Sociedade

Criança abandonada pela mãe no Marçal é devolvida ao pai

André da Costa

Jornalista

“Não sentirei nunca saudade nem quero saber da minha mãe, por me ter abandonado na rua”. Essas palavras, expressas num momento de muita tristeza e emoção, foram da menina Ludmila Nzage, ao ser devolvida ao pai, um ano depois de ter sido deixada à sua sorte pela progenitora.

22/09/2022  Última atualização 08H30
Victor Nzage não conteve as lágrimas, com a filha aos braços, cerca de 11 meses depois de a menor ter estado desaparecida © Fotografia por: DR

Agora com seis anos, a menor tinha sido largada a meio da rua, em Outubro de 2021, no bairro Marçal, pela própria mãe, Ana Hebo, 32 anos, que queria agradar o novo marido, foi encontrada no Distrito Urbano do Sambizanga.  Bastante feliz pelo reencontro com o pai, Victor Nzage, a menor era cuidada por dona Lukénia Francisco, residente na rua 12 de Julho do Sambizanga.  A localização da criança foi possível, graças à pronta colaboração de Lukénia Francisco, que após ter acompanhado a história na imprensa, inclusive no Jornal de Angola, entrou em contacto com o pai de Ludmila e avisou ao SIC-Luanda.

Visivelmente emocionada e aos prantos, dona Lukénia, mãe de sete filhos, disse ter encontrado Ludmila, em Outubro do ano passado, junto à Cidadela Desportiva, sozinha, desesperada e com um saco preto, em que continha peças de roupa.

"Quando fui à busca da bebé da minha patroa, pela manhã, encontrei a Ludmila na rua, e à tarde, voltei a vê-la, mas já no meio de muita gente. Foi aí que decidi trazê-la a casa”, contou.

A senhora explicou que a menor tinha informado que a mãe, quando a abandonou na rua, alegou que a esperasse ali, porque queria comprar algo numa cantina, mas nunca mais voltava.

Na hora da decisão, o coração de mãe falou mais alto. E dona Lukénia acolheu a criança, mas fez a participação à Esquadra de Polícia do Rangel, tendo deixado ali os contactos, na esperança de que a família da menor fosse aparecer.

"Além disso, fui, também, fazer a participação numa esquadra do Cazenga e cheguei a publicar fotos no Facebook, mas essas iniciativas não tiveram êxito”, desabafou. Ao levá-la para casa, realçou que a criança tinha sarna e apresentava um aspecto muito maltratado, mas cuidou dela como filha.

"Lembro-me que as pessoas me diziam que não podia acolher mais ninguém em casa, porque eu já vivia uma situação social crítica. Mas, nunca liguei e cuidei a miúda com muito amor”, disse a mulher.

 Pedido difícil de aceitar

O clima continuou emocionado. E no meio choros, dona Lukénia pediu ao pai da menina para ficar com a criança, por causa da afinidade que criou com Ludmila, solicitação negada pelo progenitor, pois Victor Nzage prefere que a filha seja cuidada por familiares directos, mas prometeu que, nalgumas vezes, quando dona Lukénia sentir saudades terá a criança por perto.

Enquanto os adultos negociavam, Ludmila Nzage, já no colo do pai, não parava de chorar. Era um sentimento misto; alegria e tristeza. Para já, a criança afirmou não querer saber de Ana Hebo, por isso, vai viver com o pai e visitar sempre a segunda mãe: Lukénia Francisco.

Enquanto se despedia da menina, dona Lukénia deixou recomendações importantes a Victor Nzage. Pediu que cuide bem da filha, principalmente nas questões de saúde, ao deixar certas receitas para o caso de estar doente, inclusive!

No fim, Victor Nzage agradeceu o gesto de dona Lukénia, por ter cuidado da criança, durante quase um ano, e ao SIC, pelo trabalho que desenvolveu e em tão pouco tempo conseguiu a filha de volta.

 Mãe em prisão preventiva

O porta-voz do SIC- Luanda, superintendente Fernando de Carvalho, que se mostrou chocado com a atitude da mãe, pediu maior responsabilidade dos pais no tratamento dos filhos.

"Não se percebe que uma mulher aguarde por nove meses de gestação e mais uns anos de vida da criança, para, depois, a deitar na rua”, desabafou, considerando triste que "a própria menor, agora, diz não querer ver a mãe”.

O oficial, visivelmente emocionado com o feliz desfecho do caso, apelou aos pais para evitarem situações que causem sofrimento às crianças.

Fernando de Carvalho anunciou que Ana Hebo, a mãe da criança, já foi ouvida pelo Ministério Público, tendo sido decretada a pena de prisão preventiva. O processo-crime vai continuar até chegar ao tribunal.

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