Reportagem

Covid-19: Quebras do isolamento social em pleno Estado de Emergência

A 31 de Dezembro do ano passado, enquanto o mundo vivia a azáfama da passagem de ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recebeu o primeiro alerta das autoridades chinesas. Uma série de casos de pneumonia de origem desconhecida estava a assolar a cidade de Wuhan, com cerca de 11 milhões de habitantes. Tratava-se de um novo coronavírus, ao qual se convencionou chamar Covid-19. O vírus transpôs as fronteiras da China.

10/04/2020  Última atualização 11H00
Vasco Guiwho | Edições Novembro © Fotografia por: O choque da realidade surgiu às primeiras horas da manhã de sexta-feira, há duas semanas mais ou menos.

De vários países, surgiram relatos de infecções. Num curto lapso de tempo, a Europa passou a ser o pólo de contágio global. No dia 11 de Março, na voz do seu director geral, o etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus, a OMS declarou pandemia mundial. A 21 de Março, a ministra angolana da Saúde, Sílvia Lutucuta, confirmou a existência dos primeiros casos positivos de Covid-19 em território nacional. Angola acabara de entrar no mapa mundial das estatísticas associadas à pandemia que apavora a humanidade.

A conferência de imprensa da ministra da Saúde colocou o país em estado de tensão. A doença deixou de estar em territórios distantes, para se instalar aqui. No dia a seguir, sábado 22 de Março, a cidade registou um movimento inusitado. A ameaça silenciosa instalou-se no quotidiano. Os supermercados encheram-se de consumidores e as praças menores também. Festas planificadas com antecedência foram canceladas.
O tema abalroou as redes sociais. Pais e encarregados de educação sugeriram a interrupção do ano lectivo, algo concretizado em todos os níveis de ensino. A declaração do Estado de Emergência foi a sequência lógica do conjunto de decisões adoptadas com vista a diminuir o impacto da pandemia no país. Com as limitações e debilidades conhecidas do nosso sistema de saúde, o Executivo apostou na antecipação como grande trunfo, tendo o seu titular evocado a necessidade de aprender com os erros alheios.
Num contexto de incertezas, o Presidente João Lourenço decretou o Estado de Emergência no país, por 15 dias renováveis, a partir de sexta-feira, 27 de Março. O decreto restringe várias liberdades, como o “direito de residência, circulação e migração para qualquer parte do território angolano” e dá às autoridades vastos poderes para a adopção de medidas julgadas necessárias para se impedir a propagação do coronavírus. Às autoridades foi conferido poder para impor restrições tendentes a reduzir o risco de contágio. O “direito de circulação internacional” e “direitos de propriedade e de iniciativa económica privada” caíram na alçada das suspensões enquadradas no Estado de Emergência.
Após a declaração do Estado de Emergência era expectável a redução do fluxo de gente na rua. “Na Cidade Vazia”, analogia com o filme homónimo da realizadora angolana Maria João Ganga, seria o previsível título da reportagem sobre Luanda que não aconteceu. Porquê? A cidade não se esvaziou. O choque da realidade surgiu às primeiras horas da manhã de sexta-feira, 27 de Março.
Os noticiários das duas principais cadeias de televisão mostravam trânsito intenso, ruas cheias, bichas intermináveis em frente a supermercados e bancos. A agravar os aspectos descritos, havia contacto directo entre pessoas. Os analistas justificavam a situação no facto da grande maioria dos salários não ter sido paga.
Os citadinos estariam desprevenidos, por isso, tinham que garantir o aprovisionamento de bens alimentares. Os mais optimistas garantiam que, a partir da segunda-feira seguinte tudo seria diferente.

