Reportagem

De professor a apresentador do programa em kimbundu da RNA

Avelino Umba|

Professor, jornalista, jurista e apresentador de programa de rádio, homem de voz tremenda, bastante conhecida na capital, Domingos António ou simplesmente “Balumuka”, que em português significa acordar, ganhou esta alcunha por conduzir o programa com o mesmo nome na Rádio Luanda, do grupo RNA, das 5h00 às 6h00 da manhã, de segunda à sexta-feira.

21/08/2022  Última atualização 10H40
© Fotografia por: DR
O profissional diz  que por natureza  evita o imediatismo. Por conta disso, segundo afirma, Deus o ajudou a trilhar o seu caminho, embora saiba que a vida é uma estrada sempre por abrir 

De trato fácil, Domingos António fala e escreve fluentemente a língua nacional kimbundu. Apesar de não revelar a sua idade, conta que aprendeu a falar fluentemente esta língua com parentes no seu bairro Cazenga, em Luanda .Confessa que ouviu, pela primeira vez o programa em língua nacional kimbundu ainda no tempo colonial. 

Para ele a aparição na Rádio Nacional foi como um sonho que começou em Cabinda, na década de 1990, na Escola de Professores do Futuro (ADPP) onde, na altura, fazia a formação.

Ali, fez parte do grupo de jovens que na altura fazia e editava o "Jornal Nsangu”, que divulgava as actividades da escola e de modo geral da região.   Com o tempo ganhou o gosto pela escrita, mas confessa que a sua paixão pela rádio sempre se sobrepôs à imprensa escrita.   "Curiosamente, escrevi para o director da Rádio Ngola Yetu, na altura o senhor Irineu Pascoal (em memória), para ser correspondente do programa em língua nacional kimbundu a partir de Cabinda (sem encargo financeiro para a RNA), tendo sido aceite tempo depois”, lembra.  

Deste modo, passado algum tempo recebeu a proposta para passar para o Serviço Internacional da Rádio Nacional, mais especificamente para o programa em língua inglesa.  Regressado a Luanda  é admitido nos quadros do serviços em língua internacional. Mais tarde passou a colaborar no programa em kimbundu com a criação do espaço Fórum Jurídico, cujo objectivo é ajudar o público a ter cultura jurídica, que vai ao ar todas as quintas-feiras, às 5 horas, na Rádio Luanda.

Questionado se tem noção da audiência do seu programa, Balumuka assegura que só há um ano começou a ter consciência disso.  

Orgulho pelo trabalho

Com uma audiência própria bastante vasta, que abrange todos os níveis e faixas etárias, particularmente em Luanda, Balumuka diz que, ao perceber que muitos gostam de ouvir o seu programa, sente-se orgulhoso.  Afirma ter recebido elogios de muitas pessoas bem-intencionadas. "Eu não estou muito preocupado com os elogios, mas sim com o efeito que o meu trabalho possa ter no público. Sinto-me satisfeito quando alguém liga e diz que graças ao programa conseguiu resolver o seu problema”. 

"Se Jesus Cristo uma vez curou dez leprosos, mas só um voltou para agradecer, quem sou eu para ficar preocupado com a ausência de elogios? Afinal, eles (elogios) não tornarão o cabelo preto ou branco!”. 

Questionado se já foi vítima de preconceito por apresentar o programa em língua nacional,  respondeu que vezes sem conta já passou por isso, mas que não lhe diminui nem aumenta alguma coisa. "A perspicácia leva-me a olhar não para a atitude das pessoas, mas para os factores que as leva a agir desta forma. Quando possível, tento consciencializar as pessoas sobre a riqueza do nosso mosaico cultural, que obviamente inclui as nossas línguas nacionais”.

 Língua como meio congregacional  

"A língua pode ser ‘um oásis no deserto’ ou ‘um fogo’, depende das intenções de quem a quer usar como factor congregacional ou ‘arma de arremesso’ para desunião”, defende Balumuka.  

Para ele, foi bom Angola ter optado pela Unidade Nacional, evitando elevar uma língua como sendo mais importante que a outra (vide artº 2º e 23º da CRA).

"Até aqui, Angola difere, em grande parte, de alguns países africanos que têm vivenciado conflitos etnolinguísticos, como é o caso do Rwanda, que tem a história manchada de sangue pelo genocídio entre hutus e tutsis ocorrido em 1994”, argumentou. 

Apesar disso, Domingos Balumuka defende a valorização das línguas africanas no geral, sobretudo pelas novas gerações. "É necessário ensinar as novas gerações a valorizar o que é nosso. A constitucionalização das nossas línguas é um marco histórico para a cultura linguística nacional. Agora resta a sua implementação na prática, lembrando que cada um deve fazer a sua parte, bastando para isso o incentivo”.

