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Covid-19: Bairros sociais podem propiciar contágio em Portugal

As cadeiras de plástico à porta do prédio da Rua 25 de Abril do Vale de Chicharros, mais conhecida como Bairro da Jamaica, na freguesia da Amora (Seixal), não escondem a intenção. A vida de quem aqui vive não é só passada por dentro do esqueleto do prédio com os tijolos à mostra. Também se vive na rua, juntos. E o que é pior, em plena pandemia de Covid-19: isolamento num apartamento, onde faltam condições de habitabilidade e onde vivem famílias numerosas, ou em ar livre partilhado com os vizinhos?

28/05/2020  Última atualização 10H50
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“O bairro da Jamaica é uma habitação muito precária e perigosa. Nós temos acompanhado várias comunidades e sabemos que esta população corre um risco superior aos demais, por causa das condições em que vivem”, diz Rita Silva, dirigente da associação Habita.

Neste bairro, vivem cerca de 150 famílias que continuam à espera de realojamento (processo que deverá durar até 2022). Entretanto, 16 pessoas estão infectadas com o novo coronavírus, anunciou a directora-geral da Saúde, durante o ponto da situação diário sobre a Covid-19 no país, na terça-feira. É um dos "três pequenos focos comunitários", todos localizados na zona de Almada-Seixal, apresentados por Graça Freitas, como uma das justificações dos resultados epi- demiológicos da região de Lisboa e Vale do Tejo.

Nas últimas 24 horas (segunda para terça), a Direcção-Geral da Saúde (DGS) notificou um aumento de 219 casos de Covid-19 no país. 209 destes com residência na região da Grande Lisboa. Ou seja, só dez pertencem a outras zonas de Portugal. A região tem agora no total 9778 casos e 325 óbitos. "A situação é complexa, está sob observação, mas também está sob medidas de controlo muito apertadas", garantiu ainda a responsável pela DGS.

Aumentos (18%) na Grande Lisboa

A aceleração do contágio na Grande Lisboa abrange "bairros sociais", no plural, embora Graça Freitas apenas tenha confirmado o nome de um: o Bairro da Jamaica. Também o delegado de saúde da Administração Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e Vale do Tejo admitiu, em entrevista ao DN, que os bairros sociais e de lata de Lisboa e arredores começam a ser fontes de transmissão preocupantes.

"Nós começámos com pessoas com nomes compridos, que vinham dos Alpes Franceses e do Carnaval de Veneza e agora está a chegar aos nomes curtos. (A Covid-19) está a levar o caminho que todas as doenças levam: ir para cima dos pobres", refere Mário Durval.

Na zona da Grande Lisboa, há mais de dez bairros de lata. Enquanto se repete o pedido de reforço das medidas de higiene em tempo de pandemia, como a lavagem das mãos ou a desinfecção de superfícies, há quem viva sem água e sem luz. Quem chame casa a uma colagem de contraplacado e cartão? A pobreza "é o principal factor de risco para todas as doenças, incluindo esta", aponta o delegado de saúde regional.

E uma vez dentro do bairro, a propagação da doença entre os outros habitantes fica facilitada, devido à proximidade entre as pessoas.
“Quando uma pessoa apanha é muito difícil não contagiar o resto da família, porque estas pessoas que vivem em minorias étnicas vivem quase sempre com a família alargada: avós, pais, filhos, netos. E isto até coloca mais em perigo os mais velhos (as principais vítimas da Covid-19)”, diz a dirigente da Habita.

"Antes da crise da pandemia já havia uma crise de habitação. A pandemia veio colocar de forma mais flagrante, em todos os sectores da sociedade, as desigualdades pré-existentes", acrescenta Rita Silva, que pede ao Governo que tome medidas específicas de protecção a esta população.

Quanto ao trabalho das autoridades de saúde, o delegado regional não hesita: é igual para todos. "Encontramos um caso, fazemos um cerco à volta. Tanto faz esse caso ser nas Avenidas Novas como na Almirante Reis", explica.

Mais coordenação

O DN contactou as duas autarquias (Seixal e Almada) que pertencem ao agrupamento de centros de saúde mencionado pela directora-geral da Saúde como a localização dos três novos focos. A Câmara Municipal do Seixal lamenta que, apesar de ter pedido à Unidade de Saúde Pública de Almada e Seixal informação sobre a origem dos novos casos, esta ainda não tenha sido entregue "às instituições que estão na linha da frente e que depois seja conhecida através da comunicação social".

Assim, a autarquia refere, em comunicado, que "solicitou com urgência uma reunião à ministra da Saúde e à Unidade de Saúde Pública" para abordar este assunto, garantindo que está a tomar todas as medidas necessárias para proteger a população. E que, no caso do Bairro da Jamaica, foram distribuídas máscaras a todos os habitantes e feitas acções de sensibilização, em conjunto com a PSP, para pedir aos moradores que respeitem o distanciamento social.

