Reportagem

De África para as Áfricas diasporizadas

Isaquiel Cori

Jornalista

As diásporas africanas, desde o comércio transatlântico de escravos (entre os séculos XV e XIX) e mais modernamente com as migrações voluntárias, ajudaram a moldar as Américas e a Europa tal como as conhecemos hoje.

05/06/2022  Última atualização 08H55
As diásporas africanas © Fotografia por: DR
Nas sociedades de destino os africanos e seus descendentes deixaram (e deixam) a sua marca na linguagem, nos costumes, na religião, na construção civil, na ciência, na literatura... Como escreveu Agostinho Neto "As minhas mãos / colocaram pedras / nos alicerces do Mundo”).  A propósito do Dia de África (25 de Maio), no dia seguinte a Academia Angolana de Letras promoveu uma mesa-redonda online sobre o tema "De África para as Áfricas diasporizadas do mundo”, com moderação do sociólogo angolano José Octávio Van-Dúnem e apresentações das académicas Patrícia Silva (angolana e norte-americana, a partir dos EUA), Silvany Euclênio (brasileira, a partir do Brasil) e Inocência Mata (são-tomense, a partir de Portugal)

 
"É no continente americano onde vivem em maior número as populações afrodescendentes ou a população negra fora do continente africano. Cerca de 200 milhões de pessoas nas Américas se identificam como afrodescendentes. Infelizmente também é uma região extremamente desigual, social e economicamente. E essas desigualdades manifestam-se sobretudo onde essas populações negras representam uma minoria racial e étnica. São desigualdades sistémicas e bastante persistentes”, disse Patrícia Silva..

Essa desigualdade, segundo Patrícia Silva, que é doutorada em Sociologia e alta funcionária do Fundo das Nações Unidas para a População, manifesta-se na forma de investimentos limitados nas comunidades afrodescendentes e por leis nada inclusivas e que não levam em conta as especificidades históricas dessas populações. "E quando essas políticas inclusivas existem encontram barreiras estruturais para a sua implementação”, frisou, acrescentando que os afrodescendentes, de forma geral, têm uma representatividade "bastante” limitada nos processos de tomada de decisão e formulação de políticas na maioria dos países. "E essa realidade desfavorável é pior para a mulher negra, que além do racismo ainda tem de enfrentar o sexismo e a violência”.

Ainda no dizer de Patrícia Silva, em Nova Iorque por cada mulher branca que morre no parto morrem outras 12 mulheres negras durante o parto "por causas que muitas vezes podem ser prevenidas”. Além disso "as taxas de desemprego e subemprego são consideravelmente mais altas entre os afrodescendentes, que também estão muito mais representados nas populações que vivem nas ruas, encarceradas, que vivem com o HIV positivo e sofrem mais violência”.

De um modo generalizado no continente americano, afirmou Patrícia Silva, "os sistemas sociais e económicos não foram criados para incluir as pessoas negras emancipadas” e em muitos países "ainda existe um sentimento forte anti-negro devido ao racismo e à ideologia da supremacia branca que infelizmente continua a crescer”.

A socióloga diferenciou a diáspora descendente de pessoas escravizadas e a mais recente, maioritariamente formada por imigrantes voluntários. "Os imigrantes voluntários, na realidade, beneficiam-se das oportunidades que só existem graças à luta de gerações de escravizados e seus descendentes”, salientou.

"Como é que África e as suas diásporas podem beneficiar-se das suas experiências e desafios, que muitas vezes são comuns, para crescerem juntos?”, interrogou-se Patrícia Silva, ao concluir a sua apresentação.

Silvany Euclênio, que falou sobre a experiência e a realidade histórica dos afrodescendentes no Brasil, deu a conhecer que no seu país os que se auto-identificam como afrodescendentes rondam os 100 milhões de indivíduos (cerca de metade da população total). Silvany Euclênio salientou que não obstante o "alto grau de violência contra a cultura e os corpos negros” a presença africana no Brasil – cerca de 5 milhões de pessoas africanas foram traficadas para o Brasil no período da escravidão -, "é muito pujante, tanto na forma como se organiza como na forma como preserva e mantém as suas tradições”.

A historiadora, que também é uma das animadoras do canal do Youtube "Pensar Africanamente”, manifestou a esperança de que os governos africanos lancem "um olhar diferenciado” para a população negra na diáspora. "Temos muita esperança que esses governos se posicionem em relação a essa violência que incide sobre as nossas populações, sobre as nossas culturas, sobre os nossos corpos”, sublinhou. "Isso é algo que no quadro da diáspora como Sexta Região da África queremos colocar muito firmemente. Queremos que os Estados africanos se posicionem em defesa da cultura e da descendência negra nas Américas”, rematou.

Inocência Mata, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, realçou o trabalho que tem vindo a ser feito pela diáspora africana em prol da visibilização do papel dos negros na construção da Europa. Destacou o papel desempenhado por jornalistas afrodescendentes, que entre 1911 e 1933 fundaram jornais republicanos - O Negro, A Voz de África, Tribuna da África, Portugal Novo, Correio de África, e outros -, "muito importantes para a consolidação da República em Portugal”.

Actualmente, segundo a especialista em Literaturas Africanas em Língua Portuguesa, doutora em Letras e pós-doutora  em Estudos Pós-coloniais, "um dos problemas de Portugal e que já está mais ou menos ultrapassado na Europa é considerar que um negro não pode ser português”.

Centrando a sua apresentação no papel transformador da Academia, Inocência Mata declarou que sempre foi "contra um certo activismo que tem o pecado de fazer um discurso contra a Academia”.

"É preciso naõ esquecer que os preconceitos, os estigmas, são construídos nas academias através de uma pseudociência. E esses preconceitos têm de ser desconstruídos nas academias. É precisamente isso que eu faço”, assinalou, acrescentando que o seu trabalho enquanto professora universitária tem consistido em "trazer para a minha bibliografia e levar os meus alunos a conhecerem os filósofos, os historiadores, os sociólogos, os antropólogos africanos. Porque uma das nossas maiores fragilidades é precisamente que a construção do conhecimento [sobre África] ainda se faz no Ocidente. (...) Temos que mudar o paradigma geográfico da construção do conhecimento. Temos que citar os africanos. (...) É preciso conhecer o que os africanos pensam de si próprios”.

Numa espécie de mea-culpa em nome colectivo, Inocência Mata chegou mesmo a dizer: "Nós, os académicos, somos muito responsáveis por esta subalternidade que ainda vigora sobre a África”.

Na parte aberta a intervenções da audiência destacamos aqui a do escritor António Quino, que colocou a questão de que a maioria dos brasileiros de origem europeia que conhece têm dupla nacionalidade, ao contrário dos brasileiros afrodescendentes. Silvany Euclênio defendeu que "os afrodescendentes brasileiros deveriam poder reivindicar a dupla cidadania, a brasileira que já a têm, e a correspondente ao seu DNA cultural”.

Inocência Mata preferiu focar-se, indignada, no "escândalo” que é o tratamento degradante que muitos governos africanos reservam aos imigrantes dos países vizinhos. "Temos problemas muito mais prementes em África, com os imigrantes africanos. É vergonhosa a forma como eles são tratados nos países africanos”.

Patrícia Silva na sua intervenção final fez questão de sublinhar que, sobretudo desde 2020 com o Movimento Vidas Negras Importam (Black Lives Matter) a decolonização da Literatura nos EUA ganhou um impulso muito forte. "Jovens nas Universidades simplesmente têm se negado a estudar qualquer coisa referente às experiências dos escravos ou às realidades africanas que não tenham sido escritas por africanos”.

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