Na sua visão, a redução do número de falantes das línguas maternas tem a ver com a falta de políticas concretas para a sua massificação e aponta exemplos de países como a Namíbia, RDC, Zâmbia e África do Sul, para citar alguns que têm as línguas nacionais mais valorizadas. "Nestes países, também colonizados por ocidentais, não é raro encontrar jornais e outras publicações nas línguas locais, mas entre nós alguma coisa já foi feita. A criação de um canal próprio para as línguas nacionais na RNA, a Rádio Ngola Yetu, faz jus ao artigo 2º da CRA”.


Promoção das línguas nacionais 

A falta de políticas exequíveis tem dificultado a promoção das línguas nacionais. Domingos Balumuka argumenta que, por exemplo, se forem usadas as políticas de promoção das línguas estrangeiras, como é o caso particular do Inglês, muito poderá ser alcançado e aponta como exemplo o município do Cazenga, em Luanda, que conseguiu massificar a língua inglesa a partir de 1979, com a ousadia de um jovem, que hoje ficou conhecido como o "Pai do Inglês do Cazenga”. Trata-se de Paulo Pinheiro, carinhosamente tratado por  Mr Paul. 

"Se levarmos esta inspiração para as línguas locais, com os devidos apoios, muito pode ser alcançado. Temos que acreditar primeiro em nós mesmos, porque o fracasso começa por deixar de acreditar naquilo que são os nossos objectivos”, disse.

Mas, apesar de tudo, acredita que as gerações mais jovens estão a ser mais tolerantes e acha possível que o preconceito em relação às línguas nacionais aos poucos deixa de existir, na medida em que começam a se dar conta que os estrangeiros estão a valorizar mais as nossas línguas e a nossa cultura. E comparou o que se passa em alguns Estados do Brasil, onde o kimbundu é ensinado nas escolas públicas, nomeadamente em  São Paulo e na Bahia.


Variantes do kimbundu  

As variantes do kimbundu, como são os casos de Mbaka, Mbondo, Lenge, Njinga, etc… não significam barreiras para os seus falantes, porquanto só se está na presença de uma mesma língua. 

"No kimbundu, temos as variantes Mbaka, Mbondo, Lenge, Njinga, etc. Estas são assim destrinçadas por razões puramente didácticas, e não discriminatórias, pois o kimbundu é um só, apesar destas variantes. Isto até confere uma certa ‘beleza’ à própria língua”.

Este registo, de acordo com Balumuka, é  importante principalmente para questões didácticas, tal como acontece com as diversas línguas do mundo. Este registo pode também ajudar a identificar melhor a concentração dos falantes em certas regiões do país, para questões de estatística. 

 "Eu, pelo contrário, sempre ajudei as pessoas a perceberem que usar uma variante diferente daquela usada por outra pessoa da mesma língua, não constitui erro. Por exemplo, há quem chama a mandioca de ‘mutombo’, já na variante padrão o termo é ‘mukamba’, mas como dito supra, não constitui erro”.

 
Línguas internacionais

O também apresentador da língua inglesa no Canal 1 da Rádio Nacional de Angola conta que sempre se apaixonou pela língua inglesa, razão pela qual deixou de buscar outras vantagens da época, para ir atrás deste idioma. Tudo começou no Cazenga, região de Luanda com a fama de ser o "celeiro da Língua Inglesa”.

"Fiz tudo para estar entre muitos com a determinação de aprender esta língua. Naquela época não havia ainda muitas escolas ou centros de línguas bem estruturados. Eram quintais, cantinas, nalguns casos igrejas, qualquer estrutura onde desse para ser improvisada uma sala para aulas de Inglês! Fui estudando em muitos destes sítios, porque acontecia muitas vezes que o proprietário da ‘estrutura’ precisava já do ‘cantinho’ para outros fins; não restava outra coisa senão continuarmos a ser ‘nómadas’. Depois do êxodo para vários recintos, por fim terminei com sucesso o meu curso de Inglês na varanda da casa do próprio professor. Foram tempos de muita inspiração”, conta.

Com passagem por um período de 18 anos no programa em Inglês da RNA, onde teve o privilégio de trabalhar, actualmente está definitivamente transferido para a Rádio Luanda, no programa Balumuka, mas assegura que uma vez ou outra ainda presta serviço no programa em Inglês, onde diz já ter "Carta Branca”, pois também tem sido convidado para tradução quando surge necessidade, assim como dá aulas de Inglês algures na cidade de Luanda.

Disse estar satisfeito com o que aprendeu da língua inglesa, apesar de não ter tido uma escola específica para sua aprendizagem, mas o que aprendeu nos vários locais improvisados deixa boquiaberta muita gente. 

