Cultura

Crise sem precedentes gera makas na UEA

Manuel Albano

Jornalista

A UEA está sem pagar salários há um ano e oito meses, o que tem gerado descontentamento e desmotivação entre os trabalhadores. As dificuldades da vida têm obrigado os funcionários a sacrifícios inexplicáveis para conseguirem sobreviver. Ainda assim eles não medem esforços para cumprir com as suas obrigações.

29/08/2021  Última atualização 10H13
© Fotografia por: Manuel Albano| Edições novembro
Toda a "ginástica financeira” desenvolvida pela direcção da UEA tem sido insuficiente para conseguir trazer de volta a alegria e a simpatia aos funcionários que clamam por ajuda do Executivo. Os trabalhadores pedem um maior respeito pelo contributo dos escritores à cultura nacional.

Engrácia Zeferino, 36 anos, é uma das funcionárias da UEA. Há oito anos que a sua rotina é a mesma. Acorda às 4h00 para conseguir apanhar os primeiros autocarros e chegar cedo ao local de serviço. Ela tem a responsabilidade de cuidar do refeitório e da alimentação dos colegas. Vive no Golfe 2 e tem três filhos para criar. Apesar de contar com o apoio moral do marido, está desesperada porque não sabe mais o que fazer para conseguir matricular os filhos na escola. "Às vezes, fico dividida porque não sei se o dinheiro que consigo devo usar para ir trabalhar ou para fazer uns «apanhados» para dar de comer às crianças”.


Com o pouco que resulta dos biscates do marido e do apoio familiar vão sobrevivendo. "Quando não há nada, ficamos mesmo o dia todo com fome porque não posso roubar para sustentar os meus filhos”, lamenta a cozinheira. Ela lembra que a última vez que recebeu o salário foi em Dezembro de 2019. No passado, até acesso a consultas numa clínica privada tinham. E os salários eram pagos regularmente. Por não honrar o compromisso com o senhorio, Engrácia Zeferino e a família foram despejados da residência onde viviam. Como alternativa, foram viver temporariamente na casa de uma cunhada. "Temos que engolir sapos porque não podemos reclamar. Estamos a viver de esmola na casa da minha cunhada. É muita humilhação e só aguento porque não tenho mais onde me refugiar com os meus filhos”.



"Comi pele de boi”

Elena Paulo, 39 anos, é viúva e substituiu o falecido marido, identificado por Zacarias, que em vida trabalhou como segurança das instalações da UEA. O marido foi morto à pancada, há três anos, numa cela da 19.ª esquadra do Distrito Urbano da Maianga, por indivíduos também lá detidos. Zacarias tinha sido detido pela Polícia pelo facto de ter desaparecido a placa electrónica de uma viatura estacionada a escassos metros da sua área de jurisdição. Desde a morte do marido a vida da empregada de limpeza tem sido um martírio.


Com seis filhos para sustentar, Elena Paulo faz "das tripas coração” para conseguir sobreviver. Vive no bairro Boa Fé, em Viana. Percorre quilómetros até à via principal para apanhar o autocarro e chegar cedo ao trabalho. É a primeira a chegar e uma das últimas a sair porque precisa garantir a higiene do espaço depois de frequentado por escritores, pesquisadores e estudantes. Para fazer alguma refeição, disse, tem contado com a ajuda das vizinhas. Recentemente, por pouco perdia a vida. Conta ela, amargamente, que solicitou o apoio financeiro do irmão, que lhe arranjou dois mil kwanzas.

Com o dinheiro foi ao mercado do quilómetro 30, em Viana, onde comprou pele de boi e fez guisado com arroz. O mau estado de conservação da pele de boi provocou diarreia aos membros da família. "Por sorte não aconteceu o pior, já que aquele alimento provocou-me diarreia de sangue e tive de ser hospitalizada”.

Cavar buracos para sobreviver

A vida penosa tem aguçado o espírito de sobrevivência de quem tem a responsabilidade de colocar o pão de cada dia à mesa da família. Quando está de folga, o jardineiro António Francisco, 43 anos, outro trabalhador da UEA, faz biscates de cavar buracos para a construção de tanques de água e fossas.  Ou então torna-se ajudante de pedreiro. Actualmente vive nas imediações do Museu da Escravatura, mas confidencia que "com muito sacrifício” conseguiu adquirir um terreno em Viana.

