Economia

Cunene retoma cultivo de arroz à escala industrial

Domingos Calucipa | Ondjiva

Jornalista

A fazenda agrícola de Manquete, no município de Ombadja, província do Cunene, virada essencialmente para o cultivo de arroz à escala industrial, está a retomar lentamente a produção do cereal, três anos depois da sua paralisação por problemas de gestão.

03/12/2020  Última atualização 10H15
© Fotografia por: DR
Projectada numa área de 1.500 hectares, oitocentos dos quais cultiváveis, o projecto agrícola, que passou há mais de um ano das mãos do Fundo Soberano para a gestão das Forças Armadas Angolanas, começa a dar passos, embora tímidos, no lançamento da semente do arroz à terra, naquele que é considerado um dos primeiros grandes desafios das forças de defesa nacional no processo produtivo do país.
A primeira sementeira, que termina dentro de uma semana, está a ser feita num espaço de cem hectares e tem a sua colheita prevista para o mês de Março ou princípios de Abril, segundo o director da Fazenda Manquete, Isaias Viegas. O responsável adiantou que estão igualmente a ser preparados outros 250 hectares para a sementeira de milho e hortícolas para os próximos meses e posteriormente alargar para a produção de citrinos.  
No novo ciclo produtivo, a fazenda vai ser assegurada por uma mão-de-obra composta por quatro engenheiros de mecanização agrícola, quinze técnicos de agronomia e mais de duas dezenas de técnicos auxiliares de diferentes áreas, todos nacionais.
Numa recente visita ao projecto, o Jornal de Angola constatou que, não obstante as suas infra-estruturas deixadas por uma empresa chinesa então contratada pelo Fundo Soberano para a exploração da fazenda estarem intactas, como são o sistema de captação e bombagem de água, os campos agrícolas, as máquinas, a moagem de descasque e os silos, o empreendimento continua a apresentar-se como um gigante produtivo meio adormecido.
Tal caracterização surge do facto de as metas de se alcançar os 800 hectares de área cultivada de arroz até 2020 estarem longe de se atingirem. Tudo por conta da longa paralisação, matando com isso as espectativas das comunidades locais quanto aos benefícios, como Pedro Camuele, um jovem que sempre ansiou por um emprego na fábrica de descasque montada pelos chineses.
Uma das grandes preocupações da actual gestão é a vandalização dos arames de vedação pelas populações locais, o que está a permitir a invasão do gado dos criadores tradicionais às áreas de cultivo.
Segundo o director do projecto, o arranque do cultivo, um ano depois da passagem do empreendimento para as mãos das Forças Armadas Angolanas, deveu-se em grande parte da falta de sementes, situação que ficou ultrapassada nos últimos dias.
Investimento de 81 milhões de dólares
O projecto agro-industrial do Manquete, que custou aos cofres do Estado 81 milhões 439 mil e 31 dólares americanos, teve início em 2016 e está situado nas margens do rio Cunene, no município de Ombadja. No seu arranque esteve a ser dirigido pelo Ministério da Agricultura, através da Gesterra e executado pela empresa chinesa CEIEC, mas mais tarde passou para as mãos do Fundo Soberano.
A unidade de produção conta com campos de cultivo, uma unidade de processamento de arroz, silos de armazenamento com capacidade de oito mil toneladas, fábrica de descasque, limpeza, branqueamento e embalagem, e outras infra-estruturas de apoio, como residências, escritórios e oficinas.
Conforme o engenheiro agrónomo Paulino César, do Gabinete Provincial da Agricultura do Cunene, que acompanhou o surgimento da fazenda, esta nasce da necessidade da reativação do cultivo deste cereal naquela zona da província, interrompido com o reacender da guerra pós-independência, tirando assim melhor proveito dos seus solos para contribuir na produção de alimentos que o país persegue.
O agrónomo adiantou que o projecto previa inicialmente atingir acima de 1.500 hectares de terra cultivada, não só para arroz, mas também para outras culturas no futuro. Paulino César disse que o projecto começou a ser executado em 2014, com a criação das infra-estrururas e a preparação dos solos.
O cultivo apenas arrancou em finais de 2015 de forma experimental e foi trabalhado somente um hectare e meio, que renderam cinco toneladas. O responsável afirmou que a primeira produção serviu apenas para testar uma variedade de arroz, cujas qualidades do grão e da safra entusiasmaram os técnicos chineses que consideraram haver condições propícias para levar adiante o projecto. 
Já na segunda experiência foram aplicadas cinco variedades em dois hectares e meio, tendo rendido oito toneladas, ao passo que na terceira se trabalhou em 12 que renderam 45 toneladas. A última safra, que se deu em 2017, foram colhidas, num espaço de sessenta hectares, perto de 300 toneladas de arroz, naquilo que se adivinhava o arranque do cultivo em grande escala, o que não aconteceu.

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