Reportagem

De Silva Porto a Cuito: A transformação de uma cidade que virou escombro, mas renasce para o desenvolvimento

Fernando Cunha

Jornalista

Cuito, capital do Bié e província que determina o marco geodésico e trigonométrico do Centro de Angola, continua a caminhar rumo ao desenvolvimento sustentável.

10/09/2022  Última atualização 08H55
© Fotografia por: DR

A cidade, que completou no dia 31 de Agosto 97 anos, renasce em direcção ao desenvolvimento, com acções estruturantes que continuarão a ser consolidadas pelos próximos cinco anos.

Uma rede viária que vai levar a ligação entre a cidade do Cuito, passando por Catabola, Camacupa, até chegar ao Leste, entre as regiões do Munhango e Luena, está a nascer, o que facilitará a circulação neste corredor preponderante para as trocas comerciais com Litoral, transformando-se numa importante alternativa aos Caminhos-de-Ferro de Benguela (CFB).

Para uma cidade que ficou marcada pelas "cicatrizes” da guerra, facto que durante muitos anos condicionou a vida dos seus habitantes, o Cuito, em 20 anos, repaginou-se para melhor, apresentando melhorias significativas no aspecto infra-estrutural, em que sobressai a edificação da Centralidade Horizonte do Ndjele, os projectos de electrificação geral do município, através do sistema de distribuição integrado de Laúca, e a extensão da rede de distribuição de água potável para todos os bairros da municipalidade, incluindo o centro administrativo do Cunje.

A edificação de 69 novas escolas no âmbito do Programa Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM), possibilitou o ingresso, para o sistema de ensino, de mais de 200 mil novos alunos.

Mas o que marca significativamente o crescimento no sector do ensino do Município do Cuito é o segmento universitário. A região, que outrora dependia exclusivamente da Zona Académica 5, ligada à Universidade José Eduardo dos Santos, hoje por hoje, dispõe de um Instituto Público Superior autónomo, uma Escola Superior Pedagógica, uma universidade, a do Kwanza, e dois Institutos Superiores Politécnicos Privados, que, ao todo, absorvem mais de seis mil estudantes.

Para os próximos cinco anos, o Executivo continuará a materializar os projectos públicos em execução, reforçando o carácter prioritário nos sectores da Saúde e da Educação, mas é no investimento que visa o alargamento da rede rodoviária primária, secundária e terciária, que assenta a principal aposta do Estado relativamente a província, proporcionando a interligação entre as zonas urbanas e o campo, tendo em atenção a evacuação da produção agrícola para os grandes centros de consumo do país.            

Quem foi Silva Porto

António Francisco Ferreira da Silva Porto foi um historiador, explorador, político, diplomata, comerciante e africanista português, que se notabilizou no interior de Angola, mais propriamente nos territórios que hoje dão "corpo” à cidade do Cuito.

Nascido numa família pobre do Porto, em Portugal, Silva Porto cedo procurou oportunidades para crescer na vida. Sendo na época o Brasil um destino óbvio, onde muitos emigrantes portugueses obtinham sucesso, aos 12 anos, partiu com autorização do seu pai para o Rio de Janeiro.

Após trabalhar algum tempo para um comerciante, de cuja remuneração discordava, dedicou-se a trabalhos itinerantes, sendo que aos 18 anos, em terras da Bahia, fez questão de anunciar, no jornal Correio Mercantil, o seu novo nome, a fim de distinguir-se de outro António Ferreira da Silva, acrescentando "Porto" em homenagem à sua cidade natal.

Um dia, no Porto da Bahia, embarcou num navio para Luanda "sem sequer saber onde Angola ficava”, como diria mais tarde.

Vindo do Brasil, chegou ao Planalto do Bié muito antes dos exploradores europeus atravessarem a África, sendo que, durante décadas, foi o único europeu que as populações conheciam como comerciante em plena região planáltica de Angola.

Progressivamente fascinado com o interior de Angola, e com seu primeiro salário, comprou artigos e roupas. Uma vez confiante da quantidade de mercadorias, largou o emprego para começar a sua carreira de 50 anos como comerciante no interior. Tinha 22 anos.

