Opinião

Da Casa das Leis à Casa das Artes, alegremente

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

Como aconteceu nos anos anteriores, quando soube que, por imperativo da Constituição da República de Angola, o Presidente João Lourenço iria à Assembleia Nacional, aka Casa das Leis, fazer o discurso sobre o Estado da Nação fiquei com muita curiosidade em saber o que o Mais Alto Magistrado da Nação nos diria sobre o actual estado das artes e da cultura, em Angola.

19/10/2021  Última atualização 05H25
Ouvi o discurso e decidi relê-lo várias vezes, no começo de tarde da sexta-feira passada. Apesar das referências ao turismo, foi completamente omisso sobre o assunto: é o género de omissão que faz com que só apareça brilho nos olhos de quem o viu ou de quem o lê se for o brilho das lágrimas, algo que, por diversas razões, acontece muito frequentemente entre o pessoal da classe artística do nosso país.

Porém, na noite do mesmo dia, ainda na sexta-feira passada: mesmo que fiel ao seu modo discreto de comportar-se, no espaço público, Ana Dias Lourenço, a Primeira-Dama da República foi à Casa das Artes, em Talatona, algo que já deu para ver que ela gosta de fazer sempre que pode: é sensível às artes e, também, é evidente que ela é apreciadora habitual e ainda bem.

O que não é muito comum é ouvirmos e vermos a nossa Primeira-Dama da República, muito à vontade e descontraidamente, a fazer um comentário, por mínimo que seja, sobre cinema, sobre teatro ou sobre televisão. Pois, bem, aconteceu quando foi assistir o Festival Unitel Angola Move: para quem mesmo não estando no lugar, esteve atento e viu as imagens que circularam pelas redes sociais, pela sua paixão na defesa, no ânimo e no estímulo ao sector, não passou despercebido tanto o brilho de alegria nos olhos dela como nos de quem a viu e a ouviu.

Mesmo tendo muitos motivos para rir e outros para chorar entre os artistas, criadores e intelectuais, na verdade, a semana passada foi muito intensa e cheia de acontecimentos culturais dignos de realce: a cerimónia de apresentação da antologia "Entre a Lua, o Caos e o Silêncio: a Flor” (Mayamba, 2021) de Irene Guerra Marques e Carlos Ferreira, na União dos Escritores Angolanos (UEA) e a vernissage da exposição "Henrique Abranches: um traço angolano”, no Memorial Dr. António Agostinho Neto foram, certamente, alguns dos mais significativos.

Relativamente à antologia de poesia, o artigo publicado, por Analtino Santos, no jornal de Angola de domingo foi bastante explícito. O que me interessa, apenas, dizer ao leitor é que se acontecesse um dilúvio e eu tivesse que escolher um único livro de poemas de autores angolanos para tê-lo comigo para sempre, com toda a certeza, escolheria a antologia acima citada.

 É um livro que, para muitos, deverá ser de cabeceira e, a meu ver, tarde ou cedo, irremediavelmente, entrará para os curriculas escolares de todos os níveis de Ensino, no nosso país, e será uma referência incontornável onde quer que se estude Literatura Angolana. Assim que, caro leitor, se você ainda não o adquiriu, já vai tarde: faço-o para o seu próprio bem e, também, para o bem de todos nós.

No que a exposição "Henrique Abranches: um traço angolano” se refere, diria somente que, é o tipo de exposição que qualquer amante e interessado pelas literaturas e artes visuais e plásticas, em Angola, deve ver ainda que for somente para ver o original do quadro "A Mulher Bêbada”(1959): abordando um tema social, o virtuosismo do artista capta, também, a angústia de uma época.

É tempo de harmonizar aquilo que acontece no terreno das artes e da cultura, em Angola, em qualquer uma das suas casas das artes que, em princípio, existem várias - mesmo que assim não se denominem - com o que se legisle e se reflicta, na "Casa das Leis”.

O volume, a intensidade, o dinamismo e as necessidades urgentes de todos os segmentos das artes, da literatura e, no geral, da cultura, em Angola, atingiu um nível tal que é, completamente, incomportável que o Estado, as suas instituições públicas e privadas e, em geral, o empresariado nacional não dedique a devida atenção ao sector: fazer o contrário far-nos-ia chorar de emoção, desfrutar de prazer e viver alegremente.

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