Reportagem

Cresce estranho hábito de clarear a pele

Os usuários dos cosméticos clareadores apresentam tendência de amarelamento da pele em partes do rosto, nos braços e nas pernas. E, entretanto escurecem nos pés e nas mãos ou nos nós dos dedos. A estrutura externa dos olhos e as pálpebras superior e inferior apresentam-se avermelhadas ou escurecidas, como se tivessem sofrido queimaduras.

16/10/2022  Última atualização 06H55
© Fotografia por: DR

"Paculadores” é como são chamadas as pessoas que usam cremes para clarear a pele. Especialistas em epidemiologia divergem quanto à utilidade para a beleza e as consequências devastadoras que o uso dos mesmos cremes representa.

Nas cidades e vilas do Uíge as lojas e bancadas são dominadas por diferentes tipos de cremes que chegam frequentemente à circunscrição a partir dos postos aduaneiros de Kimbata, em Maquela do Zombo,  e Luvu, no Zaire. Há ainda os que são adquiridos a partir de agentes grossistas na zona do São Paulo, Hoji-ya-Henda e Kikolo, em Luanda.

 

Diversidade de clareadores

Rafael António João é vendedor de produtos químicos para a pele no mercado municipal, na cidade do Uíge. Rafael disse ao Jornal de Angola que comercializa cremes que claream a pele em pouco tempo. Informou que  "os cremes que estão, agora, na actualidade, são o ‘7 dias’, ‘10 dias’, ‘Bravia’, ‘Paw-Paw’ e ‘Sivo Cler’. Esses estão a dar show e a deixar as pessoas bonitas em pouco tempo”.

O vendedor acrescentou que existem cremes que, para terem o efeito imediato, precisam da adição de outros componentes como óleo, pomada, sabonete e gel de banho.

 

"Gosto de me clarear”

Para Jorgina  Domingos, usuária de cremes clareadores há dois anos, o "Bravia” é o seu cosmético preferido. "Estou a gostar do resultado deste creme e até agora estou satisfeita com o tom que a minha pele atingiu. Não tenho motivos de queixa”, sublinhou.

Jorgina esclareceu que não usa de forma exagerada, evitando ao máximo a exposição ao sol e quando a saída for inevitável utiliza roupas que cobrem o corpo todo para evitar queimaduras. "Não vejo problema nenhum em usar esses produtos. Cada um é livre de fazer as suas escolhas”.

 

Um escurinho arrependido

António Filipe,  que mora no bairro Mbemba Ngangu, é também um dos usuários desses cosméticos. Disse que  antes era escurinho e os amigos lhe discriminavam por ter o tom de pele muito escura. No grupo era o único que marcava diferença, mesmo sendo todos negros. Por sofrer muita discriminação, resolveu ir ao Mercado Municipal da Damba, onde vivia  na altura, comprar um creme "para mudar um pouco a cor da pele”.

Conta  que no mercado foi-lhe sugerido comprar um conjunto composto por óleo, pomada, gel de banho, sabonete e o creme denominado "Perfect”, que devia misturar ainda com outros produtos que não indicou. "Eu queria mesmo a mudança da cor da minha pele”.

Disse que em pouco tempo, cerca de duas semanas, a essência começou a resultar. "No princípio estranhei, comecei a me sentir bem no grupo. Depois de três anos de uso a história mudou, o meu corpo começou a modificar. Mínimo toque a pele fica vermelha, as minhas mãos e os pés continuaram escuros, o corpo bem claro, os amigos de novo voltaram a rir-se de mim. Daí comecei a me sentir mal e envergonhado e resolvi deixar de usar aquele creme e comecei a usar apenas sabão azul para voltar a ser como antes”.

Lamenta não estar a ser fácil o retorno à tonalidade original da pele. "Usei aqueles produtos durante muito tempo, hoje estou bem arrependido por estragar a minha pele”, reconheceu António Filipe, visivelmente entristecido, aproveitando o momento para apelar aos que ainda usam para evitarem tal prática.

"Não se deixem iludir, procurando ser alguém que não és na realidade, para agradar aos outros. Seja como Deus te fez e viva a tua vida. Ninguém é melhor que outro, então seja feliz do teu jeito”, disse.