Parcialmente isolados

Desde segunda-feira, 30 de Março, até a segunda-feira seguinte, a reportagem do Jornal de Angola saiu à rua todos os dias, dando especial enfoque à circulação de pedestres e rodoviária. De modo geral, a baixa de Luanda e demais zonas com forte presença de serviços administrativos transmite a ideia do Estado de Emergência. Aqui, sentimo-nos quase numa verdadeira cidade fantasma. A Ilha de Luanda, que, na data de divulgação dos primeiros casos positivos Covid-19 em Angola e no fim de semana imediato, acolheu inúmeros banhistas, transformou-se na própria expressão de isolamento. Nada lembra a véspera da entrada em vigor do Estado de Emergência. Nessa altura, presenciámos a disputa de descontraídas partidas de futebol. Grupos de adultos, adolescentes e crianças extravasavam alegria. Os jogadores comemoravam golos com abraços. A assistência idem. Como se não houvesse um perigosíssimo vírus ávido de hospedeiros para se reproduzir.
Hoje, a circulação restringe-se praticamente aos moradores. A largos metros da entrada da Ilha do Cabo, agentes da Polícia Nacional interpelam transeuntes e condutores. Sem exibir o passe de jornalista, tentámos furar as barreiras virtuais na passada quinta-feira. Passavam alguns minutos das 14 horas. Alegámos a necessidade de abastecer a viatura.
“Eu poderia deixar-vos passar, mas há várias equipas. Não vão conseguir entrar na Ilha. É melhor abastecerem na vossa área de residência”, responde o agente.
“Queríamos também comprar peixe...”, insistimos. “Façam compras nos mercados antes das 13 horas ou nas lojas grandes até às 16 horas”, sublinha, peremptório, não obstante o leve sorriso.
Mensagem captada. Hora de fazer o retorno. Voltámos a tentar na sexta-feira. Contrariamente à jornada anterior, em que pretendíamos “furar” pelo Baleizão, preferimos percorrer a velha Marginal para chegar à Ilha de Luanda. Nada feito! Aqui, pelo menos, o Estado de Emergência está em vigor.
Em períodos normais, a baixa luandense já é isolada no fim-de-semana. Durante o Estado de Emergência, a acalmia aliada ao escaldante sol de fim de estação aumentaram a sensação de caminhada no deserto. Os raros espaços nos estacionamentos das zonas residenciais restabeleceram a noção de lugar. Impossível não resgatar mentalmente o passado mercantil de escravos na silenciosa rua dos Mercadores. As manhãs de domingo, caracterizadas por milhares de pessoas com vestes coloridas em direcção às praias, ou em sentido contrário, deram lugar a postais desprovidos de gente. Contavam-se as pessoas na rua. O ambiente atípico estendia-se da Mutamba ao aeroporto, da Maianga à Deolinda Rodrigues, da Samba ao Talatona e por outras artérias da cidade. No São Paulo, ali perto do mercado, espaço com trânsito geralmente complicado, alguns jovens divertiam-se a cronometrar o tempo entre o passar de um e de outro carro.
Sábado, meio-dia. Quanto mais nos afastámos da Mutamba, maior a movimentação. A pracinha de bombó com ginguba do famoso triângulo da Terra Nova continua activa. As “tias” assam e torram os apreciados quitutes da terra.
“Não encosta muito, aqui tem corona, mas vem comprar minha bonita”, apregoa a simpática senhora. Aparentemente, tiraram folga as adolescentes que vendem os concorridos bolinhos fritos na hora. As paragens de táxi estão menos concorridas, mas a lotação esgota. A etapa seguinte da missão seria o Cazenga. Cedemos, porém, à tentação de enveredar pela Comissão do Rangel. O chuvisco caído na véspera reavivou os charcos das vielas em que se reparte a rua de Mormuga. O mercado do Tunga Ngó apresenta movimento reduzido, comparativamente ao último sábado. Salta à vista o portão improvisado com chapas que veda o acesso à Estação dos Musseques dos Caminhos de Ferro de Luanda. A maioria dos vendedores já se recolheu.
Os negociantes de ginguba crua e torrada, dependendo da preferência do freguês, arrumam às pressas os utensílios com os quais prepararam a moamba. Têm de armazenar a mercadoria e o material de trabalho no “sistema”, conforme designam os locais de arrecadação dos produtos para comercialização. Vendedora de legumes há cerca de dez anos, Joana António aponta a bancada vazia. “O mercado do Kikolo fechou na quarta-feira. Hoje não vendi nada”. Joana junta-se à colega de quem recebe duas cenouras que coloca no balde vazio.
Enquanto se afastam do espaço de venda, o agente da Polícia confirma o cumprimento do horário de fecho. “Por ser sábado, fechou às 12h00”. À saída do mercado há quem ainda tente despachar mercadorias. Sentada no passeio, a zungueira oferece cinco enfezados limões por cem kwanzas. “É como irmão, chegaste tarde? Não estás a vir do Tunga, porquê é que não compraste lá?” Sem escolhas, o “irmão” sujeita-se a lei do mercado. “Trabalhei durante a semana. Vim de propósito para comprar cenoura e limão. Amanhã virei cedo”, afirma o jovem que vende material informático.

