Opinião

Covid-19 e economia

Luciano Rocha

Jornalista

A pandemia mundial, além de continuar a matar, ressalta a desumanização ostensiva, atingindo proporções, designadamente em países tidos como evoluídos que, por isso mesmo, deviam ser exemplos a seguir, mas são exactamente o oposto.

22/07/2021  Última atualização 04H00
Os exemplos, mais do que muitos, espalham-se à velocidade da luz, não apenas pelas redes sociais - abastardada pelos adulteradores dos princípios que lhes estão na génese - chegam-nos ao instante, cada vez menos surpreendentes, mas, ainda assim, causadores de indignação e náuseas.

A importância da economia, da dependência dela, tem servido de justificação para as mais diferentes atrocidades contra o ser humano, cada vez menos tido em conta, em nome do "progresso selvagem”, do qual se serve para "equilibrar orçamentos” e prosseguir fins eleitoralistas. As vítimas continuam a ser os mais frágeis: crianças e idosos. Que deviam ser os mais protegidos.

No primeiro caso, por serem o futuro de qualquer país minimamente estruturado; no segundo, pela experiência acumulada e pelo que já deram, quando as novas tecnologias não passavam de "ficção científica”. A estes dois grupos juntam-se desempregados e a chamada mão-de-obra desqualificada. Em qualquer destas últimas circunstâncias, pergunta-se: por quê?

Os arautos do "progresso selvagem” - há quem lhe chame, entre outras coisas, liberalismo, incentivo ao investimento - até se servem da pandemia, que assola o mundo, como já o fizeram noutras alturas  e hão de continuar a fazê-lo se, entretanto, também eles, não forem apanhados nas teias que eles próprios engendram.

A desvalorização do ser humano - mulheres e homens, jovens e velhos, inclusive crianças - pelos cultores "progresso” sem regras, como a de "usar e deitar fora”, têm, igualmente, por divisa "ouve o que digo, não olhes ao que faço”. Acenam com a bandeira do ambiente, mas poluem o ar, oceanos e rios, devastam florestas e todos espaços verdes, dizimam a fauna terrestre e marinha. O progresso deles é a nossa desgraça.

As diferenças que separam os países nos quais impera o "progresso selvagem” e aqueles, onde o ser humano e a natureza são as maiores riquezas e como tal  tratados é enorme. Veja-se o caso Finlândia, com 338.440 quilómetros e, aproximadamente, 5,5 milhões de habitantes.

Os habitantes daquele país nórdico,  que têm nos serviços a maior fonte de receita - revela um inquérito internacional - são os  mais felizes da Europa.  Vivem o presente, sem preocupações com o futuro, a todos os níveis, a exemplo do que lhes sucedeu na infância e juventude. O que mais apreciam é o silêncio. Curiosamente, ou talvez não, cerca de um terço do território, de, aproximadamente, 338.440 quilómetros quadrados, é floresta.

A Finlândia é assim por haver quem trabalhe, para preparar a vida dos que vão nascer, dar os primeiros passos, descobre a vida, aprende a ler e  a escrever, estuda, adquire uma profissão, trabalha, eventualmente está desempregado, diverte-se, saboreia merecidamente o fim da vida.

A Finlândia não tem capítulos de sobressaltos gravados na sua História? Claro que tem, mas soube ultrapassá-los para ser agora uma república estabilizada e respeitada, sem grandes fontes naturais de rendimento. Mas tem os habitantes mais felizes da Europa, sem precisar de poluir a atmosfera, nem imiscuir-se em assuntos alheios.

Nações há que, com mais fontes de rendimento, voz activa em grandes centros de decisão, algumas até a arvorarem-se em donos da verdade, não conseguem ter uma população como a da Finlândia. Porventura, por colocarem, a qualquer custo, o "progresso selvagem” acima do ser humano. Como aquela ignóbil criatura ligada a um governo europeu que, ao defender a importância do desenvolvimento económico na actual situação da Covid-19, ao aumento das infecções e à falta de vacinas, disse que deviam ser preteridas as pessoas acima dos 80 anos.
O desenvolvimento económico tem regras, não pode ser conseguido a qualquer custo.

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