Cultura

Dança precisa de atenção para manter regularidade

O número insignificante de iniciativas em prol da dança angolana é um problema que muito tem afectado os fazedores desta arte e retirado o estímulo e o interesse da nova geração de jovens, criticou, ontem, em Luanda, o director da Companhia Kussanguluka, Augusto Van-Dúnem.

13/08/2019  Última atualização 08H40
Contreiras Pipa | Edições Novembro © Fotografia por: Apesar das várias dificuldades financeiras o grupo Kussanguluka tem feito uma forte aposta na descoberta de jovens talentos

Actualmente, destacou, os espectáculos de dança são “autênticas miragens” para os fazedores desta arte, pois não existem muitas iniciativas, quer do Estado, quer de agentes privados, à sua promoção.
A maioria, explica, procura sobreviver com o apoio de pequenas iniciativas de organizações internacionais, ou com os convites, muito escassos, de actuar, às vezes uma vez por ano, em determinados espectáculos nacionais.
“O empobrecimento dos artistas é contínuo e acelerado. As pequenas iniciativas é que servem como tábua de salvação para a maioria, voltados ao abandono e esquecimento. Apesar dos vários esforços para conseguirem patrocínios, as portas sempre se fecharam para os coreógrafos e dançarinos angolanos”, lamentou.
Para o responsável, existe uma forte desvalorização do papel do artista pelos agentes promotores de espectáculos, que muitas vezes os submetem aos seus caprichos e vontades, ao ponto de atribuírem mesmo “cachets” irrisórios.
Com a mudança do paradigma económico em Angola, continuou, a maioria dos grupos começou a experimentar dificuldades, que já provocaram a extinção de muitos e a consequente frustração e desalento dos fazedores desta arte. “Entretanto e apesar das inúmeras dificuldades, há grupos que ainda, a custo de muito esforço e determinação, mantêm a actividade de forma algo regular”, disse, apontando o Kussanguluka, que em português significa alegria e força, como exemplo.
Embora o grupo Kussanguluka esteja actualmente com inúmeras dificuldades, devido à falta de patrocínios, Augusto Van-Dúnem garante que não vão desistir de tornar a dança numa das artes reconhecidas do país, a nível nacional ou internacional. “Vivemos dos poucos recursos dados pelos integrantes e dos poucos rendimentos obtidos em alguns espectáculos, que repartimos de forma equitativa, para garantir também a subsistência dos bailarinos, muitos deles obrigados a realizar outras actividades para subsistirem e dar sustento às suas famílias”, contou.

Espaços

A falta de espaços para a realização de ensaios e espectáculos, disse ao Jornal de Angola, continua a ser o maior “quebra-cabeças” para os artistas angolanos, em especial os de dança, que precisam ensaiar com regularidade.
A maioria dos grupos, explicou, poderia realizar eventos por iniciativa própria e arrecadar fundos para manutenção das actividades ou acudir as necessidades pessoais, porém a falta de espaços torna tudo impossível. “A destruição do Teatro Avenida, cuja reabilitação ainda prossegue, e a ocupação de muitos dos espaços antes usados para a realização de actividades culturais, que hoje servem para o comércio ou cultos religiosos, complicou ainda mais quem usa esta arte como o seu ganha-pão”, criticou.
A falta de espaços quando aliada ao número ínfimo de apoios, até mesmo do órgão de tutela dos artistas, o Ministério da Cultura, torna a situação do dançarino muito difícil, para Augusto Van-Dúnem.
Os responsáveis da área da Cultura precisam, na sua opinião, de sentir a arte na mesma proporção que os artistas. “É muito decepcionante a forma como se têm definido as prioridades em termos de apoio, até mesmo a nível superior. Por exemplo, se subir hoje um ministro ligado aos museus, o apoio será só para estas instituições. Se for escritor, então, a literatura ganha mais expressão. Isso não está certo. O ministro tem que olhar para todos", apontou.
Nem mesmo a recém aprovada Lei do Mecenato, que poderia, para Augusto Van-Dúnem, ser uma forte alternativa para o apoio aos artistas, e não só, vai ajudar o sector, porque os resultados até ao momento não se repercutem na vida dos artistas. “Os efeitos e resultados da lei só abonarão a favor dos artistas se houver pessoas sérias, responsáveis e competentes nos centros de tomada de decisão”, concluiu.

Kussanguluka

O grupo da dança, composto por 29 elementos, divididos por especialidades, como bailarinos, percussionistas, acrobatas e dirigentes, com uma média de idade de 22 anos, existe há 22 anos.
De nome original “Namores Sensacion del Coracion”, a companhia foi criada em 1997, com o intuito de ajudar um grupo de crianças a trabalharem mais a componente da dança. Mas, com o passar do tempo e a evolução dos dançarinos, perceberam a necessidade de mudar o foco para as danças tradicionais folclóricas angolanas de varias regiões, com predominância para o norte, sul e leste. Do seu vasto reportório, despontam espectáculos como “Tchibinda Ilunga”.
Com experiência e motivação, o grupo, defendeu o director, tem possibilidade de, com boas condições, competir ou representar o país condignamente no estrangeiro. Recentemente, conta, foram a Mbanza Kongo, a convite da Alliance Française, que suportou os custos da viagem, mostrar a sua arte, que apesar da boa performance ficou prejudicada um pouco pela pobreza da indumentária.

Projecto solidário pelas crianças da capital do país

A companhia Kussanguluka, disse o seu director, desenvolve, na periferia de Luanda, um amplo projecto social, voltado à camada infanto-juvenil, que tem como finalidade principal, dotá-la de conhecimentos e técnicas de execução artística, evitando, simultaneamente, qualquer desejo por práticas erradas desta camada.
“Desenvolvemos a actividade com as crianças ao ar livre, por falta de espaços. Existe carência de tudo, desde a água até à merenda. O projecto só avança graças à contribuição dos membros”, disse.
Denominado “Larissa Sa-lomé”, o projecto inclui as crianças dos bairros Rocha Pinto, Petrangol, Samba, Cazenga e Viana. “Queremos que as crianças cresçam saudáveis. Os pais podem não ter condições, mas a sociedade pode garantir a realização dos seus sonhos”, destacou.
A dança é uma das três principais artes cénicas da antiguidade, ao lado do teatro e da música. O seu surgimento deu-se ainda na Pré-História.

 

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