Silva Porto travou muitas amizades com tribos no interior e rapidamente se adaptou às condições de África, onde casou com uma mulher destacada do povo Ovimbundu do Bié, com quem teve vários filhos. Em 1848, Silva Porto foi nomeado capitão donatário interino do Bié.

Por volta de 1850, a exploração portuguesa em África expandira-se, mas o pedido de Silva Porto para um destacamento militar nunca foi atendido: Portugal estava apenas interessado na costa. A partir de Kuito, o limite Leste português, Silva Porto experimentou explorar o interior. Além de mercador e explorador, tornara-se um diplomata entre os colonos portugueses e as tribos Ovimbundu.

  Vitória Atlético Clube longe das vitórias desportivas

José Chaves/Cuito

Fundado a 28 de Agosto de 1935, por adeptos do desporto que não se reviam na cartilha apresentada pelo rival verde e brande do outro lado da cidade do Cuito, o Vitória Atlético Clube é outra colectividade marcante na vida desportiva do Bié.

Contrariamente ao rival leonino, tem um grande passivo financeiro cujas consequências se reflectem na sustentabilidade do seu património imobiliário, que, de acordo com o seu presidente de direcção, Inácio Jamba, tivesse alguma qualidade, poderia ajudar a colmatar muitas despesas que o clube tem.

"Não dispomos de recurso para recuperar o nosso património. O clube não tem apoios de qualquer estrutura estatal, nem tão pouco a solidariedade da própria sociedade biena”, lamenta.

O Estádio do Vitória Atlético Clube do Bié, na baixa da cidade do Cuito, já foi dos maiores orgulhos infra-estruturais dos bienos, cuja qualidade que apresentava nos anos 50 do século passado, permitiu receber, em 29 de Agosto de 1950, a visita da equipa principal do Sport Lisboa e Benfica da época, com Eusébio Ferreira da Silva, Mário Coluna, Simões e Mário Wilson.

Ainda assim, a direcção, cuja composição é reduzida, porque muitos dos integrantes, devido às constantes dificuldades, decidiram abandonar o "barco”, busca apoios no meio empresarial local.

"É um trabalho que não é fácil. Por mais vontade que tenhamos e as promessas que vão existindo, está difícil encontrarmos boas soluções, porque situação económica do país não permite a consumação dos apoios que nos são prometidos há anos”, afirma o presidente do clube.

Os dias que correm, o Vitória, que já foi dos maiores clubes da época de Silva Porto e também dos principais do Centro do País, e que fazia frente aos tradicionais clubes do Huambo, designadamente – Benfica (actual Mambroa) e Ferroviário -, vive apenas da saudade e do orgulho histórico vindo daqueles que ainda lembram do valor que teve e do simbolismo que carregou no contexto desportivo nacional.

Nas décadas de 70, 80 e 90 do século passado, passaram pelo Vitória Atlético Clube do Bié futebolistas de gabarito internacional, nomeadamente Laurindo, que jogou no FC Porto e Belenense de Portugal, Jorge Dombolo, Francisco Ramon da Cruz, Minguito (marcador do primeiro golo do Girabola, na edição 1979), e ainda Balsa, Sayombo, Mito (que desfilou também o seu potencial no Petro do Huambo), Bekc (que jogou no ASA), Chindumbo, Cuyanga, Henrique Leite, Nelson Lemos, Caty, Henrique Barbosa, Chano ou ainda Lopes.


CLUBES HISTÓRICOS DO BIÉ
Sporting e Victória Atlético Clube marcam antiga Silva Porto no desporto

Fernando Cunha/Cuito

 

Um vive aparentemente estável, o outro apenas da saudade e dos feitos do passado. Sporting e Victória Atlético Clube evidenciam duas facetas de como o desporto se encontra na província do Bié.

Ambas colectividades, uma já secular e outra não tão longe do centenário, marcaram, na década de 50 do século passado, disputas desportivas que mexeram com a baixa da grande Silva Porto (hoje cidade do Cuito), contando nas suas fileiras com figuras como João Madureira ou Velez António - futebolistas de referência na época -, que chegaram a defrontar, em 1963, o Benfica de Lisboa, detentor da Taça Latina.