Luta pela sobrevivência

“Compra madrinha, compra também gengibre, o limão cura corona.” Perde-se na multidão, cruzando o asfalto quente com o areal que esbate as fronteiras nos bairros luandenses. O pregão confunde-se com o de outros vendedores, cujo número aumenta ao passo que nos distanciamos do perímetro mais urbanizado da cidade. A maioria dos transeuntes contactados pelo Jornal de Angola mostra-se consciente do risco. O dilema situa-se entre “guardar a forme em casa” e garantir o “pão dos filhos”.
Vêem-se muitas crianças na rua. Umas fazem pequenas compras, outras zungam para ajudar no sustento das famílias. Encontramos Milocas, 15 anos, e o irmão de 8 anos, no parque de uma grande superfície. “A mãe nos mandou comprar cerveja”, afirma, quando tentamos saber o que faz na rua. As perguntas são proporcionais ao número de respostas omissas. Estranhamente, ninguém da autoridade interpela menores de idade. Era suposto, mais do que os adultos, estarem confinados aos domicílios.
A luta pela sobrevivência acompanha a ameaça da pandemia que coloca a humanidade em alerta máximo. A existência de casos de Covid-19 em Angola, de que já resultaram duas mortes, não assusta a gente que almoça algures num quintal. A única diferença entre a fase anterior à doença e a actualidade é a retirada da placa “Aqui serve-se sopa e almoços”, indicativa do “core business” do local.
A porta entreaberta deixa ver as mesas rodeadas de comensais. Desconfiada, a moça com ares de zelosa trabalhadora observa, intrigada, a nossa viatura. Chama alguém. O homem indaga com o olhar. Surge depois uma mulher fisicamente avantajada. Não esperamos pela abordagem. A urgência de sair dali se sobrepõe a curiosidade de saber se era a dona do empreendimento. Confirmamos, porém, que aquele é apenas uma das inúmeras casas que servem comida principalmente perto de mercados informais.
Na via que liga o Benfica à entrada da centralidade do Kilamba, vêem-se pedestres em número inferior ao habitual num domingo comum, em condições normais dia de missas e cultos religiosos. Os táxis escasseiam. Alguns arriscam andar a pé. Para quem carrega compras, a alternativa única é esperar. A ocasião chega, cada um à sua vez. Constatamos então que o respeito ao princípio do distanciamento recomendável era circunstancial. Os passageiros engalfinham-se para entrar no transporte colectivo. É a luta do entra quem puder. O lotador não precisa de se dar ao trabalho de chamar, porque o candongueiro parte cheio. O cumprimento das regras de bio-segurança perde a luta por um lugar, ainda que seja na chamada “baúca”.
Marcelino diz ter ido à casa do irmão buscar um saco de arroz. Apesar de estar empregado, não tem garantido o salário de Abril. Sustenta a família a remediar-se num estabelecimento que procede a venda de refeições a trabalhadores em diferentes pontos do Camama.
“Recebemos em Março. Este mês não sei. Como é que a patroa nos vai pagar, se estamos todos em casa?” A questão da sobrevivência constitui, de resto, a principal razão evocada pelos trabalhadores informais para viverem como se não houvesse Estado de Emergência.
Ainda é domingo. O telefone toca. Um amigo dá conta da insustentável situação do mercado de peixe da Camuxiba. “Ha bué de confusão. Faz lembrar o antigo Roque Santeiro”. Vamos atrás da reportagem. O policiamento na estrada da Samba impede a passagem de qualquer tipo de veículos. As pessoas passam. O peixe está a bom preço. Trocam-se fluidos. Impossível perceber tosse ou espirros no meio de tanta algazarra. Quem disse que Dante descreveu o inferno?
Opostos aos dramas de sobrevivência, os entusiásticos convívios tomam conta das periferias, mas não se limitam aos bairros pobres de Luanda. O Covid-19 não transformou musseques nem asfaltos, divididos por fronteiras cada vez menos densas. Os ambientes típicos de Luanda mantiveram-se quase inalterados no fim de semana. Música alta, frango e peixe grelhado em passeios decadentes, muitas vezes ao lado de esgotos a céu aberto. Aglomerações em “janelas abertas” desafiam de forma flagrante as recomendações tendentes a fazer face ao inimigo oculto.
Trocas de garrafas sem desinfectar as mãos com álcool em gel, entra e sai de amigos e vizinhos que se procuram para matar o tédio de ficar em casa e demais comportamentos inapropriados transcendem a compreensão. A situação piora quando pessoas supostamente bem informadas respondem que “o corona é doença importada de Portugal. Nós aqui não temos nada disso”, afirma sorridente o jovem que diz ser agente da Polícia. “Estou de folga. Vim só desanuviar um pouco com o meu kota”, acrescenta.
Atitudes folgadas foram manifestadas maioritariamente por cidadãos de renda supostamente mediana, a julgar pelos sinais exteriores. Segunda-feira é outro dia. De prolongamento de férias prolongadas, como alguém sugere. Momento para a sequência de equívocos. O engarrafamento no Golf II adia o propósito de dar continuidade à jornada. O cabeleireiro apresentado pela TV Zimbo a angariar sorrateiramente potenciais clientes à beira da estrada ainda lá está. Quer dizer, pode ser o mesmo. Ou outro, porque o número de negociantes com o novo formato multiplicou.
Por enquanto, fica a constatação de que, em grande parte da cidade, em nenhum dia da semana o confinamento foi uma certeza. A ronda exclui os considerados bairros problemáticos, aquelas onde a administração pública significa pouquíssimo. Dizem que lá a população aglomera-se nas bichas para comprar pão, nas pracinhas e em réplicas de armazéns. A hipótese de desenhar quadradinhos para salvaguardar as distâncias nos multicaixas é nula. Em territórios onde a auto-gestão traça as regras diárias, os bancos equivalem a grandes luxos.
A vida em zonas com vigência habitual de Estado de Emergência e rigoroso recolher obrigatório imposto pela delinquência cabe noutra reportagem.

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