Opinião

Definhamento sindical

Luciano Rocha

Jornalista

O sindicalismo tem, em vários países, vindo a esmorecer, por causas que, paradoxalmente, podem prender-se com o desenvolvimento tecnológico, que permitem avanços de toda a espécie, inclusive, da comunicação.

13/01/2022  Última atualização 07H35
O sindicalismo, nascido no século XIX, na sequência no surgimento das chamadas "sociedades industriais”, foi a forma encontrada pelos trabalhadores de, a uma só voz,  exigirem os mais elementares direitos do ser humano, que lhes eram sonegados pelo patronato.
Alguns dos direitos, consagrados nas constituições de muitos Estados, mesmo que, em alguns deles não passem de letra morta, devem-se à criação dos primeiros sindicatos e dos primeiros sindicalistas.

 Aos exemplos deles, construídos sobre alicerces de coragem, abnegação, em suma, de camaradagem autêntica, sentimento e prática, cada vez mais em desuso, nestes tempos de "usar e deitar fora”,  devem-se, em grande parte, os  direitos conquistados por um número infinito de trabalhadores, mas, igualmente, numa grande percentagem aos países, incluindo aos considerados mais desenvolvidos.

 Os exemplos dos primeiros sindicalistas, muitos dos quais pagaram com a vida, a liberdade, a fome, a indigência, foram seguidos por milhões de trabalhadores de partes distintas do Globo. E não havia, então, as novas tecnologias de comunicação. Não foi, por isso, contudo, que a semente morreu à nascença. Pelo contrário, germinou, espalhou-se, encorajando  seguidores, homens e mulheres, de todas as idades, dispostos a fazerem o mesmo trajecto, sem tempo de chegada conhecido, rumo à dignificação do Ser Humano.

O sindicalismo, até há relativamente pouco tempo, era exercido por militância, fora dos horários de trabalho, até na clandestinidade, com sacrifício das famílias, dos convívios, com horas de deitar, no intuito de recuperar forças para a labuta do dia que se seguia. Ninguém, há não muitos anos,  era sindicalista para ter um vencimento, ser convidado para congressos, viagens, beneficiar de quaisquer regalias ou compensação que não fosse a satisfação do dever cumprido. Exemplos: a reintegração de trabalhador injustamente despedido, acertos salariais ajustados ao aumento do custo de vida, redução do horário de trabalho, reversão de injustiças em promoções e despromoções, despedimentos e admissões, com base no nepotismo, bajulação, interesses dúbios, entre tantas outras causas.

O sindicalismo foi ajustando-se aos tempos e o número de sindicatos cresceu, dividindo-se por sectores específicos, abrangendo trabalhadores não operários, até licenciados, sem desvios relativamente aos interesses de cada profissão.

O sindicalismo era assim e ainda continua a ser, porventura, na maioria dos países, tal como os sindicalistas que honravam e honram os compromissos assumidos.

O mundo laboral, todavia, alterou-se, em alguns aspectos, radicalmente. Da classe operária, na essência da palavra que a define, pouco resta. Os que ainda há estão obrigados a trabalhar por conta própria, logo sem patrões a impor horários e salários, nem a quem reivindicar pagamentos de horas extraordinárias, subsídios.

O apego e incentivo à criação de emprego próprio pode ser outra das razões para o enfraquecimento do sindicalismo. É que os proprietários de um negócio, seja ele qual for, estão impedidos de  formar sindicatos e de os integrar. Era o mesmo que um banqueiro querer inscrever-se num sindicato de bancários.

 As novas tecnologias têm também contribuído - e continuam a fazê-lo - para o definhamento do sindicalismo, por diversos motivos, entre eles porque as máquinas, cada vez mais, substituem o operário tradicional. Atente-se nos casos de linhas de montagens de viaturas automóveis, que é apenas um exemplo, mas há mais. Inclusivamente, nos até recentemente chamados "mangas de alpaca”.

Quem diria que o bancário que nos entregava o dinheiro do salário ou recebia o que queríamos depositar era substituído pelo ATM?

Em qualquer daqueles exemplos, perde-se uma multidão de eventuais sindicalistas e sindicalizados. Ora, sem uns, nem outros, não há sindicatos. Mas continua a haver patronato.              


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