Reportagem

Cunene comemora 52 anos com foco no progresso social

Elautério Silipuleni | Ondjiva

Jornalista

Cunene celebra, hoje, 52 anos, desde que foi elevado à categoria de província, ao deixar de ser distrito da província da Huíla. Neste momento, a região aposta no desenvolvimento, através da execução de vários projectos de impacto social.

10/07/2022  Última atualização 09H27
© Fotografia por: Mavitidi Mulaza | Edições Novembro

Com a ascensão à categoria de província, através do Decreto nº 330/70, o grande desafio das autoridades locais e dos munícipes está virado para a mudança e desenvolvimento social. 

A província do Cunene tem uma superfície territorial de 78.342 quilómetros quadrados e uma população estimada em cerca de 1.121.748 habitantes.

Apesar do crescimento socioeconómico que se verifica, quer na sede da província (Ondjiva) quer nos demais municípios, a população continua a defender a implementação de mais projectos habitacionais e de construção de mais escolas, unidades sanitárias, vias de acesso, entre outros empreendimentos sociais.

Entre as principais acções desenvolvidas, nos últimos anos, o destaque recai para o projecto estruturante do Cafu, construído para mitigar a seca cíclica no Cunene e retirar do sofrimento milhares de pessoas e animais (bovinos), que eram forçadas a abandonar as zonas residuais para outras com melhores condições.

As obras, já realizadas, permitem colocar um ponto final às grandes preocupações verificadas no passado, sobretudo, a falta de água àquelas zonas mais afectadas pela seca.

O projecto, que tem um canal aberto, compreende dois lotes, sendo o primeiro a sair do Cafu, com dez quilómetros pressurizados(processo para igualar pressões) e mais 47 quilómetros de canal condutor geral aberto, que vai até à localidade de Cuamato.

Já o lote dois sai de Cuamato, por via de uma bifurcação, sendo uma linha de 52 quilómetros que segue para o Ondombodola e outra de 55 para o município de Namacunde.

Estão, ainda, em curso a construção das barragens do Ndue e Caluvale, inseridas na bacia do Cuvelai, também concebidas para pôr fim ao fenómeno da seca na província, a Urbanização do Ekuma, Hospital Geral do Cunene, além de outros diversos projectos e programas que enchem de orgulho os cuneneses.

A governadora do Cunene, Gerdina Didalelwa, afirma que a intenção do Executivo é dar continuidade a esse tipo de investimentos, para permitir que a população deixe de sofrer, por causa da seca que ano após ano assola a região, deixando milhares de pessoas dependentes de ajudas.

"Temos de ver as pessoas, elas mesmo, a ter condições para produzirem alimentos para o seu sustento e a tirar aproveitamento dos recursos hídricos”, realçou a governadora provincial.

Gerdina Didalelwa destacou a concretização do princípio governativo, segundo o qual "com o pouco, fazer muito”, no sentido de permitir a racionalização e optimização de recursos, com o engajamento das administrações municipais e de todos que participa(ra)m nos investimentos feitos.

A governadora, que falava ao Jornal de Angola, no âmbito dos 52 anos de existência da província, realçou que, nos últimos cincos anos, Cunene registou avanços significativos na prestação de serviços de qualidade à população, com a extensão da rede escolar e de saúde para o interior, fruto da execução de diferentes programas.

 

PIIM: a mola impulsionadora

No quadro do aniversário do Cunene, a governadora considerou que a implementação do Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM) constitui a mola impulsionadora para o desenvolvimento da região, estando a conferir maior autonomia aos municípios e a dar corpo à implementação efectiva da desconcentração e descentralização das competências administrativas e melhorar a vida dos cidadãos.

Para a implementação, com sucesso, do PIIM foi aprovado para a província o valor global de 17.231 mil milhões de kwanzas, aplicados em 117 projectos nos municípios do Cuanhama, Curoca, Cuvelai, Cahama, Namacunde e Ombadja, sendo que a maior parte dessa empreitada já está concluída e outra na fase final das obras.

Realçou que as obras do PIIM estão a permitir a conclusão de obras paralisadas, desde 2014, por falta de verbas, com realce para três escolas do I ciclo, sendo duas na cidade de Ondjiva, de 26 e 24 salas de aula, respectivamente, nos bairros Caxila III e Caculuvale, e uma na localidade fronteiriça de Santa-Clara, com 24 salas.

O PIIM privilegiou, também, a construção e apetrechamento de outras escolas do ensino primário em distintas localidades da província, complexos residenciais para professores e enfermeiros, quer nas sedes municipais quer em localidades consideradas de difícil acesso, de forma a garantir maior comodidade a esses profissionais.

"A implementação do PIIM no Cunene trouxe oportunidade para responder às necessidades dos cidadãos, sobretudo em termos de infra-estruturas escolares, de saúde, habitacional, vias de comunicação e o saneamento do meio”, disse a governadora.

Gerdina Didalelwa apontou a retoma de projectos paralisados durante anos como um passo acertado. Por isso, considerou a medida como imperiosa para se continuar aos projectos dentro do projecto PIIM.

"A não conclusão pode gerar maiores prejuízos financeiros e sociais, que deixarão a população da província privada do benefício destas infra-estruturas”, realçou.

Avançou que o desenvolvimento da província do Cunene depende da diversificação da economia, por via de investimentos concretos da agricultura, pecuária, pescas, energia, água e transportes.


