Reportagem

Deixou emprego na Sonangol para cuidar do filho autista

Kátia Ramos

Jornalista

Ser pai sempre foi o sonho de Jubilado Fernandes, 38 anos, mas não uma prioridade. Segundo ele, atingir as expectativas que o pai depositou a ele era o mais importante, razão pela qual formou-se em Engenharia Química, no exterior, e actuava em alto-mar como trabalhador offshore.

19/03/2022  Última atualização 08H50
© Fotografia por: DR

De regresso ao país, foi, imediatamente, colocado na petrolífera angolana Sonangol, com um grau superior. Nesta senda, realizado profissionalmente, constituiu sua família, e o primogénito tão esperado nasceu autista.


Aqui, começa uma verdadeira história de amor, de pura emoção, que envolve pai e filho, após identificados alguns sinais de anomalia no desenvolvimento psíquico do primogénito, o que complicava a rotina de trabalho. Por causa disso, achou melhor abandonar o emprego, para se dedicar ao acompanhamento do processo de tratamento do filho.

Actualmente, não existe remédios específicos para tratar e curar pessoas com autismo, por isso, Jubilado Fernandes considera ser complicado que essas crianças ainda tenham de viver com o problema da falta de atenção de familiares, inclusive.

Para o caso de seu filho, disse que o médico tem indicado medicamentos que ajudam a combater os sintomas que interferem directamente nas atitudes, às vezes, agressivas que o mesmo apresenta, como a hiperactividade, compassividade e dificuldade para lidar com a frustração e a ansiedade.

Recordou que quando a família descobriu foi um choque para todos, pelo facto de não ter havido históricos familiares idênticos quer do seu, quer do lado da esposa. "Vimos que ele não era disponível como as outras crianças, e olhava fixamente para um local durante horas. Este foi um dos primeiros sintomas”, explicou, para avançar que, aos seis meses, a criança não desenvolvida a fala, fazia movimentos repetitivos e a dificuldade de concentração.

Recorreram aos cuidados médicos, tendo lhes sido informado o diagnóstico do pequeno e, logo, começaram os primeiros cuidados que carecia da atenção total dos progenitores. O tratamento, segundo ele, está a ser capaz de melhorar a comunicação, concentração dos movimentos repetitivos e melhorou a qualidade de vida do casal.

Quando questionado sobre o valor do tratamento, numa altura em que abandonou o trabalho, Jubilado Fernandes disse que não está fácil, mas que viu grande necessidade de o fazer, dada às exigências do processo de evolução do filho. "Meu filho precisa muito da minha atenção e o factor de ficar vários dias fora de casa não estava a contribuir para a evolução dele”.

Quanto à situação financeira, acrescentou que já se passaram três anos e tem desenvolvido trabalhos de software para várias empresas, mas dentro de casa, ao lado do filho.

Lamentou o facto do país não estar preparado para lidar com a patologia, visto que os cuidados médicos e fisioterapêuticos serem ainda muito caros. Por mês, disse gastar 160 mil kwanzas em sessões médicas, fisioterapia, fonoaudióloga, psicoterapeuta, terapia ocupacional, que são específicas para uma pessoa autista.

Jubilado disse que, em casa, ocupa-se a cuidar da alimentação do filho e a desenvolver actividades como musico-terapia, por orientação médica. Acrescentou que vai lutar diante das autoridades locais para a criação de condições nas escolas, no sentido da inclusão não só do autista, mas de outras crianças com diagnósticos considerados diferenciados pelos ignorantes.

Disse que o autismo não é uma doença, mas sim um modo diferente de se expressar e reagir, que, apesar de falta de cura, não se agrava com o avanço da idade. "Quanto mais cedo o diagnóstico e o tratamento ocorrerem, melhor é a qualidade de vida e a autonomia da pessoa”, disse.


  Sacrifícios pelos rebentos 


Nas ruas do bairro Palanca, município do Kilamba Kiaxi, a nossa reportagem conversou com Felisberto Dangui, 36 anos. Este, numa noite de chuva e em época de pandemia, saiu de casa com a esposa, que estava em trabalho de parto. Além da falta de transporte, eram já 02h30, a enxurrada não permitia que chegassem a tempo ao hospital, para a devida assistência médica à mulher.

