Reportagem

De Luanda ao Namibe e ao Cuito por estrada

Guilhermino Alberto

Com o fim da cerca sanitária, decretada em Março de 2020 e levantada a 1 de Setembro de 2021, o Conselho de Administração da Edições Novembro, empresa proprietária do Jornal de Angola e de dez outros títulos, para sentir o pulsar do país real, decidiu lançar, este mês, o jornal regional “O Litoral “, para cobrir as províncias de Benguela e do Cuanza-Sul, e relançar os jornais, também regionais, “Ventos do Sul” e “Planalto”

12/10/2021  Última atualização 08H50
© Fotografia por: Edições Novembro
Sair de Luanda ao Namibe e, depois, chegar ao Huambo e ao Bié, por estrada, num percurso, de ida e volta, de mais de dois mil quilómetros, é uma aventura que vale a pena viver, agora que a capital do país se começa a libertar das amarras da pandemia da Covid-19, que durante 18 longos meses tolheu o movimento de pessoas para fora da capital do país. Uma aventura que as páginas do Jornal de Angola vão procurar contar, hoje, às pessoas:


Com o fim da cerca sanitária, decretada em Março de 2020 e levantada a 1 de Setembro de 2021, o Conselho de Administração da Edições Novembro, empresa proprietária do Jornal de Angola e de 10 outros títulos, para sentir o pulsar do país real, decidiu lançar, este mês, o jornal regional "O Litoral ", para cobrir as províncias de Benguela e do Cuanza-Sul, e relançar os jornais, também regionais, "Ventos do Sul” e "Planalto”.


  O primeiro para cobrir as províncias do Cuando Cubango, Cunene e Namibe e o segundo para levar ao país e ao mundo o pulsar económico, social e cultural das províncias do Huambo, Bié e Huíla. Tudo isso depois de ter lançado, em Maio, em Caxito, o jornal regional"Angoleme”, para cobrir as províncias do Bengo, Cuanza-Norte e Malanje. Em Junho, foi lançado o Jornal "Nkanda”, na histórica cidade de Mbanza Kongo, para divulgar as realizações das populações de Cabinda, Zaire e Uíge. Foi no quadro desse amplo movimento de divulgação da realidade local ao país e ao mundo que Drumond Jaime, presidente do Conselho de Administração da Edições Novembro e seus principais colaboradores decidiram, segunda-feira, 5 de Outubro, levar ao Cuanza-Sul e a Benguela o novo jornal "O Litoral”, ao Namibe o "Ventos do Sul” e à Huíla, Huambo e Bié o jornal "O Planalto”, percorrendo de autocarro, da TCUL, mais de dois mil quilómetros de estrada em sete dias. Foram sete dias que serviram para sentir que de Luanda ao Sumbe, capital do Cuanza-Sul, os 329,3 quilómetros, que separam as duas cidades, permitem uma circulação rápida e tranquila. Em caso de necessidade, para pedir ajuda não há falhas na rede de telecomunicações, embora a movimentada e estreita Estrada Nacional 100 (EN 100) clame por obras de ampliação, para uma circulação mais segura.


São, também, visíveis, em alguns pontos do percurso, pequenas ravinas a pedirem intervenção de brigadas de manutenção do Instituto de Estradas de Angola (INEA). No Sumbe, a cidade governada por Job Capapinha, há um grande movimento de homens e máquinas para tornar o local menos poeirento e mais atractivo ao turismo. Com obras bem feitas, o Cuanza-Sul pode tornar-se num destino turístico de eleição. Outra nota, à entrada do Sumbe, é a manutenção da estrutura original dos conhecidos "prédios dos cubanos”, que em alguns bairros de Luanda estão transformados em verdadeiros chimbecos, com cantinas que são uma ofensa à estética e ao bom gosto.

Seca no Sul do país


Nesta aventura de levar informação às regiões deste vasto país deu para sentir na alma os efeitos nefastos da seca para a vida das populações do Centro e Sul do país. Rios intermitentes e bebedouros completamente ressequidos dão uma imagem sofrida do meio. Os campos secos entre o Cuanza-Sul, Benguela, Huíla e Namibe testemunham que as alterações climáticas têm afectado profundamente o tecido social e económico de milhares de famílias, que têm na agricultura de subsistência e na criação de gado bovino e caprino o principal sustento. Neste corredor, as zonas húmidas são, em muitos casos, a única alternativa para alguma sementeira e dar de beber ao gado. São essas disputadas zonas húmidas que alimentam os mercados de beira de estrada com milho, alho, cebola, batata doce, batata rena e tomate, mas não nas quantidades de um passado recente, quando as chuvas eram abundantes.
Porém, o mercado, na região, não se fica pelos tubérculos e hortícolas. O que também abunda são frutas tropicais, como laranja, banana, abacaxi, abacate, loengos, maboques e morangos.


