Reportagem

Covid-19: Ensino universitário em tempos de isolamento

Desde 24 de Março, altura em que as aulas no Ensino Superior ficaram suspensas, que Márcia Gaspar viu a sua rotina alterada. Matriculada no segundo ano do curso de Contabilidade e Auditoria na Universidade Independente de Angola (UNIA), a estudante levantava-se às 5h30, tomava o pequeno-almoço e partia da Centralidade do Kilamba, onde reside, para o Morro Bento, onde se localiza a UNIA.

06/04/2020  Última atualização 12H08
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Mas tudo mudou. Hoje, levanta-se às 9h00, abre o seu WhatsApp e passa as manhãs a ler as matérias enviadas pelos professores e a abordar o conteúdo com os colegas. Apesar da interrupção das aulas presenciais, no âmbito da prevenção contra a Covid-19, o Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação recomenda que os estudantes devem realizar trabalhos académicos determinados pelas instituições de ensino superior. E tudo aponta para que o referido período de suspensão seja prorrogado por mais tempo, atendendo à evolução da pandemia no país.

Enquanto tudo parece incerto, milhares de estudantes e docentes universitários, que as medidas de combate à pandemia do novo coronavírus manter-se em casa, aproveitam o online, o universo em que operam agora. É isso que faz Adalberto Lenoque, jurista e professor de Direito Penal, entre outras disciplinas, na Universidade Lusíada de Angola (ULA), interage todos os dias nas redes sociais com os seus estudantes, depois de orientar trabalhos e disponibilizar os sumários.

Num grupo criado para o efeito no WhatsApp, o docente avalia as respostas às questões que coloca aos estudantes.
Na Universidade Católica de Angola (UCAN), Fortunato Paixão, professor de Direito do Trabalho, não está muito distante da rotina de Adalberto Lenoque: usa as mesmas ferramentas e avalia sempre que pode. A partir de casa, é capaz de estar em videoconferência para explicar o conteúdo que se apresenta mais complexo para os seus estudantes do segundo ano.

Propinas

Contudo, a suspensão das aulas poderá estender-se por todo mês de Abril. E lá para frente tudo parece incerto. É que, enquanto Angola começa a divulgar os seus primeiros casos da Covid-19, aponta-se Junho como o mês em que o país deverá atingir o pico da expansão da doença. Logo, a questão do pagamento das propinas paira no ar. Se tudo parecia pacífico em Março, o mesmo já não se pode dizer de Abril em diante. Questionado sobre o assunto, o ministro da Administração do Território, Adão de Almeida, em conferência de imprensa, remeteu para o Ministério de tutela a clarificação, em documento próprio, sobre o pagamento das propinas no ensino superior.
O docente Fortunato Paixão não tem dúvidas: se a suspensão continuar em Abril e nos meses seguintes, as aulas e as avaliações devem permanecer nas ferramentas electrónicas para não prejudicar os estudantes e manter a contrapartida (jurídica) que legitime a cobrança das propinas.
“Se a situação se estender, temos de garantir que os alunos não são prejudicados e que os conteúdos são dados na mesma", diz.
É por isso mesmo que muitas universidades privadas, além de disponibilizar livros electrónicos aos estudantes, enviaram os referidos IBAN para o pagamento das propinas, numa altura em que se aguarda por uma definição do Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação.
Contudo, estando num curso com elevada prática, Márcia Gaspar, espera que, se todo o primeiro semestre ficar em casa, "as eventuais falhas formativas sejam colmatadas no futuro”, já em regime presencial, e que a avaliação contínua que se faz agora seja relevante no final do semestre.

UAN sem trabalhos à distância

Enquanto os professores das instituições de ensino superior privadas ocupam os estudantes com leitura orientada e trabalhos práticos, as universidades públicas apresentam-se com dificuldades para a continuação da formação. O Jornal de Angola contactou vários responsáveis de instituições públicas que revelaram a paralisação completa dos trabalhos, mesmo à distância. O que complica o aproveitamento dos estudantes se a suspensão se prolongar por alguns meses. 

O director para a Área de Informação Científica e Documentação da UAN, Arlindo Isabel, revelou ao Jornal de Angola que está literalmente tudo parado. "Discutimos a questão logo no início, para que houvesse continuação dos trabalhos, tanto dos estudantes, quanto dos docentes em casa, mas não foi possível", avisa, para depois esclarecer que estiveram na base a falta de ferramentas electrónicas da parte dos estudantes e, até mesmo, de alguns poucos docentes.

