Sociedade

Desafios do teletrabalho em tempo de pandemia

Embora não seja um modelo recente, o regime de teletrabalho adoptado para fazer frente ao confinamento imposto pela pandemia da Covid-19 mudou a rotina de muitos funcionários e respectivas famílias. Contabilistas, bancários, técnicos de telecomunicações e gestores de recursos humanos são exemplos de profissionais que aderiram.

13/08/2020  Última atualização 17H28
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Num dos quartos do apartamento onde reside com o esposo e dois filhos menores, nos arredores da cidade de Luanda, Yma Serrote, de 38, montou o seu aparato de trabalho, onde com recurso às novas tecnologias e livre de interferências externas cumpre a sua jornada laboral.

Técnica de operação numa empresa de telecomunicações, algures no distrito do Futungo de Belas, Yma Serrote está em regime de teletrabalho desde finais de Março. Sem rodeios considera estar diante de mais oportunidade para demonstrar disciplina, organização e compromisso com trabalho.
“Se num ambiente controlado, muitos não se comportam como deve ser, imagina agora que o olhar da gestão se baseia muitas vezes num relatório de actividades. Acredito que muitos colaboradores devem agora estar a lutar para colocar em prática os bons princípios”, disse.

Yma Serrote conta que o teletrabalho sempre foi uma prática na empresa, porém, restringia-se aos técnicos de prevenção, particularmente ao final de semana. Afirma que, tendo em conta o momento actual, é uma mais-valia por não impedir a produção e o cumprimento das obrigações.
“Nesta fase da pandemia, acredito que tenho trabalhado um pouco mais que o normal. Temos de estar quase sempre disponíveis”, disse, Yma Serrote, admitindo que nem sempre as coisas correm na perfeição, pois devido ao risco de contaminação dispensou a empregada.

Em condição quase idêntica está Rosário Miguel, de 35 anos. Técnico de operação e qualidade de serviços de dados móveis está “confinado” ao regime de teletrabalho por decisão da empresa. Residente na Cidade do Kilamba, município de Belas, na maior parte das vezes Rosário Miguel habitualmente ocupa a sala do apartamento para trabalhar, mas, entretanto, das vezes que se vê obrigado a contornar o barulho dos filhos, de sete e dois anos, recolhe-se para o quarto. Com o trabalho essencialmente focado na configuração e controlo de qualidade da rede e serviço de dados móveis, dá-se por satisfeito por estar livre das falhas constantes de energia eléctrica, uma realidade vivida em vários bairros da província de Luanda.

“Desde o período de Estado de Emergência que estou em casa. Não tenho custo de deslocação, passo mais tempo com a família, faço melhor gestão do tempo e tem sido menos stressante”, considerou Rosário Miguel, para quem para quem a pandemia veio mostrar que é possível trabalhar em casa e que, no futuro, devia ser levada em consideração pelas empresas devido as vantagens com a redução de custos.

Aproximação às tecnologias de informação

O teletrabalho aproximou a advogada estagiária Djamila da Silva às tecnologias de informação. Diante da nova experiência, Djamila da Silva foi literalmente forçada a dar maior importância às redes sociais Skype e WhatsApp.
“A minha casa foi adaptada para que possa executar o meu trabalho, mas estamos confinados em casa e, por vezes, isso leva-nos a um nível de exaustão e stresse por causa do barulho das crianças”, disse.

No início, admite, não foi fácil lidar com as constantes interferências da família, sobretudo o barulho das crianças e da televisão. Teve de apelar a colaboração de todos e “negociar” um canto de casa para dar sequência aos compromissos laborais. Decorridos quatro meses, Djamila da Silva realça que o teletrabalho levou-lhe a ter de cumprir uma rotina nunca antes imaginada. As exigências têm sido redobradas. Nos dias normais, diz, pode fazer 10 horas de trabalho, mas em casa não consegue cumprir efectivamente 8 horas por alternar a rotina laboral às necessidades domésticas e manter o controlo sobre os filhos.
“Para mim, deixou de ser difícil trabalhar em casa. Normalmente cumpro um plano de específico de trabalho que inclui reuniões on-line”, disse.