Hoje por hoje, qualquer dos clubes cujas marcas foram referências da Cidade do Cuito, vivem destinos diferentes. O Sporting, que se apresenta sempre como representante do desporto na província, e o Victória Atlético Clube, que se identifica com a Silva Porto das proximidades dos bairros Catraio e Catemo, continuam, juntos, a defender um objectivo comum: a manutenção do Bié na rota desportiva nacional.

Com 107 anos nas lides desportivas, o Sporting Clube do Bié é a mais antiga agremiação desportiva da província e das poucas seculares em Angola. Fundado em 3 de Maio de 1915, foi a filial nº 88 do Sporting Clube de Portugal, sendo sempre uma referência desportiva do país antes da independência nacional, em 11 de Novembro de 1975. Após este período, perdeu a sua ligação à casa mãe, chegando mesmo a fechar as portas, por falta de apoios financeiros para continuar a exercer a sua actividade.

Anos mais tarde fundiu-se com o Desportivo da Sonangol - uma agremiação desportiva criada por força do contexto da época -, passando assim a designar-se por União Sport do Bié. Na década de 80 do século XX, chegou ainda a chamar-se União Petro do Bié, por força da parceira com a petrolífera nacional.

Nos anos 1990, ganhou a designação de Sporting Clube Petróleos do Bié, deixando então de utilizar as cores verde e branca do Sporting Clube de Portugal. Entretanto, em 2012, voltou a utilizar as cores e o símbolo do Leão.

Apesar de mergulhado em dificuldades financeiras, que afectam grandemente a sua organização desportiva, a instituição ainda é orgulho para os poucos sócios vivos residentes na província e de grande parte da juventude "desportiva” do Bié.

Paulo Jorge Capama, o actual presidente de direcção, disse ao Jornal de Angola, que, independentemente de toda a gama de dificuldades que afecta a organização e a vertente desportiva da instituição, os dirigentes, sócios, amigos e a própria sociedade biéna, trabalha para a recuperação do clube.

 "São 107 anos a rugir no centro de Angola, e esse tempo faz-nos acreditar, que se mantivermos o foco naquilo que são os propósitos que a direcção tem para o clube, é possível sairmos da situação difícil em que nos encontramos”, diz esperançoso.

O presidente do emblemático clube do Cuito – que afirma ser de todos os biénos -, diz que o clube sobrevive principalmente dos valores provenientes do arrendamento do património que dispõe, nomeadamente o campo de futebol, local onde o Futebol Clube Cuando Cubango disputa as suas partidas para o Girabola, na condição de visitado; das instalações do seu pavilhão gimnodesportivo e da sala de cinema.

Entretanto, reconhece que os valores dali resultantes são exíguos para satisfazer o pagamento dos encargos financeiros que a instituição tem mensalmente com fornecedores ou prestadores de serviços.   

Segundo ele, o principal patrocinador do Sporting Clube do Bié, a empresa petrolífera francesa Total, há quatro anos que deixou de prestar a sua contribuição financeira, situação que afectou as contas do clube.

"Apesar do plano que a direcção tem elaborado para a recuperação financeira do Sporting, há conversações com antigo patrocinador, a Total, na perspectiva de que o apoio regresse, augurando que melhores dias regressem ao reino do Leão do Centro de Angola. Ainda assim, apelamos também às instituições que velam pelo desporto no país que olhem também para a nossa agremiação”.  

O Sporting, que participou na primeira edição do Campeonato Nacional de Futebol da I Divisão, Girabola, em 1979, na altura disputado no sistema regional de quatro séries, em que o campeão foi o 1º de Agosto – que derrotou na final, disputada no Estádio Nacional da Cidadela, o Nacional de Benguela, por 2-1 -, tem competido em competições a nível local e em disputas desportivas regionais, com clubes da província do Huambo.

Instituto Superior Politécnico referência no ensino superior

Xavier Candumba                     

 e Nivaldino de Carvalho | Cuito

 

A primeira instituição privada de ensino superior na província do Bié, o Instituto Superior Politécnico do Cuito (ISPC), tem sido uma das principais precursoras no lançamento de quadros para as diversas áreas do saber.

