Sociedade

Da extrema pobreza para o Mestrado

António José Mandinge nasceu em Cabinda em 1991, filho de Francisco Mandinge e de Zolina Mateba.

22/03/2020  Última atualização 12H09
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António José Mandinge viveu toda a sua infância e fase adulta num dos bairros mais pobres e perigosos de Cabinda na altura, o bairro Comandante Gika, “zona onde a delinquência e o comércio de estupefacientes eram acentuados”, diz-nos. 

António José Mandinge, criança deambulando pelos becos do bairro, não tinha saída, tudo o que o rodeava era problemático e ele viu-se envolvido, desde cedo, num grupo de rua, o “Rua da Visão”, no bar Kilala.
António José Mandinge só aprendeu a ler e escrever com 10 anos, a muito custo, com a ajuda firme da mãe, embora ela tivesse parado na 4ª classe. “A minha mãe não se cansava de me ensinar a ler e escrever, foi assim que nasceu a paixão pelos estudos e pela pesquisa da língua portuguesa, eu tinha de aprender os textos completos, caso contrário ela castigava-me”.
Em 2005, já adolescente, António José Mandinge frequentou a 5ª classe na escola do I ciclo Barão Puna. Não era fácil para o jovem António José Mandinge e sua família, especialmente a sua mãe que cuidava dele, pois viviam em situação de extrema pobreza, lutando para conseguirem as quantidades mínimas de alimentação. “Na altura, para frequentar a escola e adquirir algum material didáctico via-me obrigado a recorrer à praça do antigo mercado do Bairro Gika para vender leite em pó, feijão, carne seca e tudo o que conseguisse para vender, porque as vendas da minha mãe não chegavam para vivermos...”
António José Mandinge recorda os dias da sua vida com tristeza: “Partilhei o quarto e a cama com a minha mãe até aos 22 anos de idade, não tínhamos escolha.”
Em 2013. António José Mandinge concluiu o ensino secundário no PUNIV-Buco NGoyo, no meio de extremas dificuldades financeiras. “Era obrigatório para mim estar na pracinha todas as noites para vender água fresca e petróleo para terminar os estudos, não tínhamos quaisquer meios financeiros em casa, não tínhamos alternativa.”
António José Mandinge nunca desistiu, além de vender na rua, promovia aulas particulares para arrecadar alguns fundos, já em plena 10ª classe.
Em 2013, António José Mandinge foi detido e acusado por um crime que nunca cometeu, algo que ainda hoje lhe provoca muita dor.
Um ano depois consegue ingressar na Universidade 11 de Novembro, na Faculdade de Direito. A mãe de António José Mandinge vendia de noite e de dia, lavava pratos em restaurantes (no Malewa) e limpava o chão em centros de saúde para ver o seu único filho concretizar o sonho da licenciatura em Direito.
Para ultrapassar as dificuldades financeiras, António José Mandinge dava explicações aos colegas da Faculdade de Direito e de Economia e vendeu lenha na rua até ao fim do curso, de que foi aluno brilhante.
Só a partir do terceiro ano de licenciatura António José Mandinge começou a sentir um pouco de apoio, que sempre desejou, do seu pai, mas foi a sua mãe a grande heroína da sua vida.
Terminada a licenciatura em Direito, António José Mandinge sentiu a necessidade de ingressar na classe dos advogados de Angola, “pese embora ter a ambição de fazer a Magistratura Judicial”, pelo que se inscreveu no Curso de Mestrado em Direito - Opção Ciências Jurídico-Económicas, promovido pelo ISPCAB com a colaboração da Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto.
António José Mandinge, no meio de uma vida muito difícil, tendo de lutar diariamente não só para se sustentar como para prosseguir os estudos, formou-se em Superação Pedagógica no ISCED-Cabinda e é também formado pelo Centro de Apoio Académico em Luanda.
Actualmente é advogado estagiário inscrito na Ordem dos Advogados de Angola (OAA).
“Sou caçador e realizador de sonhos, optimista e batalhador”, diz-nos António José Mandinge, que revela ter queda para a literatura jurídica, pelos romances de Pepetela, pela poesia de Fernando Pessoa e gosta de ler Uanhenga Xitu
“António José Mandinge já viveu na contra-mão da vida (dificuldades), comeu o pão que o diabo amassou, repetiu roupa, vendeu petróleo e ao invés de enveredar por rotas improponíveis, investiu em si, tendo sido um dos estudantes mais conceituados do seu tempo a nível da Faculdade de Direito, tendo-se tornado hoje num jurista categoricamente promissor”, disse-nos, de António José Mandinge, o seu colega Jorge Massonha.

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