Entrevista

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“Covid-19 veio ensinar que devemos estar preparados a todos os níveis”

Nessa fase da Covid-19, praticamente, caíram no “esquecimento”as doenças negligenciadas. Aliás, o doutor faz, na página que tem no Facebook, menção a isso. Que consequências podem advir desta situação, de se estar a “esquecer” as grandes endemias no país?

02/05/2020  Última atualização 09H11
Alberto Pedro| Edições Novembro

A Organização Mundial da Saúde (OMS) sempre considerou o comprometimento político como um dos principais pilares na luta contra as epidemias. As decisões políticas tomadas ao nível mais alto do país, no âmbito das medidas de prevenção contra a propagação da pan
demia da Covid-19, demonstraram que, quando queremos, podemos. Em um mês em confinamento, temos 26 casos positivos e duas mortes. Para o efeito, mobilizámos tudo e todos, nomeadamente, a Polícia Nacional, Exército e Serviço de Inteligência e todas as forças vivas da sociedade e um grande envolvimento político a todos os níveis. Parámos tudo, decretou-se o Estado de Emergência. Mas nunca vimos tanto empenho noutras endemias, como malária, tuberculose e VIH/Sida, que matam muito mais do que a Covid-19. Entre 2016 a 2018, a malária registou mais de 2.500.000 casos, com mais de 40.000 mortes, com 50% das mortes em crianças com menos de cinco anos. As principais causas são o saneamento básico deficiente, falta de abastecimento de água potável, dificuldades na luta contra o principal
vector, entre outras.

O quadro é mesmo tão grave ...?

Angola está entre os 30 piores países no controlo da tuberculose, por altas incidência e prevalência, nomeadamente, da tuberculose com HIV e a tuberculose multiresistente aos fármacos de primeira linha. A taxa de incidência, em 2018, foi de 350 casos novos em cada mil habitantes. A OMS recomenda uma taxa inferior a 70/1000 habitantes. Diagnostica-se entre 60 a 70 mil novos casos a cada ano. É a terceira causa de morte em Angola. Este quadro exige uma resposta acelerada e sustentável a todos os níveis, sob pena de continuarmos a assistir ao aumento de casos e mortes de cidadãos indispensáveis para o desenvolvimento do país.

Como especialista em Medicina Interna, quando as autoridades prognosticam o “pico da pandemia da Covid-19”, entre os meses de Cacimbo, ou seja na estação Seca, que tipo de medidas profiláticas deviam ser tomadas até lá, para se evitar uma eventual propagação em grande escala?

Não sei, se podemos fazer essa analogia, porque o que estamos a assistir nos outros países é que, desde o momento em que se diagnostica o primeiro caso, o aumento é exponencial de novos casos, até atingir o pico. No nosso caso, é diferente. Desde que foram diagnosticados os primeiros casos, há um mês, o aumento de casos tem sido muito lento. Não me parece, se continuarmos a cumprir com as orientações das autoridades, que venhamos a atingir esse pico que se projecta.

Não acha que o Hospital Sanatório de Luanda podia servir para a luta contra a pandemia, sendo de referência, por exemplo, no combate de uma infecção, a tuberculose? Ou esta particularidade impede a sua utilização?

Penso que a decisão foi bem pensada, porque os doentes do Sanatório de Luanda estão muito debilitados pela tuberculose, VIH e mal nutridos. Se forem misturados com doentes com Covid-19, seria muita exposição e poderia provocar infecções em massa.

Nessa altura em que as baterias estão viradas para a Covid-19, qual tem sido a situação no Hospital Sanatório de Luanda: aumentou, abrandou ou diminuiu a avalanche de casos de tuberculose e de outras doenças de foro respiratório?

O trabalho está redobrado, porque a Covid-19 compete, nos sintomas respiratórios, com outras doenças atendidas no hospital. Os médicos, enfermeiros e os outros técnicos trabalham sob pressão, com receio e medo, naturais, por ser uma pandemia que nunca fez morada entre nós. Ainda se discute a forma de tratamento, os medicamentos e vacinas, mas o dever fala mais alto. Seria bom que o Hospital Sanatório de Luanda tivesse equipamentos para facilitar o diagnóstico e assim reduzir um pouco a tensão no seio dos trabalhadores.

Que lições o nosso Sistema Nacional de Saúde pode retirar da pandemia da Covid-19, no que toca à reformulação dos programas de combate às grandes endemias?

Os programas estão bem concebidos no papel, o que falta é um comprometimento maior de todas as forças vivas da sociedade. Liderança e comprometimento político nos factos e não só nos discursos.

E que tipo de hospitais passaremos a ter de agora em diante?

Essa pandemia da Covid-19 veio ensinar-nos que devemos estar preparados a diferentes níveis: recursos humanos, medicamentos essenciais, equipamentos, etc. Nós tivemos em Angola uma epidemia de febre amarela, em 2016, e demonstrou que os nossos hospitais não estavam e nem estão preparados para aquele nível de pressão. Houve muitas mortes, faltou tudo: soros, seringas, sangue, etc.

Acredita que a população angolana vai adoptar, de agora em diante, a preocupação com as medidas de higienização das mãos ou, depois da pandemia passar, tudo vai voltar como antes?

A população angolana deve aproveitar essas medidas higiénicas, no âmbito do combate à Covid-19, para serem usadas para sempre. Lavar as mãos, não comer em locais que não oferecem segurança, não passar a mão na boca, nariz, olhos e ouvidos, antes de higienizá-la, melhorar as condições dos nossos mercados. Mas os órgãos de comunicação social devem continuar a educar as pessoas, através das diferentes plataforma à sua disposição. Devemos aumentar a fiscalização sanitária e outras medidas estruturais que concorrem para uma maior higienização, como o saneamento básico, melhoria no abastecimento de água potável, energia eléctrica, entre outras acções.

O facto de haver relatos de subida do número de médicos, enfermeiros, técnicos de laboratórios e outros, entre os infectados de Covid-19, a nível do mundo, mostra alguma falha no processo?

Os trabalhadores da Saúde estão na primeira linha no combate à Covid-19, tuberculose, ébola e malburgo, doenças altamente contagiosas, que exigem alto nível de biosegurança, com equipamentos de protecção individual e colectiva, bem como disciplina na utilização dos referidos equipamentos de protecção. Sempre poderemos cumprir essas medidas com o dever de salvar vidas de terceiros. Por isso, os técnicos da Saúde reivindicam o subsídio de risco.

Perfil

Formado em Cuba, Afonso Wete é médico desde 1991. É pós-graduação profissional: especialista em Medicina Interna; mestre em Gestão em Saúde e professor universitário. Desenvolve a actividade no Hospital Sanatório de Luanda, de que já foi director-geral (2008-2017). Também foi director clínico nos hospitais Josina Machel e Sanatório de Luanda. É membro das equipas técnicas dos programas de Luta contra Tuberculose e VIH/Sida.

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