A câmara refere ainda que dos 18 concelhos da Área Metropolitana de Lisboa, "o Seixal é o 13º em número de infectados, com 322 casos confirmados (19,30 por 10.000 habitantes)", menos de metade do que o concelho de Lisboa. "O mesmo ocorre na Península de Setúbal, onde nos concelhos do Barreiro e Almada existem 207 e 352 casos confirmados e onde o número de contaminados por 10.000 habitantes é superior, 27,45 e 20,83, respectivamente", apontam.

Incidente com angolanos

Em Janeiro do ano passado, um incidente envolveu moradores angolanos do bairro da Jamaica, no concelho do Seixal, em Lisboa, e a polícia, tendo esta sido acusada de violência e até de racismo.

Na sequência desses acontecimentos, realizou-se uma manifestação em Lisboa, na zona da Avenida da Liberdade, em que se registaram novos incidentes entre manifestantes e polícias, tendo a actuação destes voltado a merecer críticas.

Depois dos eventos de 20 de Janeiro, entre agentes da PSP e moradores, que levaram a uma detenção e a acusações de racismo e excesso do uso da força por parte dos polícias, os habitantes do Jamaica foram surpreendidos, no dia 4 de Fevereiro, por volta das 12 horas, pela visita ao bairro (Jamaica) do Presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, que assim cumpriu o que tinha admitido na altura dos incidentes: mais dia, menos dia, iria visitar o Jamaica.
De acordo com a imprensa local, durante o tempo que permaneceu na Jamaica, Marcelo Rebelo de Sousa deu abraços e beijos, tirou selfies, foi ao café e pagou bebidas a quem por lá estava - ele bebeu água - e entrou em algumas casas. O Presidente conversou com pessoas envolvidas no incidente com a PSP.

As últimas 24 horas

Portugal registou ontem 1.356 mortes relacionadas com a Covid-19, mais 14 do que na terça-feira, e 31.292 infectados, mais 285, segundo o boletim epidemiológico divulgado pela Direcção-Geral da Saúde (DGS).

Em comparação com os dados de terça-feira, em que se registavam 1.342 mortos, ontem constatou-se um aumento de óbitos de 1%. Relativamente ao número de casos confirmados de infecção (31.292), os dados da DGS revelam que há mais 285 casos do que na terça-feira (31.007), representando uma subida de 0,9%.

A região Norte é a que regista o maior número de mortos (755), seguida da região de Lisboa e Vale do Tejo (335), do Centro (235), do Algarve (15), dos Açores (15) e do Alentejo, que contam um óbito, adianta o relatório da situação epidemiológica, mantendo-se a Região Autónoma da Madeira sem registo de óbitos.

Segundo os dados da DGS, 692 vítimas mortais são mulheres e 664 são homens. Das mortes, 912 tinham mais de 80 anos, 265 tinham entre os 70 e os 79 anos, 121 tinham entre os 60 e 69 anos, 42 entre 50 e 59, 15 entre os 40 e os 49 e um dos doentes tinha entre 20 e 29 anos
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A caracterização clínica dos casos confirmados indica que 510 doentes estão internados em hospitais, menos três do que na terça-feira (-0,6%), e 66 71 estão em Unidades de Cuidados Intensivos, menos cinco (-7,1%). A recuperar em casa estão 11.077 pessoas.

Os dados da DGS precisam que o concelho de Lisboa é o que regista o maior número de casos de infecção pelo novo coronavírus (2.254, seguido por Vila Nova de Gaia (1.553), Porto (1.349), Matosinhos (1.275), Braga (1.213) e Gondomar (1.079). Desde o dia 1 de Janeiro, registaram-se 316.364 casos suspeitos, dos quais 1.886 aguardam resultado dos testes.

Há 283.186 casos em que o resultado dos testes foi negativo, refere a DGS, adiantando que o número de doentes recuperados subiu para 18.349 (mais 253). A região Norte continua a registar o maior número de infecções, totalizando 16.703, seguida pela região de Lisboa e Vale do Tejo, com 10.055, da região Centro, com 3.690, do Algarve (363) e do Alentejo (256).

Os Açores registam 135 casos e a Madeira conta 90 confirmados, de acordo com o boletim hoje divulgado. A DGS regista também 27.141 contactos em vigilância pelas autoridades de saúde. Do total de infectados, 18.036 são mulheres e 13.256 são homens. A faixa etária mais afectada pela doença é a dos 40 aos 49 anos (5.265), seguida da faixa dos 50 aos 59 anos (5.212) e das pessoas com mais de 80 anos (4.460).

Há ainda 4.679 doentes com idades entre 30 e 39 anos, 4.049 entre os 20 e os 29 anos, 3.463 entre os 60 e 69 anos e 2.520 com idades entre 70 e 79 anos. A DGS regista igualmente 607 casos de crianças até aos nove anos e 1.037 jovens com idades entre os 10 e os 19 anos.

Mostram que 40% dos doentes positivos ao novo coronavírus apresentam como sintomas tosse, 29% febre, 21% dores musculares, 20% cefaleia, 15% fraqueza generalizada e 12% dificuldade respiratória. Esta informação refere-se a 91% dos casos confirmados.

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