Celito Falso, 37 anos, é segurança das instalações da UEA há 17 anos. Conta que no passado quase nada faltava aos trabalhadores. Realça que sempre mereceram o carinho e o apoio das anteriores direcções e da actual. Falso vive no bairro da Boa Fé.
Entrou no quadro de pessoal da União dos Escritores ainda muito jovem. Na altura, não tinha mulher nem filhos. Hoje tem família constituída: mulher e sete filhos. Vive num "Bate-Chapa” (casebre de chapas) e diz que, com o passar dos anos, as regalias e as condições de trabalho foram se degradando.  Explica que tem passado por muitas humilhações no bairro. "Procuro estar ausente dos convívios entre vizinhos para evitar as humilhações”, afirma. Com toda essa situação, salienta, "fui obrigado a vender quase tudo que adquiri ao longo dos anos com muito sacrifício”.

Sustentado pela mãe

Entrou como colaborador na União dos Escritores ainda muito jovem, com apenas 17 anos, e não tinha a noção da grandeza histórica da instituição. Hoje, está com 25 anos.

Pedro Sueco desempenha as funções de fiel de armazém. O estado em que se encontra a UEA, confessa, deixa-o triste e desapontado.  Casado, com dois filhos, o morador do município do Cazenga agora só vive já com a esperança em dias melhores. "Não consigo colocar comida na minha casa. Sou sustentado pela minha mãe e a mulher faz sacrifícios enormes. Sinto-me vazio e humilhado e há noites em que só choro por não saber mais o que fazer. Há faltas de respeito no lar e isso tem estado a colocar em risco a continuidade do meu relacionamento”, admite.  


Para o bibliotecário e porta-voz dos trabalhadores Edmundo de Carvalho, toda essa situação tem criado neles "desgaste emocional”. Ele diz que não há quem resista diante de tal situação. E conta o seu caso particular. "A mulher já não aceita fazer amor, sente-se desmotivada e sem ânimo”.
O bibliotecário receia que os filhos mais crescidos, por passarem o dia todo sem ocupação, possam vir a ter comportamentos desviantes e entrem para o mundo da delinquência e da prostituição.


Membros sensibilizados

Comovido com a situação, o poeta João Tala, membro da União dos Escritores Angolanos lançou recentemente, no seio dos seus confrades, uma campanha de apoio aos trabalhadores. A ideia consiste na contribuição por cada um dos membros da agremiação com um montante financeiro ao critério individual, mas não inferior a 5 mil kwanzas. A iniciativa foi recebida com agrado pela maioria dos associados, segundo João Tala, apesar de estarem conscientes de se tratar de uma solução paliativa.

"É urgente que se altere o quadro. Há dias, passei pelas instalações da UEA e encontrei as portas fechadas em dia normal de trabalho, o que me causou espanto”, refere o escritor. Segundo informações por si colhidas, os 22 funcionários estão a trabalhar em regime de escala diária de duas pessoas.


João Tala reconhece que existe também falha por parte dos membros da UEA ao não pagarem regularmente as quotas. E apesar de ser uma instituição de utilidade pública a agremiação deixou de receber as dotações orçamentais correspondentes, lamenta o escritor, acrescentando que algumas empresas públicas e privadas "bem posicionadas”, bem como o Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente "deixaram de dar os apoios”. Tala acredita que "as dificuldades conjunturais que o país atravessa devem estar entre as causas da retirada desses financiamentos”.

De acordo com o escritor, com isso agravam-se os problemas na instituição. "O pessoal não tem salários há muitos meses, há dificuldades até para pagar a energia, a água e a internet”.

Dado que, como diz, "as dificuldades exacerbam a desmoralização”, João Tala lança o repto aos confrades, para as responsabilidades com a UEA nos bons e nos maus tempos. "Vamos conversar, estabelecer fios de comunicação. Se cada membro fizer uma contribuição mensal de pelo menos 5 mil kwanzas, na hipótese de podermos reunir cem membros, poderemos ajudar a Casa”.


O Jornal de Angola soube, de um outro membro da UEA, que preferiu o anonimato, que vários associados já deram as suas contribuições, em montantes que nalguns casos ultrapassaram em muito o valor mínimo definido.


Alas complicam

Mesmo nos anos em que os dinheiros públicos decorrentes do estatuto de utilidade pública "caíam”, a UEA tinha outras fontes de receitas. Segundo o secretário-geral David Capelenguela, a instituição sempre teve o apoio de embaixadas acreditadas em Angola, da banca e das petrolíferas. "Mas a situação  foi-se agravando com a retirada das ajudas em função de cada mandato”, frisa.


A crise económica e a situação decorrente da Covid-19, reconhece Capelenguela, "têm criado vários constrangimentos”.  Outro problema, segundo o secretário-geral, é a existência de alas no seio da agremiação literária. "Muitos colocaram na mente que por não se reverem nesta ou naquela direcção, devem retirar os apoios”.

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