perspectivas para a consolidação da paz e reconciliação em Moçambique e fazer advocacia para acções concretas para garantir que os processos de busca de paz sejam inclusivos”, referiu em nota de imprensa a organização, citada pela Lusa.

O debate foi promovido no âmbito das celebrações do Dia da Paz, que se assinalou na segunda-feira em Moçambique, feriado alusivo à assinatura do Acordo Geral de Paz, em 1992, entre o Governo da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) e a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo).

Durante 16 anos, Moçambique viveu uma guerra civil, que opôs o Exército governamental e a Renamo, tendo terminado com a assinatura do Acordo Geral de Paz, em Roma, a 4 de Outubro de  1992, entre o então Presidente Joaquim Chissano e Afonso Dhlakama, líder histórico da Renamo, que morreu em Maio de 2018.

Em 2013, sucederam-se outros confrontos entre as partes, durante 17 meses, e que só pararam com a assinatura, a 5 de Setembro de 2014, do Acordo de Cessação das Hostilidades Militares, entre Dhlakama e o antigo Chefe de Estado Armando Guebuza.

Alguns anos depois, a 6 de Agosto de 2019, assiste-se ao Acordo de Paz e Reconciliação Nacional, o terceiro, assinado entre o actual Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, e o líder da Renamo, Ossufo Momade, prevendo, entre outros aspectos, a Desmilitarização, Desarmamento e Reintegração (DDR) do braço armado do principal partido da oposição.

Actualmente, o país volta a atravessar um período conturbado, marcado por conflitos armados no Centro e Norte.
Na região Centro, a auto-proclamada Junta Militar, um grupo dissidente da Renamo chefiado por um antigo líder de guerrilha do partido, tem protagonizado ataques armados, incursões que já causaram a morte de pelo menos 30 pessoas desde 2019.


Juiz ameaça cancelar interrogatório no caso das dívidas ocultas

O juiz do processo das dívidas ocultas em Moçambique disse, ontem, que vai interromper a audição do antigo director da Inteligência Económica dos Serviços Secretos António Carlos do Rosário caso o arguido volte a faltar ao respeito ao tribunal.

"Se voltar a faltar ao respeito ao tribunal, proferindo aquelas palavras (que proferiu na terça-feira), o réu é recolhido e volta no dia da leitura da sentença”, declarou Efigénio Baptista, ao retomar a audição de Rosário.

O juiz afirmou que o tribunal não vai tolerar o comportamento desrespeitoso do antigo director da Inteligência Económica do Serviço de Informações e Segurança do Estado (SISE). "Hoje o tribunal não vai chamar mais a atenção. Acaba o interrogatório e vamos para casa, é o que está na lei”, enfatizou.

Efigénio Baptista ordenou, na terça-feira, a abertura de um processo-crime autónomo contra o arguido por linguagem inapropriada, após Rosário ter dito durante o julgamento que o tribunal "está a perder tempo” e depois de, numa troca de palavras, ter acusado o juiz de "mentir descaradamente” e de "não ter vergonha”. O Ministério Público moçambicano acusa António Carlos do Rosário, que era também presidente das três empresas beneficiárias do dinheiro das dívidas ocultas, de ter recebido 8,9 milhões de dólares (7,6 milhões de euros), pelo papel num projecto de protecção da Zona Económica Exclusiva e criação das empresas públicas que a Justiça considera terem sido usadas como ardil para a mobilização de empréstimos.

Rosário responde por associação para delinquir, peculato (apropriação ilegal de recursos do Estado) e branqueamento de capitais. A Justiça moçambicana acusa os 19 arguidos do processo principal das dívidas ocultas de se terem associado em "quadrilha” e delapidado o Estado moçambicano em 2,7 mil milhões de dólares (2,28 mil milhões de euros) - valor apontado pela procuradoria e superior aos 2,2 milhões de dólares até agora conhecidos no caso - angariados junto de bancos internacionais através de garantias prestadas pelo Governo.

As dívidas ocultas foram contraídas entre 2013 e 2014 junto das filiais britânicas dos bancos de investimento Credit Suisse e VTB pelas empresas estatais moçambicanas Proindicus, Ematum e MAM. Os empréstimos foram secretamente avalizados pelo Governo da Frelimo, liderado pelo Presidente da República à época, Armando Guebuza, sem o conhecimento do Parlamento e do Tribunal Administrativo.


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