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Cunene: Produtores do Canal do Cafu ampliam espaços de cultivo

Domingos Calucipa | Ondjiva

Jornalista

Constata-se, hoje, o aumento do número de espaços cultivados ou desbravados nas duas margens, particularmente no percurso de 30 quilómetros entre a localidade de Oshakati e a zona do Cafu

28/11/2023  Última atualização 08H24
Produtores do Canal do Cafu ampliam espaços de cultivo © Fotografia por: DR
Vários produtores do Canal do Cafu, na província do Cunene, inaugurado em Abril de 2022, estão mais determinados na ampliação dos espaços de cultivo e incremento da produção de hortícolas.

Numa visita ao perímetro do canal, o Jornal de Angola constatou o aumento do número de espaços cultivados ou desbravados nas duas margens, particularmente no percurso de 30 quilómetros entre a localidade de Oshakati e a zona do Cafu.

Entre os produtores daquele perímetro que mais se destacam está João Pungo, que começou nos meados deste ano com uma pequena parcela de meio hectare, com o experimento de tomate.

Hoje, depois dos resultados satisfatórios da primeira colheita, a horta foi dimensionada para 3,5 hectares, três dos quais ocupados com plantação de tomate, enquanto no restante espaço foi lançada a cultura da melancia.

Segundo Maurício Secretário, responsável da horta de João Pungo, denominada "Horta JP”, a semente do tomate foi lançada há sensivelmente um mês e tem a sua colheita prevista para meados de Janeiro do próximo ano, prevendo-se colher cerca de cinco mil caixas do produto, que terá como mercado de venda a própria província do Cunene ou outros lugares como Luanda.

Já a melancia, naquela que é a primeira tentativa, prevê-se uma colheita de aproximadamente quatro toneladas, conforme estima o responsável.

O produtor assinalou que o objectivo, nos próximos tempos, é alargar o espaço de cultivo para lançar outras culturas, como a cebola, a beringela, a cenoura, a couve e o repolho.


Investimento de 6 milhões de kwanzas

Num investimento próprio avaliado em 6 milhões de kwanzas, a Horta JP está a ser concebida para trazer produtos para o mercado com uma qualidade competitiva, capaz de ter aceitação em qualquer lugar do país, conforme Maurício Secretário.

Do montante aplicado, confoi explica, 1,5 milhão foi destinado para a compra das sementes de tomate e melancia, ao passo que o restante valor destinou-se para a aquisição do sistema de rega, fertilizantes, insecticidas, pesticidas, fungicidas, entre outros inputs indispensáveis à actividade.

 
O verde da horta de Armando Nguelepete

Mais adiante, encontrámos a horta de outro produtor, Armando Nguelepete, um dos notáveis produtores de hortaliças e pioneiro na formação de hortas na cidade de Ondjiva, através do aproveitamento das águas da chuva.

Armando Nguelepete, um dos primeiros produtores a se instalar nas margens do canal, depois da sua inauguração, disse estar a trabalhar num espaço de quatro hectares cedido pelo Governo da província, num gesto de incentivo à sua actividade, que nos últimos anos tem contribuído no abastecimento dos mercados locais com hortaliças produzidas nas suas hortas.

Dos quatro hectares que ocupa, meio hectare está com a cultura de pimento, cuja colheita iniciou em Outubro, onde até agora já conseguiu tirar cerca de 120 caixas, comercializadas nos mercados de Ondjiva.

O produtor diz que, apesar de o produto não ter muita procura tal como o tomate, tem conseguido obter lucros. A caixa é vendida entre 2.500 e 3.000 kwanzas.

Armando Nguelepete tenciona lançar, nos próximos dias, a plantação de tomate, cebola e repolho, mas receia a invasão do campo pelo gado da localidade, uma constante que só pode ser ultrapassada com um cerco de rede para travar sobretudo os suínos, que em tempo seco ficam soltos.

