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Covid-19: Festas na rua, polícias agredidos e relatos de desobediência chegam de Portugal

Um churrasco interrompido e um GNR levou com uma garrafa na cabeça. Numa espécie de jogo do gato e do rato, um grupo de 30 jovens em festa foi perseguido pela PSP (Polícia de Segurança Pública. Um homem infectado saía todos os dias de casa para ir às compras e ao café. Num parque de estacionamento, um polícia que abordou um casal foi cuspido pela mulher, que disse estar com Covid-19.

09/04/2020  Última atualização 07H03
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Desde que foi decretado o estado de emergência, dia 22 de Março, renovado a 3 de Abril, já foram detidas em todo o país 141 pessoas pelo crime de desobediência - ou seja, por não cumprirem as regras de "circulação" e "confinamento". A maior parte não chega a ir logo a tribunal, mas é levada à esquadra, constituída arguida e fica a aguardar a notificação judicial.
Ainda assim, quer na GNR (Guarda Nacional Republicana) quer na PSP, estes números são considerados uma excepção à regra e essa é que "a esmagadora maioria" dos cidadãos está a cumprir e aceita pacificamente as orientações das forças de segurança.
"De uma forma geral, as pessoas acatam bem as limitações impostas, embora, com tantas excepções que existem, na maior parte das vezes seja complicado para os polícias aferir da veracidade da justificação. Só quando nos apercebemos mesmo de mentiras gritante, ou há hostilidade, é que se executa a detenção", explica ao DN um oficial que está envolvido na coordenação das operações.
As autoridades não têm, nesta fase, dados estatísticos trabalhados que permitam uma caracterização mais fina destes 141 detidos, ou da sua localização geográfica, ou sequer do número exacto dos que foram presentes ao juiz, julgados e condenados (pena de prisão de um a dois anos ou multa de 120 a 240 dias, sendo o valor fixado pelo tribunal e pode ir de um a 500 euros por dia).
Os estabelecimentos comerciais estão também na mira das autoridades, que já encerraram 1.985 em todo o país. Também não foram disponibilizadas informações mais detalhadas sobre as suas características ou localização.
A maior parte, confirmaram ao DN agentes da PSP e militares da GNR que têm estado no terreno, são pequenos cafés e tabernas, pequenos estabelecimentos em localidades mais do interior do país, e nos centros urbanos, em bairros sociais ou nas chamadas zonas urbanas sensíveis.
Assinalou uma destas fontes que nestes locais "as pessoas estão muito habituadas a passar muito tempo na rua, a conviver nos cafés, e é muito difícil mantê-las em casa, a maior parte das vezes sem condições, até". No entanto, não tem havido mais detenções nestes bairros do que noutras zonas da cidade.

Festa e álcool

No domingo, a PSP deteve no Cacém dois homens e uma mulher com idades entre os 20 e os 26 anos, por crime de desobediência às medidas impostas pelo surto de Covid-19.
"Pelas 19.00, os polícias depararam-se com uma festa na via pública, com cerca de 30 jovens em ajuntamento, em situação de desobediência ao dever geral de recolhimento domiciliário, e a consumir bebidas alcoólicas, tendo sido possível identificar e notificar cinco deles, para que se deslocassem para o seu domicílio", explicou a PSP.
Horas mais tarde, descreve a PSP em comunicado, "os mesmos polícias foram novamente accionados para uma ocorrência, da mesma índole e com o mesmo grupo de jovens, mas noutra localização". Quando viu a polícia a aproximar-se, o grupo bateu em retirada e dispersou, mas ainda se conseguiu apanhar um dos mesmos, "que já tinha sido notificado na festa das 19.00, pelo que foi detido por desobediência ao abrigo do previsto no Estado de Emergência".
Mas a noite não terminara ali. Mais tarde, a polícia viria a deparar-se com outra festa na rua, na qual foi possível deter outro dos suspeitos que tinham participados nos ajuntamentos anteriores. Desta vez, foi uma mulher, também pelo "crime de desobediência, uma vez que a mesma, além de ter sido notificada na primeira festa, às 19.00 do dia anterior, também se encontrava na segunda ocorrência, referente ao apedrejamento dos polícias", descreve a PSP.
Os polícias verificaram que se tratava do mesmo grupo de jovens das duas situações anteriores, mas desta vez, além de se colocarem em fuga, ainda arremessaram pedras da calçada contra os polícias, sendo possível interceptar e deter outro suspeito por tentativa de agressão aos polícias", concluiu a nota policial.

