Opinião

Crónica desde a ilha caribenha: "O meu encontro com o Presidente João Lourenço"

Na minha idade já não se acredita muito em contos de fadas, mas às vezes acontecem coisas na vida que não lembra o diabo. Ainda bem que pela manhã, logo após o matabicho, já tinha ingerido o meu medicamento que não deixa a tensão subir.

01/07/2019  Última atualização 22H31
DR © Fotografia por: Instantâneo em que o Presidente João Lourenço interrompe o percurso para saudar o jornalista Jaime Azulay (à esquerda) na "Plaza de los Próceres Afric

A nossa agenda de trabalho para segunda-feira começava com a cobertura de uma visita de Estado do Presidente João Lourenço e comitiva governamental angolana a “Plaza de los Próceres Africanos”, localizada no município de “Playa”, em Havana. Tratava-se de uma visita com elevado grau de simbolismo nas relações de Cuba com o continente africano. Ao longo do perímetro arborizado da praça estão os bustos de grandes líderes, como Patrice Lumumba (Congo Democrático), Sekou Touré (Guiné Conacri), Marien Ngouabi (Congo Brazzaville), Eduardo Mondlane (Moçambique), entre outros. A nossa actividade estava prevista para defronte ao busto do Dr. Agostinho Neto, primeiro Presidente de Angola, com a deposição de uma coroa de flores e a devida homenagem ao fundador da Nação angolana.
O protocolo previa traje formal para os integrantes da caravana angolana, incluindo nós, os jornalistas, o que achei um tremendo excesso de zelo, dado a actividade acontecer a céu aberto e debaixo do calor infernal que se faz sentir em Havana. Resolvi por bem furar a regra, vestindo calças "jeans" e uma camisa de mangas compridas, com a estratégia de presenciar o desenrolar da actividade ligeiramente distanciado do local onde estavam o Presidente João Lourenço, a esposa, a Primeira Dama Sra. D. Ana Dias Lourenço, e toda a comitiva. No local encontrámos os jornalistas cubanos totalmente descontraídos nas suas frescas “guajaberas” brancas, enquanto os nossos, sobretudo os nossos câmaras da TPA, Zimbo e Angop, trajavam fatos escuros com gravatas e, em consequência, suavam as estopinhas ao correrem de um lado para o outro com as suas máquinas nas mãos, buscando os melhores ângulos de filmagens.
Após os protocolos militares realizados impecavelmente pela guarda de honra das “Fuerzas Armadas Revolucionarias”, pela parte dos anfitriões acompanhava o Presidente João Lourenço o herói da Republica de Cuba Fernando Gonzalez Llort, que é também Presidente do ICAP (Instituto Cubano de Amizade com os Povos), a quem coube a honra do discurso de abertura. Llort exaltou a tradicional amizade entre os povos de Angola e de Cuba, forjada ainda durante a luta armada de libertação nacional e mais tarde nas batalhas contra o exército da África do Sul do “apartheid” em solo angolano.
Seguiu-se o discurso do Presidente angolano, que aproveitou para realçar que a homenagem em curso era extensiva aos demais líderes africanos que, em determinados períodos da História, lutaram para a libertação dos seus povos do jugo do colonialismo. “A luta dos povos africanos pela sua independência contou sempre com a ajuda e solidariedade do povo amigo de Cuba”, disse o Presidente, ressaltando que nos tempos actuais as relações com Cuba se encontram nos patamares de uma cooperação mutuamente vantajosa em vários sectores de actividade.
Após a cerimónia, toda a comitiva, com o Presidente João Lourenço e esposa à frente, visitou os restantes bustos do parque. Aproveitei um lapso para dar um abraço ao Luís Fernando e ainda batemos as competentes fotos para comprovar a nossa inevitável reconciliação. Cumprimentei também dois generais amigos, mas depois procurei continuar sozinho a uma boa distância, com o meu metro e noventa e quatro e centena e picos de quilos a destilar a rodos. Tentava aproveitar a sombra de uma árvore, quando, repentinamente, deparo-me com toda a comitiva a parar do outro lado do arrelvamento e o Presidente a apontar o indicador para mim. Oh meu Deus, que se passa? Olho para o lado e não havia mais ninguém assim muito próximo. Arregalo bem os olhos e vejo o Luís Fernando e outras pessoas a chamarem-me com gestos. “É você mesmo Azulay, vem cá”. Tentando refazer-me da surpresa, comecei a caminhar em direcção ao Presidente e quando estava a poucos metros, o Presidente dispara enquanto estende a mão firme: “Ó Azulay, estás assim tão gordo que já não consegues caminhar, que se passa contigo, andas a comer muito o nosso benguelu”?
Confesso que me senti como um esquimó em pleno deserto do Sahara, mas lá consegui cumprimentar o Presidente e a Senhora Primeira Dama, mas os estalidos das câmaras dos meus colegas me punham sem jeito. Estavam todos estupefactos, porque o Presidente estava a “furar” o rígido protocolo dos cubanos. Então, aqui todo pessoal bem vestido e o Presidente manda parar a comitiva e chama esse grandalhão desajeitado que estava quase escondido atrás de uma árvore e agora fica a conversar com ele? Sinceramente...
O Presidente João Lourenço aparentava boa disposição e perguntou-me: “então, nosso antigo repórter de guerra, deixaste de correr agora estas a ficar gordo, tem de treinar e agora também já não escreves, porque?”. Retorqui: “Presidente, ainda hoje o Jornal de Angola publicou a minha crónica a partir daqui de Havana”. Ele sorriu, perguntou se eu continuava em Benguela e depois despedimo-nos de forma bastante cordial.
Foi assim o meu primeiro encontro com o Presidente João Lourenço, depois que se tornou Presidente de Angola. Quando ele esteve em Benguela como comissário e Presidente do Conselho Militar da Sétima Região, em meados dos anos oitenta, eu estava na tropa, mas lembro-me de ter estado em algumas actividades em que ele estava. Sempre o considerei uma pessoa austera e disciplinadora, qualidades que aprecio nas pessoas.
Enfim, quis o destino que me encontrasse com o meu Presidente num local do outro lado do Atlântico, distante do nosso país milhares de quilómetros. É bem verdade o que ensina a sabedoria do nosso povo: apenas as montanhas não se encontram. Caro Presidente João Lourenço, muito obrigado pela atenção que me dispensou e acredito ser extensiva aos profissionais sérios da comunicação social angolana. Senti-me muito honrado, sim, porque tenho certeza que sempre procurei fazer o meu trabalho com dedicação, amor e sentido de missão, tal como aprendi com os valores que me foram inculcados pela família e pelos homens de verdade com quem tenho cruzado neste precário percurso que é a vida.
Campeão não luta!

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