Opinião

Democracia com democratas

Adebayo Vunge

Jornalista

O prestigiado jornalista, Gustavo Costa, escreveu há dias um artigo muito interessante intitulado « A nossa elite do atraso ».

25/10/2021  Última atualização 10H59
É uma verdadeira pedra no charco para todos, especialmente para os intelectuais e para os políticos angolanos, chamando atenção para a necessidade de cultivarmos a liberdade e aceitarmos, sem condicionalismos, o exercício da crítica, de tal sorte que parafraseou uma cotação do escritor nigeriano Wole Soyinka para quem «a maior ameaça da liberdade é a ausência da crítica».

No fundo, não podemos aceitar o convívio com uma sociedade acéfala que não faz catarse dos seus males. Como alguém disse certamente, não há democracia sem democratas. Daí a necessidade de cultivarmos uma sociedade aberta, no dizer do grande cientista político Karl Popper. Uma sociedade aberta que aceita a diferença mas que não pode conviver nem tolerar qualquer manifestação de violência. Vai daqui que não podemos ficar calados a agressão dos jornalistas da TPA por militantes da UNITA, quando estes se dirigiam às instalações daquele partido para a cobertura da reunião da Comissão Política.

Para o meu espanto e preocupação, vi nas redes sociais algumas pessoas a exultarem de alegria por tal postura. Se já é doentio esse convívio com a violência, mais grave para o Estado Democrático de Direito é quando os jornalistas no exercício da sua missão são molestados por isso. A carteira profissional do jornalista traz uma referência clara. É pedido o apoio, no acesso a todos os locais. Por isso, não entendo que tal possa ocorrer com os nossos jornalistas, o que até tem impacto nos rankings internacionais. Mais estranho é que os partidos e os militantes da oposição são os que mais deveriam acarinhar os jornalistas para que estes difundam as suas mensagens.

Obviamente que uma situação completamente diferente é a postura de rigor, objectividade e maior isenção que impele os jornalistas e, nesse caso particular, aos jornalistas da TPA, seja nessa fase pré-eleitoral como no normal do seu trabalho.
Com base nessa cultura de rigor, é exigível aos jornalistas que se abstenham do sensacionalismo e do imediatismo, em noticiar, este que é um dos males maiores do Jornalismo da New Era, agudizado pelo aparecimento das redes sociais. Essa cultura de rigor deve ser igualmente válida no respeito pelos direitos de personalidade, pela honra e o bom nome.


Não vale pois, a coberto, da liberdade sermos os especialistas na mordaça e nivelamento por baixo como vemos suceder nos nossos dias. Tudo isso contra o vil e vergonhoso artigo publicado recentemente contra o ministro Ricardo d’Abreu. Criam-se convicções mal informadas que desinformam ainda mais o cidadão, prestando-se por isso um mau papel à sociedade e à democracia, que exige sempre o respeito pelo outro. E como o que vale é a pressa, então o falso torna-se o verdadeiro, no que os sociólogos chamam de sociedade da pós-verdade.

Por estes dias também, vale notar a agitação político-partidária nas duas maiores formações do nosso espectro político. MPLA e UNITA devem realizar em breve os respectivos congressos. Cada um com os seus dilemas e particularidades, ambos com uma mesma ambição: vencer as eleições no próximo ano. Em termos mais concretos, o MPLA pretende preservar o seu poder e a UNITA chegar ao poder pela primeira vez. Os estratagemas estão em curso, os estrategas sem dormir para que a meta seja alcançada.

Por ora, vale assistir o desenrolar muito interessante dos factos e esperar que tenhamos maturidade para gerir o processo eleitoral com elevação e sem qualquer instabilidade. Outro aspecto que nos parece evidente: não há vencedores antecipados, como prognosticam uns e outros, o que até seria um erro. Cada um deixe de lado a arrogância de vencedor antes do escrutínio e faça por si para convencer o eleitorado, sobretudo o novo eleitorado partindo do princípio que há uma base de eleitores que está alicerçada na história de cada uma das forças que é, no fundo, um voto dado por adquirido. Não pode ser com discursos tão ocos e tão absurdos como daquele político da oposição que em plena TPA - a tal que dizem não dar espaço à oposição - chegou-nos lá ao ponto de tentar nos fazer acreditar que o nosso Bloco Democrático é um partido de Direita (e já agora, no gozo, até acrescento, de Extrema-Direita!!!), valha-nos Deus com esse nível de políticos sem um mínimo de noção e formação para ouvir tal dislate em horário nobre. Também de nada nos valem políticos que nos mandam à igreja orar para baixar os preços quando até o Executivo está a trabalhar, como é a diversificação e o aumento da produtividade, as privatizações, para além de outras medidas de políticas, como as que enunciou o Presidente no seu discurso sobre o estado da Nação ou ainda a sacra lei da procura e a oferta.
Portanto, a democracia precisa de democratas não de populistas.

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