Redução de despesas

Além de reduzir o contacto físico entre colegas, o teletrabalho pode contribuir para reduzir nas despesas de deslocações de casa para o serviço e vice-versa, alimentação, combustíveis, meios de bio-segurança, entre outros, quer para entidade empregadora, quer para o colaborador, afirmou Carlos Domingos, especialista em Ciências Comerciais e pós-graduado em Gestão de Recursos Humanos.
Apesar de ajudar a economizar, por outro lado, Carlos Domingos aponta a exposição ao ambiente doméstico, sendo que “a vida pessoal e a vida profissional ficam sob a mesma bandeja”. Por este motivo, o especialista diz que é de todo fundamental rigor e disciplina para que atingir a performance desejada. Caso contrário, acentua, corre-se o risco de não conseguir distinguir os horários e os dois ambientes, pois pequenas interrupções, sobretudo se não forem do âmbito profissional, podem comprometem bons resultados.
“Se quisermos ter um bom desempenho devemos estar comprometidos com trabalho. Uma das técnicas é criar uma espécie de personagem, ou seja, vestir-se tal como se estivesse na empresa e seguir os horários com rigor”, disse.
Para Carlos Domingos, a adopção do teletrabalho depende dos objectivos da empresa, domínio de actuação, característica da actividade e a confiança e o comprometimento que o trabalhador ou funcionário demonstra.
Acrescentou que, para que o trabalho produza bons resultados é necessário distinguir o período laboral que melhor se adequa cada uma das actividades. “É também importante que os meios de trabalho estejam disponíveis e que haja sinergia com os demais colaboradores. O espírito de união, partilha e cooperação deve reinar, pois a boa performance individual e de equipa só pode resultar numa boa performance global”, salientou.


“Internet estável e veloz”

Ter uma rede de Internet estável e veloz é uma condição primordial para adoptar o método de teletrabalho, afirmou o director técnico da Edições Novembro.
Renato Freitas explica que, em função de serviços específicos e algumas funcionalidades que requerem maior segurança, algumas empresas criam uma Rede Privada Virtual, vulgarmente conhecida por VPN (sigla em inglês), que permite aos funcionários ligar ou aceder a rede interna da empresa a partir do local em que estiver por um circuito ou túnel seguro.
“Trata-se de um método de trabalho que visa o ganho de tempo e satisfação mútua, trazendo ganhos para a empresa e para o funcionário, em termos de custo benefício”, disse.

Renato Freitas referiu que em Luanda e em outras províncias do litoral do país a qualidade dos serviços de internet melhorou significativamente e considera viável às empresas adoptarem este método de trabalho.
“Infelizmente, não depende apenas da velocidade de conexão da Internet. Existem outros factores que influenciam e que passam pelas condições técnicas, valores a serem pagos para o acesso, alcance territorial e o baixo poder de compra para aquisição dos dispositivos que permitam trabalhar remotamente e ter uma energia eléctrica estável”, disse Renato Freitas, sem descartar a disciplina e o compromisso do funcionário com o trabalho.

Desafio para as mulheres

Quando trabalham fora de casa as mulheres despendem um esforço redobrado. Com o teletrabalho não deixa de ser diferente uma vez que o trabalho e a lida doméstica se misturam no mesmo ambiente.
A jurista Djamila Ferreira considera desafiador para as mulheres, e principalmente os casais que têm filhos .
“As mulheres assumem a posição de provedora do lar. Mesmo em Estado de Calamidade e num período em que estamos todos em casa, acredito que em muitos lares só elas é que estão a responder as necessidades da casa e, ainda assim, tem as suas responsabilidades profissionais”, disse.

Djamila Ferreira afirma ser necessário fazer “ginástica” diária para conseguir desempenhar bem as duas funções. Yma Serrote, por sua vez, acredita haver muitas mulheres a lidar com inúmeras dificuldades nessa fase, em que se mistura o teletrabalho, o trato com a família e a ausência de empregadas domésticas. Considera ser difícil, mas não impossível e deixa alguns conselhos: “É fundamental arranjar tempo para cuidar de si mesma”.
A opinião é partilhada pela gestora de recursos humanos, Marinela Veloso, para quem o teletrabalho não deve afastar as pessoas da obrigação de acordar cedo, o sentido de disciplina e organização.
“Primeiro organizo a casa, atendo as crianças, faço o almoço e só depois sento para trabalhar”, disse.



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