Dangui recordou com tristeza ser aquele o dia mais difícil da sua vida, em que, após vários gritos da esposa na rua, certas pessoas abriram as portas para lhes prestar ajuda. Neste momento, estavam já rompidas as trompas e, consequentemente, o fluxo do escoamento sanguíneo, o que  contribuiu para a  morte imediata da senhora. Ambos constituíram uma família composta por três filhos.

Devido à saúde débil da bebé, era obrigado a estar constantemente nos hospitais. Por esta razão, perdeu o emprego. O viúvo cuida dos três filhos, sem contar com qualquer apoio de pessoas próximas da família. "Para sustentar os meus meninos de 12, sete e dois anos, faço pequenos trabalhos de montagem de caixilharia”.

Felisberto acrescentou que cuidar sozinho dos meninos não tem sido uma tarefa fácil, mas que não pretende afastá-los de si. "A grande preocpação nesta empreitada de ter os meninos só comigo é memso a falta de emprego. Às vezes, consigo aguentar esta vida, graças à prestação de alimentos vinda da parte dos vizinhos e dos pequenos trabalhos que realizo”.

O pai, que se identifica como batalhador, realçou que o facto do bebé carecer de maior atenção e cuidados de saúde, por nascer abaixo do peso, tem sido um "bico dóbra”. "É uma grande responsabilidade cuidar de filhos sem parceira, tendo em conta que ela era mesmo o suporte na criação e educação das crianças”.

Nesta altura em que está desempregado, Felisberto recordou que recebeu conselhos de muitas pessoas para entregar as crianças a uma instituição de protecção de menores ou a pessoas que queiram estar com elas, mas nunca aceitou tais propostas, pelo amor que tem pelos seus rebentos.  "Não vou fazer isso, vamos sobreviver mesmo na base dos pequenos trabalhos que faço. É difícil, mas sem os meus filhos não vivo”, desabafou.

Felisberto contou que, quando trabalhava, não tinha tempo para ficar com os filhos, mas, hoje, consegue dar banho, fazer comida e estar mais próximos deles.  "Encontrei  uma forma muito significativa de mostrar aos meus filhos que estarei sempre presente na vida deles, mesmo com a ausência da mãe”, rematou.



Há, também, os pais que não o são! 


Nas ruas de Luanda, encontrámos pais portadores de deficiência que usam filhos menores para trabalhar. As crianças pedem esmolas e, no final do dia, dão aos pais a receita recolhida. Sobre isso, as autoridades já estão ao contrapor esta situação, visto que muitas desses menores não têm registo ou cédulas de nascimento.

Muitos desses pais, depois de não suportarem o encargo de serem chefes de família, abandonam as filhos. Por causa disso, o Tribunal de Família de Luanda registou, de 2021 até os dois primeiros meses deste ano, mais de 19 mil casos de fuga à paternidade, sendo 13.512 casos de autoridade paternal não reconhecida, 4.978 processos de estabelecimento de filiação e 901 de falta de prestação de alimento.

Noutro fórum, há casos em que certos pais, reconhecendo o mau comportamento do filho, antecipam os destinos dos mesmos, mesmo que esse pensamento seja a morte! É o caso de um pai que decidiu comprar já um caixão para o filho, ainda vivo, depois de ter conhecimento que este é altamente perigoso.

Ao programa televisivo "Fala_Angola”, da TvZimbo, o pai fez saber que tomou a decisão antecipada de comprar uma urna para o filho ainda em vida, pelo facto do mesmo do jovem estar associado às más práticas. "Meu filho tornou-se um meliante, associado a malfeitores, a pessoas que roubam e matam, aqui no Cacuaco”, lamentou desesperado.

O pai disse que está farto de ver os agentes do SIC, perseguindo o filho, que, na zona, é considerado como um delinquente que vem tirando o sossego de muitas famílias de Cacuaco.

Após informar à Polícia, que, se um dia for informado de que o filho foi encontrado morto, em qualquer ponto de Luanda, disse que está preparado. "O meu salário, às vezes dura três meses para cair, por isso, se ele morrer já estou prevenido com a urna para enterrá-lo”, disse.

O referido pai, com identificação preservada, naõ quer ser apanhado de surpresa quando receber a notícia da morte do filho de quem nunca tinha pensado que fosse se tornar numa pessoa perigosa e procurada pela Polícia. O homem tem 65 anos e trabalha como segurança numa empresa privada.


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