Economia

Corredor do Peu-Peu com resultados limitados apesar da abundância de água

Domingos Calucipa | Ondjiva

Jornalista

A exploração de terras irrigadas da margem esquerda do rio Cunene, no Corredor Peu-Peu-Chivenda, em Ombadja, está longe dos níveis desejados por dificuldades de grande parte dos produtores, causadas pelos elevados custos de produção e o fraco incentivo à actividade, apurou o Jornal de Angola.

25/09/2022  Última atualização 08H13
Vastas oportunidades de irrigação que incluem a odopção de modernos meios técnicos são insuficientes para corresponder às aspirações dos produtores © Fotografia por: Domingos Calucipa | Edições Novembro

Servidas pelo grande caudal do rio Cunene, as terras agricultáveis, que se estendem por 60 quilómetros,  da vila de Xangongo à Chivemba, passando pelo Peu-Peu, encontram-se ociosas por dificuldades dos seus proprietários, que se queixam da falta de apoios financeiros e de políticas por parte dos órgãos que lideram o aproveitamento do perímetro de elevado potencial agrícola. 

O corredor tem registadas cinco fazendas, mas apenas duas se distinguem, nomeadamente, a Chivemba, que se dedica  ao cultivo de milho e criação de gado, e a Sapalo, que produz tomate.

As fazendas Santa Natureza e Ya-Ya têm se destacado na produção de hortaliças e frutas, enquanto a Katumbo II está inactiva há já alguns anos, de acordo com um responsável da Direcção Municipal da Agricultura de Ombadja, Aurélio Chiculo

Naquele corredor, segundo o responsável, estão ainda registados 30 associações e  cooperativas, ainda em vias de legalização, que têm estado a fornecer de forma precária os mercados locais em hortícolas como cebola, repolho, tomate, cenoura, couve e alface.

Angélica Alves, presidente da Associação Feminina Agrícola Santa Natureza, baseada na localidade de Peu-Peu, disse que a grande dificuldade que grande parte dos produtores daquele perímetro enfrentam é a ausência de incentivos capazes de potenciar as iniciativas dos produtores.

Assinalou que a associação, constituída por 18 membros, foi formada há cinco anos, trabalhando numa fazenda de cerca de 80 hectares que já existe há mais de 60 anos. "Aqui produzimos várias hortaliças como tomate, cebola, alface, pimento, repolho e mais, que depois vendemos nos mercados e a clientes que procuram por nós”, disse.

Segundo a responsável, as dificuldades impedem que muitos produtores elevem as apostas e o investimento, o que inclui o facto de as operações ocorrerem de forma manual, sem mecanização.

Na associação em que lidera, há muito que os trabalhos de desbravamento de terra, lavouras e sementeiras são feitos à mão por falta de máquinas agrícolas, o que impede alargar o espaço cultivado de três para 20 hectares.

Outra preocupação dos produtores associados é a fraca sustentabilidade do uso de motobombas no regadio, devido aos elevados custos com os combustíveis e avarias constantes.

Alguns apoios em insumos têm sido dados por doadores internacionais de fundos como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) às cooperativas e associações, nomeadamente, sementes, adubos, insecticidas, enxadas e catanas, o que tem ajudado os produtores, segundo a responsável da Fazenda Santa Natureza.

 

Mais atenção ao pequeno produtor

Aurélio Chiculo, um responsável da Direcção Municipal da Agricultura de Ombadja, reconhece a necessidade da elevação do apoio aos pequenos produtores implantados no corredor Peu-Peu-Chivemba, por serem os que dominam o abastecimento dos mercados da província em produtos do campo.

Esta fonte estima que os pequenos produtores chegam, muitas das vezes, a produzir mais do que as fazendas, sobretudo, os organizados em associações e cooperativas que,  uma vez potenciados, podem elevar a produção. "São estes que, normalmente, inundam os nossos mercados, principalmente, com produtos hortícolas”, disse, assinalando que a produção das grandes fazendas, sobretudo o grão, já tem clientes próprios fora da província do Cunene.

O responsável salientou que o apoio da Direcção Municipal da Agricultura tem sido dado principalmente a pequenos produtores, uma vez que os fazendeiros têm capital próprio. Esse auxílio, adiantou, tem sido mais técnico e em insumos agrícolas como sementes, acessórios para charruas, fertilizantes, insecticidas e enxadas, todos os anos.


Altos custos de produção são reflectidos nos preços

A nossa reportagem apurou que a dependência total da energia de grupos geradores e de motobombas para  movimentar máquinas e água para irrigação está a ser um dos grandes empecilhos para a massificação da actividade agrícola ao longo das margens do rio Cunene, particularmente na margem esquerda, onde está concentrada grande parte das fazendas produtivas.

Para o empresário José Ventura, da fazenda agro-pecuária Chivemba, urge uma aposta institucional mais significativa na extensão da rede eléctrica pública às zonas de produção, para se reduzir os custos em que incorrem os produtores no processo produtivo, que no final se reflectem grandemente nos preços de venda ao consumidor.

José Ventura disse que a Chivemba consome cerca de 30 mil litros de gasóleo por mês, com o uso de geradores de eléctricidade, o que corresponde a um gasto de 4,05 milhões de kwanzas.           

O empresário propõe a construção de uma linha da rede eléctrica pública, que pode ser estendida a partir da vila de Xangongo ou do Cafu, na central de bombagem de água do canal, onde há energia de sobra.

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