Entrevista

Daniel Nascimento: “É preciso muito mais do que querer ser”

Ferraz Neto

Jornalista

É sem dúvidas uma das maiores referências do jornalismo angolano contemporâneo. Daniel Nascimento, actualmente ao serviço da ZAP, divide a sua vida entre duas paixões: a música e a televisão. É na primeira que mais encanta os angolanos. Na entrevista que nos concedeu o músico e apresentador de TV, deixa a sua idade na incógnita e revela que as suas maiores qualidades são a lealdade e a honestidade. O livro “O Legado de Mandela”, de Richard Stengel, é o seu predilecto e John Legend o cantor de eleição. Daniel Nascimento explorou problemas do passado, que, em certos casos, estão plasmados no presente. Mas também olhou para o futuro próximo.

19/12/2021  Última atualização 07H35
Daniel Nascimento, actualmente ao serviço da ZAP © Fotografia por: DR
O Daniel Nascimento é um verdadeiro "homem dos sete ofícios”. Que profissões já teve?

Desde que comecei a trabalhar sempre fui cantor, compositor, produtor, sendo que simultaneamente também jornalista, repórter, comentador e apresentador de televisão. Também tenho formação de actor, fiz parte do elenco de dois filmes num sketch humorístico para televisão. Por outra, tive uma pequena e única experiência em ‘Stand Up Comedy’.


É um cantor e apresentador muito conhecido em Angola. Já pensou em trabalhar só numa das profissões? Ou: se tivesse que escolher, que profissão exerceria?

Não pensei porque sempre trabalhei em televisão e na música ao mesmo tempo. Neste caso, o processo sempre foi dinâmico e as situações se complementavam. Teria muita dificuldade de escolher uma. Sinto-me realizado a fazer o que faço. Não seria feliz sem a música ou sem a televisão.


O que pesa mais: o amor pela música ou o amor pela televisão? Fale-nos do contexto que envolve estas duas paixões e como nasceram? 

Pesa o meu amor pela arte e pela forma que escolhi para me expressar como artista e como ser humano. A música está-me no sangue, pelo lado da minha família materna, ou seja, é um processo que surgiu em mim naturalmente. Já a televisão surgiu no meu caminho como fruto da minha paixão em comunicar. Repito, são duas profissões que se completam.


Por estar diante das câmaras constantemente já tem muito traquejo. O que pode transmitir às pessoas que sonham ser apresentadores de televisão?

Mais do que um sonho, é necessário ter paixão e espírito de entrega e sacrifício. Como em todas as outras profissões, o talento por si só não basta. É necessário disciplina, foco e muito, mas muito trabalho. Quem faz televisão apenas para ter fama e popularidade não vai longe. O reconhecimento é muito mais importante. E isso quem dá é o público, que não é parvo. Pois quem assiste o nosso trabalho pode não conhecer a técnica, mas conhece o sentimento que passamos. E isso não se aprende em nenhuma escola: ou se tem o que é preciso ou não. Não basta querer ser, é preciso muito mais. Porque no final do dia, trigo é trigo e joio é joio.


Tem um grande repertório no mundo da comunicação, mas nunca foi visto em palestras motivadoras no papel de formador. Não é algo que esteja nos seus planos?

De facto. Se não exercesse as profissões que exerço teria sido professor. É a profissão que mais admiro e respeito. Nunca fiz palestras públicas, mas garanto-lhe que as faço sempre com as equipas com que trabalho. Gosto de partilhar conhecimento, se reconheço que existe esse interesse e essa dedicação. Pois eu acredito que crescemos quando fazemos outros crescerem, porque também aprendemos. Eu pelo menos, tenho sempre sede de conhecimento.


Nos ramos da música e da televisão, quais são as pessoas que foram ou são a sua fonte de inspiração?

