Opinião

Covid-19: o pânico não é bom conselheiro

Como será a vida pós-Covid-19? Em termos macro, isto é, no plano do equilíbrio entre economia e ambiente, relações entre as nações e relações de classe, globalização e desigualdade, racismo sistémico e outros factores estruturais, não espero, pessoalmente, grandes mudanças.

22/07/2020  Última atualização 00:00

Mas, no plano micro, ou seja, do nosso estilo de vida diário, quer individual quer colectivo, não tenhamos ilusões: a humanidade terá de conviver com a Covid-19, nas actuais circunstâncias (sem vacina generalizada e sem tratamento), talvez até meados ou mesmo final do próximo ano, pelo que teremos todos de ajustar o nosso comportamento individual, em termos de cuidados de saúde.
Esse será o “novo normal”: uso obrigatório de máscara, distanciamento físico (prefiro esta expressão à de “distanciamento social”, pois, na verdade, a humanidade precisa, como de pão para a boca, de estar próxima social e profundamente, a fim de sobreviver à actual crise provocada pelo novo coronavírus; sem empatia, será muito mais difícil enfrentá-la), redução de ajuntamentos, reforço dos cuidados sanitários, pessoais e comunitários, e, last but not the least, nada de pânico.
Quero enfatizar em particular a necessidade de evitar o pânico e manter a saúde mental. Esse é um cuidado de todos – cidadãos, empresas, governos e instituições internacionais -, mas, tratando-se de uma pandemia, os profissionais de saúde são os primeiros a exigir de si mesmos essa postura, fundamental para enfrentar e vencer a Covid-19.
É não somente justo, mas imperioso, reconhecer o extraordinário exemplo de profissionalismo dos médicos, enfermeiros e outros agentes do sector da saúde, em todo o mundo, na batalha para travar esta pandemia. Alguns governos com possibilidades orçamentárias para o efeito têm, por isso, melhorado as condições, quer de trabalho quer de remuneração, dos referidos profissionais. Mas, lamentavelmente, têm chegado também, de todo o lado, notícias pouco abonatórias do comportamento de alguns deles, decerto a grande minoria.
No nosso próprio país, têm circulado, pelos vários canais à disposição da sociedade, formais ou não, informações preocupantes acerca da alegada recusa de alguns profissionais da saúde em atenderem devidamente doentes com suspeitas de Covid 19, por uma simples razão: medo. Outros estarão a recusar, inclusive, participar nas acções formativas realizadas sob supervisão do Ministério da Saúde para prepará-los para atender esses casos. As ordens dos médicos e dos enfermeiros devem, obviamente, apurar se essas informações são ou não verídicas.
Circulam, de igual modo, notícias de empresas que, por causa da pandemia, estão em modo de teletrabalho e que avisaram os seus funcionários que serão simplesmente despedidos caso sejam vistos na rua por qualquer motivo. Como resultado, alguns desses funcionários entraram em paranóia, passando a automedicar-se furiosamente, com todos os riscos daí decorrentes.
A esses dois exemplos do pânico que é imperioso evitar, a fim de derrotar a Covid 19, enquanto a humanidade aguarda pela vacina ou pelo tratamento para lhe fazer face, acrescento, pelo menos em termos de hipótese para discussão, um terceiro: a persistência da quarentena institucional geral decidida pelas autoridades sanitárias do nosso país.
Desconheço se essa solução terá sido usada em qualquer outro país do mundo, mas seja como for concordo que, no caso de Angola, fez todo o sentido nos primeiros meses da pandemia, quando o novo coronavírus ainda não circulava entre nós e, por conseguinte, era preciso impedir a importação de casos. Fruto dessa e outras medidas atempadas tomadas pelas autoridades, o país está hoje melhor preparado, em termos de instalações, equipamentos e medicação, para en-frentar a Covid-19.
Por uma razão ou outra, não foi possível impedir a propagação dos casos importados para o resto da população, pelo que a circulação do vírus em questão entre nós não apenas se tornou comunitária, à semelhança de todo o planeta, como também observa, hoje, uma tendência crescente. Não será, pois, altura de ajustar a estratégia? É bom não esquecer que a chave do sucesso do combate à Covid-19 em todos os países, não existindo ainda nem vacina nem tratamento, é evitar a sobrecarga do sistema, ou seja, do número de camas, unidades de cuidados intensivos, médicos, enfermeiros e outras condições.
Não sendo eu um especialista, atrevo-me a juntar-me àqueles que defendem o fim da quarentena institucional geral, limitando-a aos casos graves. Também como está a ser feito em todo o mundo, os demais poderão ser tratados em casa, com acompanhamento comunitário. É verdade que o nosso sistema de saúde pública é muito deficiente, mas o que nos impede de utilizar experiências anteriores para lidar com epidemias ou realizar amplas campanhas de vacinação de comprovado sucesso? Os agentes e activistas usados nessas experiências poderiam, acredito, desempenhar um papel efectivo quer na prevenção quer no acompanhamento comunitário dos casos de Covid-19.
Outra sugestão é exigir teste negativo, realizado no país de origem, a todos os passageiros que entrem no país e, se assim for entendido, realizar um teste rápido à chegada. Em caso de duplo negativo, não se justifica, quanto a mim, exigir que tais passageiros sejam colocados sob quarentena institucional.
Os recursos usados pelo Estado para pagar a quarentena institucional geral – hotéis e outras instalações, empresas de refeições, segurança, que sei eu? – teriam melhor serventia, na minha opinião, talvez ignorante, para pagar os custos com os activistas comunitários anti-covid, distribuição de máscaras aos grupos mais pobres, minimização dos problemas de água nos bairros, protecção dos menores de rua e outros.
O mais certo – repito – é que tenhamos de conviver com a covid 19 durante mais um ano ou ano e meio. Até lá, o país não pode ficar prisioneiro do pânico. Mascarados, sem grandes manifestações de efusão (mas empáticos), cuidando-nos devidamente, assim como aos nossos, respeitando o distanciamento físico, evitando ajuntamentos e mantendo a mobilidade possível – temos de continuar a viver.

*Jornalista e escritor

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