Balumuka estima as amizades novas, com aqueles que aprenderam a falar a língua em condições análogas, e que depois passaram a leccionar. É o caso  de Rodolfo Kikolo, que por sinal partilhou consigo o microfone no Canal Internacional. E menciona também Phil Nelo, que trabalha actualmente na Embaixada americana, Master Beto, que lecciona no ITEL, Vicente Manuel, irmão mais velho de Cabingano Manuel, e Isaac Quintas (-com quem privou o microfone), pessoas que muito contribuíram para o seu desenvolvimento na Língua Inglesa, não esquecendo Mr. Paul, o "patriarca” do Inglês no Cazenga.

 

Curiosidade sobre Balumuka

Há muita polémica à volta do seu pseudónimo Balumuka. Várias são as vozes que se levantam em julgamento para dizer que ele se auto-apelidou Balumuka por ser um dos apresentadores do programa com o mesmo nome. Para esclarecer esta e outras questões à  volta do nome, disse:  "Nasci num domingo. Fui sempre apaixonado pela rádio. Em 1995 o programa ‘Mahezu’ da RNA, que era apresentado pelos locutores Daniel Alberto, Amaro Fonseca e Kateku Kangola (os dois últimos em memória), muda de nome para ‘Balumuka’, por iniciativa do Amaro Fonseca, como resultado da sua criatividade. Na época, quando se criou a Rádio Luanda, depois de estruturada a sua grelha de programas, havia restado apenas a hora 5/6 da manhã. O director da referida estação, Humberto Jorge (em memória), informa aos locutores do ‘Mahezu’ que esta era a hora que havia restado para eles. Isto implicou que o ‘Mahezu’, que era apresentado às 12 horas, passasse para aquele horário. Por algum tempo foi assim. Mas não demorou muito até que o finado Amaro Fonseca desse conta da necessidade da mudança do nome, em função da hora.

Numa conversa com os parentes algures em Luanda, ele desabafou que o nome ‘Mahezu’ já não se ajustava ao momento, dizendo que pretendia que tomasse o nome ‘Balumukenu’, ao que seus parentes elogiaram, mas com uma sugestão que seria discutida. Um dos seus parentes, Castro ‘Castruque’ (em memória) sugeriu que ficasse ‘Balumuka’. E assim pegou”.

 

"Bom ouvinte de rádio”

"Fui sempre bom ouvinte de rádio, principalmente do programa da manhã em língua nacional kimbundu. Todos os dias eu contava as ‘cenas’ que ouvia no programa. E sempre que possível as contava em língua nacional kimbundu.  Foi assim que, em tom de brincadeira, alguns amigos, como o Agostinho Jerónimo, Teresa Jerónimo, Francisco dos Santos (em memória), Sousa Agostinho, entre outros, apelidaram-me ‘Balumuka’. Isto foi em 1996”.

"Quando se referissem a Domingos, perguntavam ‘qual Domingos?’. E diziam: ‘O Balumuka’. Foi assim que fiquei conhecido como tal, numa altura em que ainda não tinha vínculo com a RNA, nem conhecia pessoalmente o inesquecível Amaro Fonseca, pois só o conheci pessoalmente em 2003, quando eu já trabalhava para o Canal Internacional. Na época, o Rodolfo Kikolo sugeriu que eu falasse com o finado, no sentido de passar a fazer reportagens para ele, para que eu não desperdiçasse o meu talento na língua kimbundu”.

"Fui feliz por ter sido um colaborador do Amaro. Mas em 2009, quando o Mateus Cristóvão, na condição de director da Rádio Luanda, pediu ao finado Amaro Fonseca para reforçar a equipa com mais um apresentador,  este disse que eu era o potencial candidato para juntar-me a ele”. 

Balumuka confessa que nunca tinha esperado por este reconhecimento e recorda os bons momentos que privou profissionalmente com Amaro Fonseca. Lembra que um dia ele disse: "Domingos Balumuka, estão a chegar os meus dias de reforma e tenho você como aquele que vai continuar o legado. Há muitas coisas que falava comigo, mas esta conversa sempre a guardo  comigo no coração. Em termos de transmissão de legado ele foi um bom pai de família”, concluiu o radialista.


Perfil 

Nome
Domingos António "Balumuka”

Data de nascimento
Imitando Cristo,a data do seu nascimento por opção é um caso omisso. Diz ter nascido no mês de Março, ainda no século XX.

Naturalidade
Calandula (então Duque de Bragança), Malanje

Estado Civil
Casado

 Filhos
Três lindas princesas, em dois partos, uma grande herança de Deus, quis o Criador que duas nascessem no mesmo dia

Formação Académica
Licenciatura em Direito, pelo Instituto Superior Politécnico do Cazenga (ISPOCA)

 Formação profissional

 Curso Básico de Jornalismo,pelo CEFOJOR, Curso Básico de Língua Inglesa, pela Practical Language School, Pedagogia pela Escola de Professores do Futuro (ADPP)-Cabinda

 Prato  preferido
Funje de bombó com carne de caça

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