Reportagem

De lavadeira a maquinista de comboio

Domingos Mucuta | Lubango

Jornalista

O apito do comboio soa altivo. A buzina ensurdecedora chama a atenção. Muitos param para olhar. Emocionadas, crianças assistem de longe. Apontam e gritam “olha o comboio da Matala”. A locomotiva de carga passa pela zona da Mukanka, arredores do Lubango, na Huíla.

27/03/2022  Última atualização 08H15
© Fotografia por: Arimateia Baptista | Edições Novembro | Huíla

É quase impossível a locomotiva passar despercebida por ali. O comboio trilha os carris dos Caminhos-de-Ferro de Moçamedes (CFM), em direcção à Estação principal do Lubango. Os adultos e crianças, que assistem à passagem, nem imaginam que aquela locomotiva está a ser tripulada por uma mulher.

Nos manípulos do comboio proveniente da comuna da Arimba, município do Lubango, está a maquinista Elizabeth Cahamba. Numa velocidade normal, Beth, como é carinhosamente tratada pelos colegas e amigos, conduz tranquilamente a composição até estacionar.

A missão de tirar o comboio do carregamento da Arimba está cumprida. Foi uma operação feita ao longo de cerca de 10 quilómetros. A distância é curta. Mas significativa para Elizabeth que "estreou” como maquinista de locomotiva há cerca de seis meses. "Eu comecei como lavadeira. Não podia ficar por ali. Decidi desafiar as minhas capacidades  e buscar novos rumos profissionais. Estou disposta a aprender cada vez mais e tripular o comboio. Sei que sou capaz”, afirma, confiante.

A trajectória profissional de Elizabeth Cahamba nos Caminhos-de-Ferro de Moçamedes começou há 11 anos, quando foi admitida como lavadeira. Inspirada por uma maquinista sénior chamada Sónia, já reformada, ela ganhou interesse pelos manípulos da locomotiva e lutou pelo sonho.

"Ela foi uma maquinista inspiradora. É uma senhora que despertou a minha curiosidade e vontade. Com ela comecei a sonhar e ganhei confiança para acreditar que seria possível”, argumenta.

Beth aproveitou o concurso público interno, lançado pela empresa para concorrer a vagas disponíveis na área. Elizabeth e mais outras três colegas beneficiaram de formação teórica e prática para aperfeiçoar conhecimentos técnicos.

"Foi uma oportunidade de mudar de área e de vida. Não podia perder esta oportunidade. No curso aprendemos muitos procedimentos técnicos sobre como operar as máquinas com segurança. Sempre gostei de ser maquinista”, revela.

Beth está animada para, a partir da cabine do comboio, contribuir para o alcance dos objectivos traçados pelo Conselho de Administração do CFM. "Agora estou na profissão certa. Estou a dar o meu máximo. Vamos trabalhar para engradecer a nossa empresa”, declara.

Desafio profissional

Elizabeth não é a única mulher do CFM a tripular um comboio. Há sete anos, Rosa Amândio inspirou-se também na antiga maquinista Sónia. "Desde que entrei no CFM sempre quis ser como ela. Aquela senhora era muito boa profissional. Por isso motivou-me a seguir esta carreira”, diz.

Rosa quer ser a melhor maquinista da empresa centenária. Ela está disponível para aprender com os profissionais mais experientes. O desafio pessoal é tripular sozinha a locomotiva e passar pelos desníveis da Serra da Chela, entre Lubango e Moçâmedes.

"Quero abraçar esta profissão por muito tempo. A ideia é melhorar até atingir a perfeição.  Dentro de dez anos quero ser a melhor. Nos próximos tempos tenho que tripular o comboio até Moçâmedes e voltar”, afirma.

Berta Sawilala deixou as funções administrativas no Instituto dos Caminhos-de-Ferro de Moçamedes para ingressar na carreira de maquinista. Há quatro anos na empresa, Berta Sawilala tem certeza do que quer. Ela encara a profissão como um grande desafio. "É desafiante para qualquer mulher estar no comando do comboio. Quero me tornar profissional realizada. Vou conseguir, porque estamos a aprender todos os dias com os mais experientes. Sou uma mulher capaz de tripular com segurança”, garante.

A antiga lavadeira Elizabeth Cahamba, que subiu pela primeira vez numa locomotiva depois de mudar de área, tem também como desafio subir e descer a serra da Chela. "Tenho que tripular a composição de passageiros ali nas montanhas. Sei que isso vai acontecer em breve. Daqui a cinco anos quero ser uma das maquinistas profissionais de renome em Angola”, perspectiva.

Determinação  é a chave

As destemidas e ousadas maquinistas do CFM mostram prontidão na operação das locomotivas. Com determinação e força de vontade, as tripulantes impõem-se numa profissão dominada pelos homens. Ao lado deles, elas buzinam, manipulam, freiam, enfim... Operam as locomotivas modernas e antigas nos carris para transportar cargas e passageiros.

 Elizabeth  Cahama sublinha a importância da determinação. "Quando alguém está determinada para conseguir um objectivo consegue. Cá estamos. Tudo começou a mudar a partir do momento em que decidimos agir e correr atrás dos nossos sonhos. O ser mulher não importa. Importa a atitude e a força de vencer”, sublinha a senhora orgulhosa da sua trajectória profissional.