Conta que neste momento o cultivo está limitado ao pimento, por ser uma planta que esses animais não se alimentam, depois de terem prejudicado todos os milheiros, mandioqueiras e cana-de-açúcar que tinham sido plantados em quantidades consideráveis.

Manuel Jongolo, jovem de 29 anos, é outro produtor que está a tirar proveito da água do Canal do Cafu, com a implantação de um campo de aproximadamente um hectare, onde está a apostar no cultivo de tomate, cebola, couve e milho, por via de rega, com suporte de uma pequena motobomba à gasolina.

 
Dificuldades de combustível

As limitações impostas na aquisição de combustível nas bombas da cidade de Ondjiva para alimentar as motobombas tem sido um dos grandes entraves da actividade produtiva dos pequenos agricultores instalados no perímetro do Canal do Cafu.

De acordo com Maurício Secretário, da Horta JP, não tem sido fácil adquirir gasóleo ou gasolina nos postos de venda da cidade, onde normalmente negam atender clientes que se fazem acompanhar de bidões, alegando suspeita de contrabando de combustível.

Esta atitude das bombas, como conta, chegou a causar, há tempos, prejuízos à plantação, que ficou três dias sem receber água por falta de combustível para movimentar as motobombas.

Maurício Secretário é de opinião que se encontre uma solução que facilite os produtores adquirirem combustível sem impedimentos, porque a produção naqueles espaços do canal sobrevive de combustível.

De notar que a província do Cunene e a cidade de Ondjiva, em particular, vive, nos últimos tempos, constantes problemas de escassez de combustível, devido ao contrabando do produto, que normalmente é transportado para a vizinha República da Namíbia, onde é comercializado a preços mais altos.      

 
Carência de fertilizantes no mercado

A escassez ou os elevados preços dos fertilizantes, sementes e medicamentos de combate às pragas, além de outros inputs, praticados pelos estabelecimentos comerciais da província tem sido outro constrangimento encontrado pelos pequenos agricultores que pretendem se instalar no Canal.

Para Maurício Secretário, seria benéfico se se direccionasse para aquele perímetro mais apoios, sobretudo no acesso aos fertilizantes e apoio com um tractor aos produtores do Canal. Com os preços praticados actualmente, nem todos conseguem adquirir.

Disse que no mercado local e fora da província um saco de adubo 12-24-12, de 25 quilogramas, custa entre 48.000 e 50.000 kwanzas, e só a sua plantação dos três hectares precisa de cerca de 20 sacos do produto. Já a ureia está a 44.000, o amónio a 21.000, a lata de um quilo de fertilizante mape custa 50.000, produtos indispensáveis para uma boa produtividade e qualidade do produto, o que não está ao alcance de qualquer produtor.


 Apoios do Ministério da Agricultura

Um projecto  de desenvolvimento agrícola do Ministério da Agricultura e Florestas, que visa apoiar os camponeses a melhorar os métodos de cultivo, começou a ser implementado no princípio deste ano, em diferentes pontos do percurso do canal, através do Instituto de Desenvolvimento Agrário (IDA).

O trabalho, segundo Dilson da Cruz Paulo, técnico do projecto na Cooperativa 1º de Maio, visa formar várias Escolas de Campo Agrícolas (ECA), onde se vai ensinar aos camponeses a produzirem mais, de forma diversificada e em ciclos curtos.

Na Cooperativa 1º de Maio, junto ao canal, homens e mulheres parcelam a terra já desbravada para lançar a sementeira de milho, uma variedade de curto prazo e resistente a pragas e à seca. Noutros talhões, como conta Dilson da Cruz, vai trigo, uma variedade precoce de três meses, também resistente a adversidades.

No espaço de um hectare vai, também, massango e fruteiras. A ECA daquela cooperativa conta com 85 membros.

Inaugurado no dia 4 de Abril de 2022, o Canal do Cafu tem uma extensão de aproximadamente 157 quilómetros de canal aberto e um conjunto de 30 chimpacas. As obras do projecto custaram 44.358 milhões de kwanzas.

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