Munícipes  reconhecem avanços  

Os munícipes, ao avaliar os 52 anos da província, sugerem às autoridades para um forte comprometimento com o futuro e bem-estar da população, para atrair potenciais investidores e garantir um processo contínuo e sustentável dos outros sectores da economia.

"Não se pode falar de desenvolvimento, sem antes olhar para os indicadores do crescimento. O Cunene é uma terra abençoada, pois tem inúmeras potencialidades, desde solos aráveis e recursos hídricos, aliados ao facto de, nos últimos anos, ter beneficiado de projectos estruturantes e construção em algumas estradas nacionais”, sublinhou Adérito Hipunomba.

O munícipe, residente na comuna do Mucope, apontou alguns factores capazes de alavancar a economia, garantir o emprego e rendimento para as famílias.

O agricultor Adérito Hipunomba defendeu a criação de cooperativas empresariais em todos os municípios da província, com o apoio do Governo, para o desenvolvimento da agricultura mecanizada e promover a produção local, principalmente de cereais.

Lamentou o  facto de as grandes quantidades de recursos hídricos disponíveis não serem devidamente aproveitadas. Por isso, como uma das saídas, para garantir a segurança alimentar e nutricional, diz ser a redução da importação de produtos agro-pecuários.

Além disso, o agricultor sugeriu a promoção da criação de postos de trabalho, no sentido de se tirar maior proveito dos recursos naturais e humanos que a província tem, contrapondo, assim, o fenómeno da seca.


Diversificação da economia

Falando recentemente na vila do Xangongo, aquando de uma visita à região, a governadora Gerdina Didalelwa afirmou que a potenciação das receitas locais afigura-se como um pressuposto indispensável à aceleração do processo de diversificação da economia nacional.

A governadora sublinhou que o aproveitamento do potencial dos recursos naturais e produtivos da província pode desencadear efeitos positivos e relevantes sobre algumas variáveis económicas e sociais, reduzindo, deste modo, a forte dependência.

Salientou que, fruto do crescimento da província, com base em dinâmicas próprias, resultantes das suas características, já é evidente o aumento das unidades de produção agro-pecuárias, principalmente no corredor da Calonga, o que denota o ressurgimento desta área estratégica para o desenvolvimento do Cunene.

 

Percurso histórico

Após a ocupação colonial, em 1920, a região passou a denominar-se Baixo Cunene e compreendia todo o território que se situava à margem esquerda do rio Cunene, enquanto decorria a disputa do espaço entre ingleses e portugueses.

A partir de Julho de 1926, com a delimitação da fronteira entre Angola e Namíbia, e já sob o domínio do regime colonial português, a região passou a denominar-se Conselho do Baixo Cunene e, consequentemente, anexada ao Distrito da Huíla.

Em 1967, surgiu a ideia de se criar o Distrito do Cunene, mas só veio a concretizar-se três anos depois, fruto do "bom senso” do então administrador do Conselho do Baixo Cunene (que abrangia Cahama e Curoca), o português Covilhã Padrão. Era preciso escolher entre Ondjiva e Xangongo, para ser capital do distrito.

A escolha recaiu para Ondjiva, que albergou o Reino do Kwanhama, que confrontou duramente as forças da ocupação colonial. A formação do distrito tinha como finalidade a implementação de determinados projectos virados para o desenvolvimento do território, como a abertura de postos escolares no meio rural e projectos de água, sobretudo para o gado, que abundava na região.

A separação do Cunene do Distrito da Huíla trouxe muitas vantagens para a população local. Foi a partir daí que se pensou na consolidação da estrada do Lubango (Huíla), passando por Ondjiva, até à fronteira com a Namíbia. A mesma via tinha continuidade, de Ondjiva ao Cuando Cubango, e outra para o Huambo, passando pelo Cuvelai.

Com o intensificar dos conflitos, muitos habitantes, incluindo funcionários públicos, concentrados na sede municipal do Cuvelai, 166 quilómetros a Nordeste de Ondjiva, surgiu a ideia do Governo da Huíla de ceder um espaço para acomodar a população e os serviços do Governo do Cunene. A localidade escolhida seria Castanheira de Pêra, no município da Matala.

Sem quaisquer infra-estruturas para instalar um Governo Provincial, Castanheira de Pêra aguentou-se como pode. A localidade tinha sido criada para albergar perto de sete famílias de colonos. As poucas casas encontradas eram, então, partilhadas por sete a oito famílias de responsáveis governamentais. O mesmo espaço albergava também os gabinetes.


Habitação e educação

1983: ano da revolução

As condições de infra-estruturas para os serviços do Governo e moradias para a população só iniciariam, em 1983, com o fabrico de adobes (blocos de barro), num trabalho que contou com o envolvimento da juventude.

Primeiro, foi erguido o complexo escolar (zona académica), com 80 salas de aula, para as classes da 5ª a 8ª. Os alunos que concluíam o ensino de base recebiam bolsas de estudo, para frequentar o ensino médio e superior no Lubango ou em Luanda.

Mas, o retorno à província do Cunene ocorre oito anos depois, em Julho 1988. Na altura, o comissário provincial era Pedro Mutindi. No final deste ano, começaram a aproximar-se à cidade de Ondjiva como mais uma paragem de alguns meses por Xangongo.

No ano seguinte, em Julho, atinge-se Ondjiva. As forças sul-africanas já haviam abandonado o território. Segue-se a transportação da população da Castanheira para o regresso ao Cunene. São mobilizadas perto de duas dezenas de camiões para transportar pessoas, haveres e até animais. A transladação só termina no início de 1990.

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