O ISPC é uma instituição de ensino que ministra 14 cursos em diversas especialidades do saber, nomeadamente Direito, Economia, Contabilidade e Gestão, Administração, Gestão Escolar, Psicologia do Trabalho, Psicologia da Educação, Psicologia Clínica, Comunicação Social, Instrução Primaria, Engenharias de Informática e de Telecomunicações, Enfermagem e Análises Clínicas.

Falando ao Jornal de Angola, o director-geral da instituição, Fernando Chitumba, disse que a instituição arrancou as suas actividades em 2017, com 384 estudantes e 87 professores. Hoje, conta com mais de cinco mil estudantes, subdivididos pelos 14 cursos que ministra e 200 docentes entre efectivos e colaboradores.

Para o ano lectivo 2022-2023, que começa em Outubro, o ISPC tem disponíveis 1.770 vagas, distribuídas pelos 14 cursos.

Segundo o gestor da instituição, o ISPC dispõe de todas as condições exigidas pelo Ministério do Ensino Superior para o desenvolvimento lectivo das actividades de uma instituição do género, com um edifício de grande porte, composto por 120 salas de aulas e que comporta desde laboratórios, bibliotecas, sala de professores, secretaria, anfiteatro e extenso parque de estacionamento para viaturas.


FADIANG, a Fábrica dos Discos que um dia orgulhou os bienos

Fernando Cunha/Cuito

 

FADIANG é uma sigla que deixa a lacrimejar qualquer cidadão "cuitense” que viveu e conheceu um dos expoentes máximos da cultura nacional dos anos 30 do século XX.

A célebre Fábrica de Discos de Angola, situada numa das zonas mais nobres da cidade do Cuito, que ajudou a guindar para o pedestal da fama ritmistas, cantores e instrumentistas que marcaram a música angolana, como Licéu Vieira Dias, Alberto Teta Lando, David Zé ou ainda agrupamentos do calibre dos Kiezos, Merengues ou Ngola Ritmo, é hoje apenas e só sombra de um passado que o tempo levou.

À entrada para a estrutura do edifício de três andares onde se alojou a Fábrica de Discos de Angola (FADIANG), na cidade do Cuito, quase mais nada há da estrutura que um dia chegou a ser – a par da editora Valentim de Carvalho, em Luanda -, uma das maiores fábricas de produção de discos em vinil de África.

José Luís Mendonça, jornalista e escritor angolano, escreveu, em 2021, para as páginas do Jornal de Angola, em jeito de opinião, o seguinte: " (…) No tempo colonial, havia uma fábrica de discos musicais no Bié, a FADIANG. E eu só seria governador do Bié se conseguisse erguer outra fábrica de discos no Bié”.

Em 2011, o Presidente José Eduardo dos Santos aprovou, nas vestes de Chefe do Executivo, uma verba cujo caderno de encargo incluía a reabilitação de duas fábricas de discos de vinil. Uma em Luanda e outra no Cuito, no caso em concreto a FADIANG, que estava paralisada, na época, tinha 30 anos, devido ao conflito armado.

Na altura, o guitarrista e director artístico do agrupamento musical Os Kiezos, Hildebrando de Jesus Cunha "Brando”, destacou a importância da reabilitação que poderia ser feita às estruturas da Fábrica de Discos de Angola e o que a mesma representaria para o contexto de revitalização da indústria fonográfica em Angola.     

Entretanto, o processo recuperação da FADIANG nunca avançou. Em 2021, apenas ensaiou-se algumas pinturas, no exterior da estrutura do edifício de três andares em que ficava situada a FADIANG.

Naquele local, onde um dia se produziu discos de vinil de músicos angolanos e estrangeiros, hoje pouco resta da fábrica, além de alguns vestígios e os escombros como lembrança.

José Brando Couto, hoje com 71 anos e morador na cidade do Cuito, lembra que sua tia, Maria Angelina, que trabalhou na FADIANG e na Rádio Reparadora de Silva Porto, com a atribuição de seleccionar os grupos mais interessantes da época, disse que muitos músicos faziam as gravações na Valentim de Carvalho, em Luanda, e depois  iam para "Silva Porto para editar os seus discos”, lembra. 

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