"Lamento que estejamos todos parados. Precisamos de ultrapassar essas deficiências, quer em infra-estruturas, quer no domínio em lidar com as novas tecnologias". Arlindo Isabel, que tem uma filha a estudar na China, em Jilin, conta que lá os trabalhos dos estudantes não pararam. Mesmo no pior cenário da crise da Covid-19 naquele país asiático, quando a filha se deslocou para Guangzhou, a fim de estar em casa de pessoas amigas, manteve contacto com os professores e colegas, para continuar os estudos.
"Para a nossa realidade, o uso das novas tecnologias no contexto universitário é ainda muito fraco. Mas há algumas iniciativas, docentes que vão enviando informações por via dos e-mails institucionais e grupos de WhatsApp criados pelas turmas. Infelizmente, mal o ano lectivo começou, surge esta pandemia da Covid- 19", diz Tiago Quissua Armando, docente da Faculdade de Ciências Humanas da UCAN.
Autor da obra "Introdução à Metodologia de Investigação Científica", o psicólogo clínico diz, contudo, que os estudantes devem exigir matérias aos professores, que devem ser proactivos e ler bastante, seguindo os programas deixados.
"Não fiquem distraídos nas redes sociais", aconselha os estudantes. "Aos meus alunos e alguns amigos, tenho feito sugestão de leitura nas redes sociais e deixo também algumas dicas de como é que se pode aprender uma língua durante o isolamento social", diz, tudo para aproveitar o tempo.
O psicólogo escolar Chocolate Brás, docente da UNIA e do Instituto Superior Politécnico Metropolitano de Angola (IMETRO), junta-se a Arlindo Isabel e também lamenta a paralisação de todos os trabalhos nas universidades públicas.
"A orientação do Ministério do Ensino Superior é clara: devemos continuar os estudos mesmo à distância", diz o mestre em Ciências da Educação, que, durante este período, disponibilizou livros electrónicos aos seus estudantes, criou turmas em várias plataformas digitais e orienta prazo para leitura e resumo das obras fundamentais, além de exigir resolução de casos práticos para avaliação.
Autor da obra "O papel da escola na formação para a cidadania em Angola", Chocolate Brás lembra que ao nível dos gestores das instituições do ensino superior a recomendação do Ministério de tutela foi compreendida, mas a execução está a falhar nas cadeias inferiores. E aponta as dificuldades de acesso à Internet como um dos factores. Por isso, sugere que seja garantido o seu consumo de forma gratuito, enquanto durar esse período de combate à pandemia.

Estudantes revelam experiências dos estudos  à distância

Com a suspensão das aulas nas instituições de ensino superior, algumas universidades não cruzaram os braços e adoptaram o sistema de ensino à distância, quer por e-mail, quer por via das redes sociais, com o envio de matérias e trabalhos académicos. Alguns estudantes contactados pelo Jornal de Angola confirmaram o facto e contaram a sua experiência. É o caso da jovem Jacira Januário, estudante do segundo ano no IMETRO, inscrita no curso de Direito, que confirmou a mudança na sua rotina de estudo matinal.

"Na semana passada recebi por e-mail matérias das disciplinas como Direito Constitucional, Direito Financeiro, Teoria Geral do Direito e Direito Internacional", revelou a estudante, que pretende ser procuradora quando concluir a formação. Para Jacira Januário, não está a ser fácil estudar à distância, já que está habituada a sentar-se numa sala de aulas e a ouvir as explicações dos professores.

A estudante diz que, ainda assim, com o empenho e ajuda dos professores tem sido possível tirar algumas dúvidas e tem alcançado algum sucesso. Jacira Januário conta ainda que, como alternativa, foi criado um grupo na rede social WhatsApp em que estão inseridos os colegas de turma, o que tem servido de interacção e esclarecimento de dúvidas. Kátia Miranda é estudante de Enfermagem no Instituto Superior Politécnico Internacional de Angola (ISIA) e explica que, apesar de estar em casa, em isolamento social, por conta da Covid-19, alguns docentes já enviaram matérias para ler em casa, como é o caso dos professores das disciplinas de Anatomia, Língua Portuguesa e Bioquímica.

"Aproveito sempre as horas mais calmas, sobretudo à noite, quando todos já estão a dormir, para ler, interpretar e fazer alguns resumos. A meta é tentar entender as matérias, apesar de não ter um professor presencial, para quando regressarmos às aulas tirar as dúvidas", precisou Kátia Miranda. Ela confessa estar a fazer um esforço para obter o material via Internet, já que nem sempre tem saldo de dados para descarregar os conteúdos.

Já Paulo Lourenço, estudante do 5º ano do curso de Direito, na especialidade jurídico-forense, na Universidade Jean Piaget, realçou que, desde que as aulas estão suspensas, não foram notificados com o envio de matérias para estudarem a partir de casa. Mas, por ser finalista, continua a realizar os seus estudos à distância. Acrescentou que pretende terminar o ano lectivo com êxito. "É um sacrifício que valerá muito para minha vida enquanto funcionário público e pai de família", rematou.No Instituto Superior Politécnico Alvorecer da Juventude (ISPAJ), apesar da suspensão das aulas presenciais, os alunos continuam a estudar em casa, conforme conta Cinthya Fernandes, estudante do segundo ano do curso Cardiopneumologia.

Em declarações ao Jornal de Angola, a estudante revela que foi criado um grupo no WhatsApp, onde estão inseridos todos os colegas da turma e os professores. No espaço virtual, estão a ser enviadas todas as matérias no formato PDF e os alunos podem também tirar dúvidas. "Não é fácil, porque nas redes sociais há muita distracção. Tento ao máximo concentrar-me nos estudos uma vez que as provas se avizinham", referiu Cinthya Fernandes.

 

 

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