Opinião

Dentro e fora das redes sociais

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

Para o cidadão comum que acede aos serviços telefónicos e de Internet é extremamente difícil, no mundo de hoje, viver à margem das redes sociais: elas são um instrumento útil.

27/09/2022  Última atualização 06H35

Pela idade que tenho, como é óbvio, não sou o que se considera um nativo digital, ou seja, alguém que nasceu depois do surgimento da era digital, mas sim alguém que, tendo nascido antes, na era analógica, a era digital irrompeu na minha vida como promessa, como risco e como possibilidade.

A era digital carrega consigo a utopia de que se não é melhor que a era analógica deverá sê-lo e, pelas suas características, abre um sem-fim de possibilidades de registo, de acesso e de processamento de informação, - do passado, do presente e, quiçá do futuro -,nunca antes experimentada por um individuo só, utilizando algo tão pequeno e banal como um telemóvel.

Entrei nas redes sociais tão logo, em finais dos anos 90, elas massificaram-se: no início somente com o correio electrónico próprio, mas depois experimentando também todas outras opções, como, por exemplo, tendo perfis próprios em redes como Facebook, Instagram, Linkedin ou Twitter, segundo elas foram surgindo.

 Porém, faz uns dias decidi sair, no caso, desactivar temporariamente todas as minhas contas pessoais nas redes sociais e optar por um apagão digital controlado e reversível. Na dúvida de se nas redes sociais pudesse existir, de facto, vida: entrei nas redes sociais para saber qual o tipo de vida e de interacção existia nela ou seria possível ter estando nela: enquanto durar essa suspensão da identidade digital, quem quiser saber de mim terá que utilizar a via tradicional, porque espreitar no muro dos meus perfis não lhe valerá para muito.

Estar presente na vida de outros e que outros estejam presentes nas nossas vidas é uma sensação (ou simulação, não parece estar claro) predominante que a rede transmite: há quem pensava que ao ir espreitar os perfis de alguém fica a saber algo sobre ele quando, na verdade, com o que se confronta é com representações do que essa pessoa decidiu transmitir sobre si própria para os outros ou, dito de outra maneira, não é ele quem lá está.

Morta que estava a curiosidade e tendo lhe dedicado muito tempo ao ponto de, em parte, ter descuidado em parte da vida fora delas: é-me actualmente regressando aos fundamentos de um mundo que vai perdendo a sua população anos após anos, já ela migra para as redes sociais desvalorizando o prazer do contacto simples e directo, da presença física, do pé de conversa sem a mediação do écran, da luz da pantalha e, por vezes, do irritante som de entrada de uma mensagem.

Tendo evitado temporariamente "a tentação de bisbilhotar” que as redes sociais promovem, passamos a navegar pela Internet principalmente para ler e, com toda a naturalidade, vai-se instalando (e continua) uma luta tenaz entre o desejo de contenção e o hábito (de certeza que é um vício) de estar sempre online: as redes sociais fazem ter uma intensa vida social de novo tipo, que absorve como se fosse uma droga. Não me admira, pois, que haja países que proíbam a sua utilização durante a jornada laboral.

Quem sai das redes sociais normalmente o que pretende é, por um lado, diminuir a sobreexposição que as redes sociais provocam quando se tem um número elevado de amigos e, por outro, esbater as margens entre o conhecido (as minhas mensagens) e o desconhecido (o universo de receptores das mensagens): via WhatsApp é possível estabelecer uma relação mais directa com os nossos interlocutores, cuja identidade é mais facilmente comprovável.

Como promessa, risco e possibilidade, uma coisa é o uso da internet no seu conjunto e na sua amplitude e outra, muito diferente é, especificamente, o uso concreto das redes sociais: se o trabalho de divulgação da importância da internet deve ser contínuo, o alerta a propósito das redes sociais deve ser permanente para que a sociedade mantenha uma distância reflexiva da simulação da realidade, que o virtual representa.

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