Tenho muitas referências na música. Tanto a nível nacional como internacional, porque muitos artistas me inspiram. Não caberiam todos aqui. Mas desde o Michael Jackson ao Luther Vandross e ao Zeca Pagodinho, Tito Paris, Mariza, Ana Moura, Waldemar Bastos e MCK, Stewart Sukuma, Mercedes, Cleia Cruz… tenho muitas influências e gostos musicais muito amplos. Na televisão, creio ser impossível não ter Oprah Winfrey como uma referência maior. Oprah é incontornável quando se fala em entretenimento televisivo. Mas também temos a Ellen Degeneres, Luciano Huck, Jô Soares, Pedro Bial, Fátima Bernardes e Cristina Ferreira, assim como o João Baião e o Herman José, que, para mim, são os maiores entertainers da televisão portuguesa. Em Angola, o Ernesto Bartolomeu noutra dimensão, mas igualmente incontornável. Assim como Sérgio Rodrigues, a Dina Simão e a Patrícia Pacheco.


Quem são as pessoas que, na sua vida, contribuíram bastante para ser o homem que é hoje?

Os meus pais, obviamente, são os mais importantes. Mas também todas as pessoas que me rodeiam, que, de uma forma ou de outra, tiveram e ainda têm grande impacto na minha vida. O meu crescimento pessoal é resultado de todas essas experiências.

 
Como classifica a sua vida profissional e como se revê daqui a dez anos?

Sou uma pessoa profissionalmente feliz. E, sobretudo, grato por ter a oportunidade de fazer o que amo e poder viver disso. Não faço futurologia, até porque, como diz a tão conhecida frase: "Se quiseres fazer Deus sorrir, faça planos”. Prefiro dizer que gostaria muito de continuar a ter a oportunidade de evoluir profissionalmente e pessoalmente enquanto me é permitido.


No mundo do entretenimento várias pessoas são expostas em situações como atitudes discriminatórias, seja física como verbalmente. Nos seus anos de carreira, alguma vez esteve exposto a este tipo de situações e como lidou com as mesmas?

Ter profissões que nos exponham publicamente tem esse lado menos bom. Eu não sou excepção. Por isso disse: Quem exercê-las precisa de ter mais do que talento.


Qual é o conselho que deixa para pessoas que estiveram expostas a situações discriminatórias e como elas devem lidar com tais situações?

Na vida nunca iremos agradar a todos. E quem sonhar com isso é melhor encontrar outro planeta, porque nem Jesus agradou ou agrada a todos. Mas a história dele e o impacto na vida de milhões de pessoas isso ninguém consegue apagar. A floresta é maior que a árvore… Se o nosso foco forem as coisas positivas e as pessoas que nos agregam valor, o resto não fará diferença. Eu não posso impedir as pessoas de terem as suas opiniões sobre mim. Também não tenho poder para fazer com que gostem de mim ou impedir que gostem. Nem é isso que me interessa. Portanto, o meu foco nunca poderá ser agradar pessoas, preocupo-me em ser como sou. Isso pode ter um preço, mas eu não negoceio o meu carácter. No final, a nossa história será mais sobre o que fomos e fizemos e não sobre o que cada um pensa.


A falta de confiança e a baixa auto-estima são os maiores inimigos de muitas pessoas. Como podemos definir o Daniel Nascimento?

Graças a Deus nunca passei por processos de falta de confiança ou de baixa auto-estima. Já ouve períodos em que tive menos confiança no que tinha de fazer, sim, mas nunca me senti incapaz, apenas menos seguro. Porque gosto de ter o controlo sobre as minhas acções, mas quando assim foi ou é eu sigo em frente. Se o resultado for bom, óptimo. Caso contrário, aprendo a lição e sigo em frente.

 
Para data de aniversário, quando se aproxima o seu é daquelas pessoas que se organiza para receber pessoas ou prefere um dia de introspecção?

No dia do meu aniversário, prefiro sempre o sossego.


Como, onde e com quem prefere celebrar o seu dia de aniversário?

Como disse, sossego para mim é também uma celebração. Então, um lugar sossegado basta para mim.

 
O que de mais importante na sua trajectória de vida conseguiu aprender e vai levar consigo para sempre?