Na comuna de Catongue, em Benguela, e no Hoque, na província da Huíla, além da venda de carne bovina e de caça, é possível comprar, à beira da estrada, cabritos, galinhas, ovos e coelhos.
Na Humpata, Huíla, há um mercado em que se pode comer um bom frango cabiri assado na brasa.
Falando em brasa, do Sumbe ao Namibe, de Caimbambo à Ganda, província de Benguela, e de Chicala Cholohanga (Huambo) ao Cuito (Bié), há uma grande produção de carvão, o que reflecte um processo contínuo de devastação florestal. Aliás, o autocarro da TCUL que transportava a equipa da Edições Novembro, passou por um camião IFA, do tempo da antiga República Democrática Alemã (RDA), excessivamente carregado de sacos de carvão vegetal. A floresta está a morrer.


Já chove na Ganda


No corredor entre Caimbambo e Ganda choveu nos últimos dois dias e as populações já lançaram sementes à terra, esperando por boas colheitas. A caminho do Cuito, é perceptível o verde dos campos em Chicala Chilohanga, Catchiungo (Huambo) e Chinguar (Bié), onde produtos como feijão e batata rena são vendidos à beira da estrada, uma estrutura que permite uma rápida circulação de pessoas e de bens. A velha vila de Chinguar continua a grande produtora de mel de outros tempos.
A caminho do Waku Kungo, o mercado do Cinco tinha ontem cebola, alho, batata rena, feijão e muito abacate.


Buracos na estrada

É penosa a circulação rodoviária entre Catongue e Chongoroi, na província de Benguela. Sentimos isso na própria pele. Um percurso que devia ser feito em pouco menos de uma hora, levou três horas a percorrer. Os nossos valorosos automobilistas da TCUL, João António e Alberto Panda, foram obrigados, vezes sem conta, a um verdadeiro exercício de gincana, à direita e à esquerda, para evitarem potenciais choques frontais fatais, como o que ocorreu entre dois camiões de contentores, a poucos quilómetros de Chongoroi, em que a cabina de um dos carros ficou, literalmente, amassada. Enquanto não chove na região, as brigadas de manutenção deviam passar asfalto em todos aqueles buracos de estrada já demarcados. Não deve custar tanto assim.


Há, também, um bom pedaço de estrada, entre a comuna da Canjala e a cidade portuária do Lobito, cujos buracos ameaçam, todos os dias, a livre circulação de pessoas e bens. Aquilo é um perigo para quem circula no período nocturno. Canjala não precisa, em tempo de paz, de verter mais sangue na estrada.
Também há muitos buracos no percurso entre o Alto Catumbela e Chinjenje.
Mas deixemos os buracos para trás e avancemos para o Lubango, passando pela comuna de Kutembo, a da famosa ponte que num ano desabou quatro vezes e cortou a circulação, durante dias, entre a Huíla e Benguela. Agora tem as obras de uma ponte consistente quase concluídas.


Na vila Quilengues, Huíla, com as suas peculiares paragens de autocarros, pintadas de verde, e o gado que procura pasto, chamou a atenção da nossa reportagem as enormes filas nos multicaixas, quadro que se repetia um pouco por todo o lado, tanto em Benguela, Huambo, Lubango, como na calma cidade de Moçamedes, capital da província do Namibe. A caminho de Moçamedes, a passagem pela Serra da Leba, com uma altitude de 2.620 metros, cria sempre aquele friozinho na barriga e um misto de emoções, entre o medo de cair no abismo e o deslumbramento de tão imponente obra de arte, construída em 1915 pelo engenheiro português Artur Torres. A estrada da Serra da Leba, que liga o Lubango e Moçamedes em duas horas, é uma obra de arte de 20 quilómetros e 19 curvas.


Estrutura arquitectónica
Para quem chega a Benguela, Lubango e Moçamedes, proveniente de Luanda, salta à vista a ausência de grandes muros a cercar as casas do casco urbano e de bairros sociais. Aqui, os muros intransponíveis que deformaram muitas cidades do país, não são permitidos. Os fiscais sanitários e da administração têm o trabalho de inspecção facilitado. Os grandes campos para a prática de futebol também continuam intactos, não foram transformados em armazéns de venda a grosso de produtos alimentares. A criançada tem espaço para passar os tempos livres.


Estas cidades tratam os antigos edifícios com todo o cuidado. Em Moçamedes, Benguela e Lubango há o respeito pela história e pela preservação do património imobiliário nacional. Mesmo com alguns sinais de degradação, as autoridades locais procuram conservar os velhos edifícios coloniais.

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