Rosa Amândio e Berta Sawilala, há seis meses na profissão, estão também focadas no aperfeiçoamento constante para se tornarem profissionais. A determinação para aproveitar a oportunidade galvaniza as duas senhoras para cumprir a missão de manter o comboio sobre os carris.  "Tudo depende de nós. Com empenho e dedicação vamos conseguir”, afirma, acrescentando que "a empresa pode contar connosco para transportar passageiros e carga. Estamos  prontas para dar o nosso melhor em prol do CFM”.

Senso de responsabilidade

A jornada laboral inicia com responsabilidade. Cedo, cumprem com os procedimentos de segurança. Elizabeth, Rosa e Berta verificam ao detalhe as condições técnicas da locomotiva. Averiguam os tubos, os cabos, o óleo e a água no motor.

A rotina é idêntica a dos condutores de viaturas. Rosa Amândio explica que as características da composição exigem atenção redobrada. Ela aprendeu que a verificação técnica da locomotiva é um imperativo profissional por causa dos pendentes (subidas) e rampas (descidas) ao longo da via. "Aprendemos nos manuais e na prática que não se pode subir na locomotiva sem primeiro verificar o sistema de freio e outras condições técnicas. Avaliamos sempre tudo. Analisamos se o ar dos freios circula em todo comboio para evitar problema de friagem durante a viagem”, explica sem titubear.

Rosa Amândio tranquiliza os passageiros. Para ela, as maquinistas do CFM estão preparadas para levar os passeiros e mercadorias até ao destino. "O passageiro que confie em nós. Pessoalmente, pretendo ser a melhor para levar os passageiros em segurança. E que cuidem bem do comboio, porque é meio de transporte para todos.  Devemos conservar para continuar a nos servir”, exorta.

A maquinista Berta Sawilala sabe que além de água e óleo é importante verificar outros detalhes como a posição das torneiras e os tubos do sistema de freio. Berta Sawilala explica que os cuidados continuam também dentro da cabine, onde confere e acciona os interruptores iniciais e lê as informações fornecidas no monitor. "Requer concentração e muita atenção. A faca e os inversores devem ser accionados antes de ligar as máquinas”, conta a técnica média em Ciências Sociais.

Berta Sawilala pede também serenidade e confiança aos passageiros. "Apesar de sermos mulheres, somos profissionais capazes, pois estamos preparadas. Passámos pela mesma formação profissional que os homens para transportar todos em segurança. Não precisam estar com medo, porque estão entregues em boas mãos”, tranquiliza.

Elizabeth Cahamba argumenta que tripular a locomotiva exige senso de responsabilidade. Por esta razão, o cumprimento dos procedimentos é um imperativo. "É muita responsabilidade. Não é só chegar e ligar e mover a máquina. É preciso uma revisão completa do estado técnico. Como profissionais, verificamos a prontidão da composição”, acrescenta.

Durante a operação, esclarece, é necessário prestar atenção ao longo da linha férrea para ler os sinais de partida e de paragem, além de saber em que momento buzinar e frear. "É difícil. Mas é possível. O nosso objectivo é chegar ao destino em segurança”, afirma Elizabeth, formada em Ciências Humanas, no ensino médio.

Elizabeth está sempre pronta para aprender. "Temos calma e responsabilidade de levar carga e passageiros. Aprendemos sempre. Temos noção de que levamos vidas humanas. Os  passageiros podem ficar sossegados que nós estamos aqui para levá-los até ao destino”, tranquiliza.

Apoio incondicional

As maquinistas do CFM destacam o apoio da família, colegas e da direcção da empresa. Elizabeth Cahamba destaca o apoio dos colegas e dos familiares para continuar o processo de afirmação profissional.

Rosa Amândio considera-se privilegiada por integrar o grupo de maquinistas do CFM. Ela manifesta satisfação por realizar tarefas profissionais antes dominadas por homens. "É um orgulho grande, porque temos poucas mulheres nesta profissão. Normalmente, a maioria das mulheres opta pela área administrativa. Estamos na área técnica porque somos também capazes”, afirma Rosa, mãe de dois filhos.

Considera a profissão como outra qualquer, apesar de ser dominada pelos homens. Ela, que também conta com o apoio da família, argumenta que o factor mulher aumenta a responsabilidade "porque é proibido falhar”.

 "É uma profissão antes considerada dos homens. Ser  uma das poucas mulheres neste meio é motivo de orgulho. Os homens nos consideram como mulheres batalhadoras. Nós agradecemos o apoio deles”, sublinha.

Berta Sawilala destaca o incentivo dos maquinistas na transmissão de experiência, sobretudo prática. O apoio da família também estimula a aposta na profissão. "No início, a família recebeu com algum receio a notícia da nova carreira. Mas tranquilizei porque a empresa nos forma tecnicamente para correspondermos à expectativa. Agora os familiares estão tranquilos e apoiam mais a minha escolha”, diz.

O director de exploração do Caminhos-de-Ferro de Moçamedes, Arsénio Marques, informou que a empresa conta com 51 maquinistas, quatro dos quais são mulheres. 

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