Perde-se na poeira do tempo a época gloriosa da cotonicultura angolana (cultivo de algodão). Os investimentos públicos feitos no sentido de revitalizar o sector “encalharam” no Sumbe, município sede da província do Cuanza-Sul, onde o Estado despendeu, em 2011, dezenas de milhões de dólares num projecto piloto, na expectativa de incluir o também chamado “ouro branco” na grelha de produtos geradores de divisas.
O Mercado da Mabunda, localizado no distrito urbano da Samba, é um dos maiores fornecedores de peixe fresco, senão mesmo o maior da capital do país. É o destino preferido de centenas de citadinos. Isso apesar de constrangimentos tais como a falta de higiene e a presença constante de larápios que, volta e meia, podem deixar o visitante aos prantos. Há ainda o desrespeito total às regras de distanciamento físico em tempo de Covid
Judite é “chalada”. Não se cansa de contar histórias de viajantes, que paravam na aldeia Ambuleia e refrescavam a garganta na sua bancada, e de outros que desciam a correr para fazer “xixi” ou mesmo dar uma dibucada (defecar). Ela conta que vários passageiros e motoristas descem das viaturas a correr e disparam a urina para qualquer direcção, molham as calças e defecam nas cuecas.
“Metem cintos muito apertados e depois já não conseguem abrir. São muitos que já se cagaram e se mijaram aqui”, sublinha Judite, que, aos 26 anos, conta com dois filhos pequenos, e já está grávida do terceiro. Na aldeia Ambuleia, localizada a mais ou menos 10 quilómetros da cidade de Caxito, para quem sai de Luanda ao Uíge, Judite montou uma bancada de chapas, onde comercializa bebidas alcoólicas, refrigerantes, e também verduras e frutas.
Apesar da sua boa disposição, a jovem está triste com a prorrogação do Estado de Emergência. “O meu negócio está parado. Já não tenho mais clientes, porque as pessoas estão proibidas de viajar. Esses dias só estão a passar naqueles táxis que fazem ‘lavra-lavra’ e noutros que saem de Caxito até Úcua ou Piri”, explica.
“Os nossos clientes costumam vir do Uíge. Como já é perto de Luanda, se refrescam mesmo já aqui”, dispara Lu, uma mulher de 24 anos, que aguarda pela chegada do segundo filho. “Faltam menos de dois meses”, afirma a jovem, que divide a bancada com a Judite. São primas. Enquanto decorria a conversa com as duas jovens, os filhos chegavam ao local e abraçam-nas.
Com um rapaz às costas e outro nos braços, Teka, a mais velha das manas Judite e Lu, sai do interior da residência e caminha em direcção à bancada. Chegou muda e permaneceu calada. Ajeitou uma cadeira e sentou-se ali com os dois meninos ao colo. “Ela já é mesmo assim, fala pouco”, defendem-na.
No bairro Vida e Sacrifício, muitos quilómetros depois de Ambuleia, dois irmãos, José Francisco e Francisco José, encostados a uma árvore, miravam o asfalto. Ninguém passava a palavra ao outro. Estavam calados, tristes.
“Aqui já não temos nada para nos divertirmos. E, agora sem movimento na via, vamos fazer mais o quê, se já nem podemos apreciar os carros a passar?”, questiona o mais velho. José Francisco, de 26 anos, diz que deixou de caçar animais como javalis, veados, pacas e jibóias, porque os clientes já não aparecem. “Ouvi no rádio, que a quarentena vai durar mais 15 dias”, lamenta.
Francisco José, de 24, interrompe a conversa para dizer que a doença não pode chegar ao bairro, porque o posto médico em funcionamento na localidade não dispõe de medicamentos e nem de pessoal técnico capaz de enfrentar o problema.
“A água daqui não tem qualidade e no posto médico só trabalham dois enfermeiros. E, também não temos energia. Alguns têm geradores, mas o combustível é muito caro”, acrescenta o mais velho.
No bairro, os moradores fervem a água da chuva para beber. O fontanário, instalado em 2013, ficou muitos anos avariado. Só voltou a funcionar no ano passado. “Mas aquela água não tem qualidade nenhuma, e nem dá para ferver. A água da chuva é melhor”, garante José Francisco, acrescentando: “quando não há chuva, bebemos mesmo a água do fontanário”.
Atrás da árvore, o primeiro dos três filhos de José Francisco chupava os dedos e lambia as mãos com muito gosto e satisfação à mistura, mas jura de pés juntos que não tocou em nada que seja delicioso. “Só tenho mesmo vontade de fazer isso”, diz, sorrindo.
A equipa de reportagem do Jornal de Angola avançava em direcção ao Uíge, na quinta-feira, 9 de Abril. A estrada estava livre. Alguns veículos, muito poucos, faziam linhas curtas, Caxito – Úcua, Caxito – Piri, mas outros saíam de Caxito até Quibaxi, e vice-versa, em obediência ao Estado de Emergência, que vigora no país desde 27 de Março, prorrogado na quinta-feira, 9 de Abril, para mais 15 dias de quarentena obrigatória, que proíbe os cidadãos de saírem de uma província à outra.
Na aldeia Camussenga, é cada vez maior o número de vendedoras de produtos agrícolas. O Úcua era paragem obrigatória dos viajantes. Mas agora está às moscas. As barracas de comes e bebes estão encerradas. Quase que não há ninguém nas ruas, apesar de haver no mercado local, que fica ali mesmo na via, grandes quantidades de frutas, verduras e tubérculos. No Piri e no Quibaxi, as ruas estão desertas. As vendedeiras aguardam pelos clientes.
Já não há gente na paragem do São Jorge, onde a maior parte dos viajantes no troço Luanda – Caxito – Uíge, e vice-versa, parava para “matabichar”, almoçar ou jantar.
Do Quibaxe até à ponte sobre o rio Dange, na divisão entre a província do Bengo e do Uíge, a equipa de reportagem do Jornal de Angola não cruzou com uma viatura sequer. O inédito foi ver que, no controlo policial não havia nenhuma viatura estacionada, apreendida.
Covid trouxe à memória o Marburg
O enfermeiro dos serviços de saúde da Polícia, que fez o rastreio à Covid-19 aos repórteres, estava a tremer. Parecia agitado, desconfiado de quem chegava de Luanda. Ele sabe que, até ao momento, os casos positivos da doença só foram registados na capital do país.
Passamos a barreira mais difícil. Entramos no território do Uíge. Do local até à cidade, a distância é de mais de 140 quilómetros, que percorremos sem quaisquer tipos de impedimento. Outro local de comes e bebes, que também ficou desactivado é o da comuna de Vista Alegre, no município do Dange-Quitexe, enquanto na outra comuna de Aldeia Viçosa, a pracinha de produtos agrícolas deixou de existir.
Se na vila municipal de Quitexe a população está nas ruas, na cidade do Uíge o cenário é completamente diferente. A Polícia colocou barreiras em várias ruas, para inviabilizar o trânsito automóvel. Como consequência disso, a maioria dos cidadãos não sai de casa, cumpre o confinamento de forma rigorosa.
As ruas da cidade estão desertas, e os estabelecimentos encerrados. Nos poucos, que podem funcionar neste período de Estado de Emergência, como os mercados informais, supermercados e cantinas, os horários definidos no decreto presidencial estão a ser cumpridos com rigorosidade.
Para a maioria dos uigenses, o Covid-19 faz lembrar o que se passou na província, entre Outubro de 2005 e Fevereiro de 2006, período em que mais de 500 pessoas morreram, infectadas pelo vírus de marburg.
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