Aprendi que ainda não sei metade do que devia e que, por isso, devo aproveitar o meu tempo da forma mais positiva que me for possível.

 
Está sempre num vai e vem no mundo da música. O que motiva tal situação?

Não se trata de existir uma razão específica. Apenas umas vezes estou mais inspirado que outras. Não faço música para alimentar o meu ego, é um alimento, a minha paixão. E, para isso, preciso ter coisas para dizer, se não calo-me.

 
Quanto a amizades, podemos reparar que tem uma longa amizade com Bruna Tatiana. É uma pessoa que luta para preservar e manter a ligação ou deixa tudo fluir?

A Bruna é e será sempre uma pessoa muito importante para mim. Faz parte da minha história de vida, tal como outro grupo restrito de pessoas que me permitem também fazer parte das suas vidas.  São histórias que não se apagam com borracha e que levo para o resto da minha trajectória pessoal. Mas não preciso lutar para preservar algo que, para mim, é sagrado. Se chega a esse ponto, "algo certo estará muito errado”, como se diz hoje em dia.

A vida financeira é um dilema para muitas pessoas… Daniel é financeiramente organizado?
Sou muito menos organizado do que devia. Mas, a vida segue.

 
Podemos definir Daniel Nascimento como uma pessoa de fácil trato ou nem por isso?

As pessoas, eu incluído, não são unidimensionais. Cada um de nós tem um conjunto de características que, aos olhos dos outros, nos tornam pessoas mais ou menos interessantes. Portanto, ser de fácil trato ou não é uma questão de perspectiva. Eu sou o que forem comigo: tratam-me com respeito e simpatia, reajo com respeito e simpatia. Caso contrário, reajo em conformidade. É simples.


O artista é classificado várias vezes como o protótipo de uma sociedade. Daniel passou por vários países, o que lhe permitiu beber de outras culturas. Qual país Angola deve ter como exemplo a nível da organização social?

Cada país tem a sua história, a sua realidade e complexidade. Podem sim servir de referência, mas depois os contextos são todos diferentes. Angola é um conjunto tão diverso de tantas culturas, que tentar encontrar um modelo de referência externa não me parece ser o melhor caminho. Parece-me mais viável irmos ao encontro das nossas referências internas e continuarmos a trabalhar no modelo de nação que pretendemos.

 
Qual foi a demonstração de amor mais absurda que um fã ou admirador já lhe fez?

Nenhuma demonstração de amor ou carinho é absurda, para mim. Podem é ser umas mais apaixonadas que as outras. Tenho muitos exemplos, mas lembro-me de uma fã que queria despir-se, durante um casting do "Unitel Estrelas ao Palco”, em que eu fui júri com a Pérola, Anna Joyce e Big Nelo, para mostrar a tatuagem que fez com o meu nome. Foi dos momentos mais caricatos e engraçados que vivi com fãs e dos poucos em que fiquei sem saber o que dizer. Mas gostei da personalidade dela.


LADO ÍNTIMO
Nome completo:
Daniel Nascimento
Alcunha de casa:
 Danny (diminutivo do meu nome)
Anos de carreira:
23 (Comecei na SIC em 1998)
Data de Nascimento:
30 de Novembro
Signo:
Sagitário
Naturalidade:
Angola
Calçado:
42 ou 43
Ocupação:
Apresentador de televisão e cantor
Sente-se realizado?
Todos os dias caminho para lá, mas estou feliz a fazer o que faço
Sonhos:
São poucos. Sou mais de objectivos
Cidade predilecta:
Paris
Marca de perfume:
Black by Gucci
Virtudes: São duas:
lealdade e honestidade
Defeitos:
Teimosia e ser um pouco vingativo
Ídolo:
Jesus Cristo
Livro:
"O Legado de Mandela”
Escritor:
Paulo Coelho
Músico:
John Legend
Comida:
Calulu de peixe com funge de milho
Bebida:
Água e Moet & Chandon
Clube:
Sporting de Portugal e Real Madrid

 Ferraz Neto e Eva Monteiro

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