Cuspiu no militar e disse estar infectada

No passado domingo, a GNR foi chamada a um parque de estacionamento de um supermercado, em Budens, freguesia do concelho de Vila do Bispo, por causa de um casal que ali estaria envolvido em agressões físicas.
Munidos de luvas e máscaras, quando lá chegaram, os militares depararam com uma mulher ferida na cara, um homem estendido no chão e um outro homem de pé, encostado a uma auto-caravana. Segundo contaram fontes locais da GNR, a mulher estava exaltada, a gritar e os guardas pediram para que se acalmasse e mantivesse uma distância de segurança de dois metros, por causa do Covid-19.
Mas esta, dirigindo-se em passos apressados aos militares, entre ofensas, "gritava que estava infectada com o coronavírus", segundo a GNR, cuspindo-lhes na cara e agredindo um deles. Entretanto, o homem que estava no chão levantou-se e tentou impedir a detenção da mulher.
Os polícias só conseguiram detê-la quando chegaram mais guardas da GNR de Lagos e do posto territorial de Vila do Bispo, entretanto mobilizados para o local. O homem foi também detido. Tinham canábis na sua posse.
Quatro militares estão em isolamento - três deles no próprio posto, em Vila do Bispo - e deveriam ser sujeitos a testes para o Covid-19. Os detidos foram colocados em liberdade.

Infectado ia às compras e ao café

A história foi contada pelo JN de segunda-feira. Um homem de 43 anos residente em Aver-o-Mar, na Póvoa de Varzim, operário da construção civil imigrado em França, está infectado com Covid-19 e saía de casa para ir às compras. Estava em casa com a mãe, de 70 anos. Fez o teste no Hospital de São João, no Porto, e, como tinha sintomatologia ligeira, foi mandado para casa em isolamento.
Os problemas começaram porque as autoridades de saúde nunca mais conseguiram falar com o homem. A PSP foi enviada à sua casa, mas a mãe dizia sempre "que tinha saído e não sabia para onde". A polícia falou com a vizinhança e ficou a saber que ele passava os dias na rua, no café, na padaria, em passeios pela freguesia. Ninguém sabia que estava infectado.
A PSP fez uma espera junto à casa do homem. Consciente da gravidade da situação, no passado domingo, à hora do almoço, a PSP montou um cerco junto à casa dele e acabou por o apanhar.
Alegou aos agentes que não tinha sintomas e confirmou que, desde que fez o teste, tem andado na rua, não cumpriu o isolamento, nem utilizou quaisquer equipamentos de protecção. Sem saber que o filho estava infectado, a mãe, que vive com ele, nunca foi testada nem tomou quaisquer medidas de protecção.
O indivíduo foi conduzido a casa, foi-lhe passada uma contra-ordenação e avisado do dever de isolamento total a que está sujeito, até que volte a ser submetido a novo teste, o que deverá acontecer já nos próximos dias.

Churrascada interrompida

Este incidente, já contado pelo DN, teve consequências graves - um militar da GNR ficou ferido ao levar com uma garrafa na cabeça, de um dos participantes no churrasco que esta força de segurança foi interromper no Carvoeiro, concelho de Lagoa.
Segundo o comando da GNR de Faro, o incidente aconteceu perto das 20.30, do passado dia 28 de Março. A GNR tinha sido alertada para uma festa ruidosa que se estava a realizar. Quando os militares chegaram, depararam com um grupo de pessoas à volta de um churrasco.
Quando se dirigiram ao grupo, um dos dois militares da patrulha foi agredido com uma garrafa de cerveja. A patrulha foi reforçada e foram detidos dois homens de 22 e 44 anos, pai e filho. Os dois detidos acabaram por ser libertados, com termo de identidade e residência, e ficaram obrigados a comparecer no Tribunal de Silves, tendo o caso baixado a inquérito no Tribunal de Portimão.
O militar sofreu ferimentos ligeiros e foi transportado de ambulância para o hospital. Partilhou na sua página do Facebook fotografias com o rosto a sangrar e deixou o seu testemunho na primeira pessoa:
"É este o agradecimento e respeito que os cidadãos têm para com a autoridade. De salientar que foi uma situação com um grupo de indivíduos, que não vale pena revelar a nacionalidade, para não causar ódio, que, mesmo sabendo do estado de emergência e de todos os deveres e cuidados que devemos ter para com a pandemia que o mundo está a viver, e que ninguém imaginava passar, mesmo assim estariam a fazer uma festa em família, como se nada de anormal estivesse a acontecer."
"Levo aqui quatro pontos e uma marca para a vida. Felizmente, não tenho mulher nem filhos, mas e se tivesse, como seria chegar a casa e verem o pai ou o marido nesta situação", escreveu o militar.

 

 

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