Economia

Crédito mais distante da banca comercial

O crédito a clientes na banca angolana registou, em termos globais, de 2017 a 2019 uma queda de cerca de 15,5 por cento.

14/08/2020  Última atualização 08H30
DR © Fotografia por: Incumprimentos nos últimos cinco anos triplicaram situando-se nos 336 por cento numa banca em que os cinco maiores operadores representam 72,4 por c

De acordo com cálculos baseados nos relatórios anuais dos bancos, os 3.136 mil milhões de kwanzas concedidos em 2017 eram já em 3,0 por cento menores que o valor concedido em 2016. Em 2019, chegou-se à cifra de 2.648 mil milhões, abaixo em 10 por cento quando comparado com o ano de 2018.

Nos últimos três anos, 2017, 2018 e 2019, o crédito líquido a clientes tem registado descidas sucessivas, numa clara demonstração de um desacelerar da banca em financiar produtos e serviços. O cenário tem vindo a obrigar o banco central a adoptar medidas que obrigam os bancos a conceder créditos, impondo multas, nalguns casos de infracções, e a aumentar os coeficientes obrigatórios de reservas.

Ainda assim, essa descida do crédito não é respondida, ao todo, pelos números da banca, pois que os lucros, os depósitos e os activos do sector crescem de ano em ano. a excepção é para os bancos de capitais públicos e uns poucos privados, que também acumulam prejuízos nas suas contas anuais.

Em 2019, o valor total dos activos das instituições financeiras, segundo o mais recente estudo “Banca em Análise” da Deloitte, ascendeu a 14.102 mil milhões de kwanzas, o que corresponde a um crescimento de 11 por cento face a 2018. O total do resultado líquido do sector registou um decréscimo de 76 por cento em relação ao ano anterior, passando para os 78.439 milhões.

Já em 2017, os activos, quando comparados a 2016, representaram uma subida de cerca de 3,0 por cento, fixando-se nos 10.129 mil milhões. O total do resultado líquido do sector bancário nacional registou, em 2017, um decréscimo de 6,0 por cento em relação ao ano anterior, passando para os 158.910 milhões. Também baixou em 3,0 por cento o produto bancário. Nesse ano, os capitais próprios dos bancos subiram em cerca de 16 por cento.

O peso dos depósitos em moeda nacional, em 2017, manteve a tendência de crescimento em detrimento da moeda estrangeira, passando a representar 69 por cento dos depósitos totais. O valor total dos depósitos de clientes na banca foi de 7.013 mil milhões nesse mesmo ano, o que representa uma redução de 0,2 por cento face a 2016.

Para 2019, o valor total dos depósitos de clientes fixou-se nos 9.796 mil milhões de kwanzas, o que representou um crescimento de 25 por cento face ao ano anterior.

Crédito vencido

O crédito vencido malparado agravou-se, significativamente, tendo registado um aumento de 42,45 por cento face ao ano anterior, situando-se em 1,60 biliões de kwanzas. Os dados do BNA avançam que desde meados de 2014, altura em que iniciou os desequilíbrios estruturais na economia angolana até ao ano 2019, o nível de incumprimento triplicou, ou seja, assistiu-se a um agravamento na ordem de 336 por cento.

Este agravamento deveu-se, principalmente, ao aumento do nível de dívida pública interna, à depreciação cambial e a deficiências na política de controlo de risco de crédito. Todavia, a capacidade de cobertura do passivo de curto prazo em moeda nacional do sector bancário aumentou de 20,11 para 25,40 por cento, em detrimento da liquidez imediata em moeda estrangeira que reduziu de 35,51 para 32,78 por cento.

Os cinco maiores bancos representaram cerca de 72,4 por cento do total do activo do sector bancário e o seu activo registou um aumento de cerca de 23 por cento face ao ano anterior. Na posição relativa entre os cinco maiores bancos a operar em Angola, o BAI lidera, com um activo total de 2.641 mil milhões de kwanzas, seguido pelo BFA, BPC, BIC e Atlântico.

Leis mais apertadas

No sentido de garantir a estabilidade do sistema bancário e em cumprimento do plano estratégico, o BNA, realizou o exercício de Avaliação da Qualidade dos Activos (AQA) a 13 dos bancos, cujos activos agregados representavam 92,8 por cento do total da banca, com referência a 31 de Dezembro de 2018, tendo os resultados revelado que o sistema bancário angolano é globalmente robusto.

Em finais de 2019, estavam autorizadas a funcionar no sistema financeiro angolano 26 financeiras bancárias, contra 27 em 2018, sendo 3 bancos públicos, 17 bancos privados nacionais, 5 filiais de bancos estrangeiros e 1 sucursal.

Nos últimos três anos, verificou-se uma diminuição do número de bancos a operar no mercado, devido, essencialmente, ao reforço do papel de intervenção e supervisão do BNA em linha com as melhores práticas internacionais, tendo como principal objectivo a garantia da estabilidade do sistema financeiro.

O regulador apertou um pouco mais nos instrumentos regulatórios e fruto disso, alguns bancos têm estado a sentir dificuldades de continuar com o negócio. Por insuficiências de Capital Social, o BNA retirou as licenças aos bancos Mais e Postal.

O BANC seguiu-se, com profundas dificuldades no seu balanço. Ainda que se explique noutros termos, o Kwanza Invest também está sem condições para continuar a prosseguir as operações de banca e já iniciou com o processo de dissolução.

Despedimentos em massa

A comemoração dos 45 anos da banca acontece numa altura em que a classe enfrenta a crise de despedimento de cerca de 1.600 trabalhadores do Banco de Poupança e Crédito (BPC).

Numa entrevista recente ao JA, o presidente do Sindicato Nacional dos Empregados Bancários de Angola (SNEBA), Filipe Makengo, afirmou não serem os despedimentos dos trabalhadores do BPC a melhor opção para a redução dos custos operacionais do banco. O líder sindical defendeu, como primeira solução, a cobrança do crédito malparado.

“O Sindicato compreende que o processo de reestruturação do BPC emana do Despacho Presidencial nº 310/17, de 28 de Dezembro, que determina a reestruturação do sector bancário público. Mas, em parte alguma do citado Despacho ressalta a necessidade de dispensa de trabalhadores”, argumenta.

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