 

"Eu era bonita”

Mambwene Ruth Dedé, de 59 anos de idade, diz ser vítima do uso dos produtos químicos enquanto jovem. Ela é natural do município do Kuimba (Zaire) e reside, actualmente, no bairro Papelão, na cidade do Uíge.

Mambwene conta que naquele tempo se sentia bem sem prever o que poderia acontecer no futuro. "Eu era bonita de natureza, tinha boa cor, preta achocolatada, enfim, mas por falta de informação caí nessa desgraça”.

Referiu ter comprado um creme, por sua livre vontade, e começou a usar, trocando várias vezes de tipos. "Antes eu usava cremes indicados para as crianças, depois passei a comprar outro para adultos que naquela altura sobressaía”. 

Como a maioria usava aqueles cremes, também entrou na linha, obtendo os resultados, que naquela altura considerava positivos. "Hoje olha como estou! Não sinto vergonha de contar às pessoas e mostrar fotos do antes, depois e agora, porque isso servirá de conselho aos nossos jovens para não optarem por esta prática”, frisou.

 

Especialistas desaconselham o uso

Pedro Nkama Artur, supervisor do Hospital Geral do Uíge, desaconselha o uso dos referidos cosméticos pelo facto de muitos destes produtos serem elaborados em fábricas clandestinas. "Para as pessoas que utilizam produtos para o clareamento da pele, tenho estado a aconselhar para deixarem”, lembrou.

Referiu que todos que utilizam esses cosméticos têm, depois, muitas consequências como a danificação do sistema imunológico, visto que a pele é o maior órgão de defesa do organismo humano. As consequências, disse, podem ser imediatas  ou  registadas  ao longo  do  tempo.

O supervisor-guia de Saúde informou que consequências tardias podem aparecer tais como cancro da pele, inflamação da pele, irritação, alteração irreversível da coloração da pele, queimação, entre outras consequências visíveis  em quase todas as pessoas que usam esses produtos.

"Não é uma prática aconselhável, porque muitos desses produtos não são produzidos pelas indústrias farmacêuticas, são produzidos simplesmente por linhas de produtos cosméticos não autorizados, com proibições por utilizarem substâncias nocivas”, disse.

Referiu que a maior parte dos cremes clareadores que são comercializados no mercado informal  não têm a necessária certificação, o que pode pressupor que essas indústrias utilizam produtos com substâncias nocivas.

A maioria desses produtos, revelou, é de origem estrangeira, como a RDC e Costa do Marfim. Para o epidemiologista, são cremes que não têm informação ou tradução em língua portuguesa, apenas em francês, russo ou inglês e as pessoas são guiadas através de ilustrações.

"Mesmo no caso dos cremes fabricados nas indústrias certificadas é importante, antes de usá-los, solicitar a um dermatologista para avaliar se há compatibilidade com a sua pele ou não. Porque há situações também em que o produto não é nocivo mas pode trazer alguma consequência a determinados utilizadores”, alertou.

Afonso Mavova, docente do ISCED/Uíge, formado em Sociologia pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto, disse que tem acompanhado esta situação com muita preocupação.

 "A juventude tem optado por fazer o uso de cremes que claream a pele. Muitos, por não se contentarem com o tom da pele natural, acabam por cair nesta prática pensando que, assim, sentir-se-ão mais felizes, bonitos, atraentes e com auto-estima alta”.

No seu entender, a imitação é uma das principais causas que faz com que algumas pessoas optem por usar produtos clareadores da pele, apesar de haver pessoas que os usam por causa de infecções na pele.

Para o sociólogo, esse fenómeno tem várias consequências, a saber, a mudança do tom de pele, o cansaço da pele, em função do uso destes químicos, a queimadura que dá uma tonalidade como se a pessoa usasse carvão e mais tarde surge a discriminação, o bullyng e a exclusão social.

"Não abracem essa prática de uso de cremes clareadores'', aconselhou o académico, enfatizando que a pessoa deve sentir-se feliz da forma como foi criada por Deus. "Não deve achar que a cor ou tom da pele não é bom. Optar pelo uso de algum produto para mudar a originalidade da pele é um pressuposto de negação da sua essência”, concluiu.


Lussilavova Lopes, Albertina Miezi e Eunice Suzana | Uíge


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