Opinião

Contribuições para uma futura política educativa, no actual contexto da globalização

Filipe Zau

Jornalista

De acordo com o PNUD, o conceito de desenvolvimento humano deverá corresponder ao reforço das potencialidades, através da aquisição de um sentido amplo de Educação, que não descore a formação, a informação e a cultura, nem o acesso ao meio ambiente, à alimentação, à habitação e à saúde.

14/07/2021  Última atualização 08H10
Posteriormente, espera-se, que os cidadãos venham a assegurar os resultados de um crescimento económico (condição indispensável para que o desenvolvimento ocorra), com melhoria das condições de vida dos cidadãos e com a participação activa dos mesmos em decisões relacionadas com as suas próprias vidas.

O Estado e a sociedade têm papéis amplos no fortalecimento e na protecção das capacidades humanas. Segundo Amartya Sen, ex-membro da presidência do Banco Mundial, galardoado com o Prémio Nobel de Economia em 1998, associado ao conceito de desenvolvimento está implícita a existência de um Estado de Direito Democrático, com participação activa da Sociedade Civil: "são papéis de sustentação, e não de entrega sob encomenda”, daqui que o dialogo permanente se torne imprescindível. Neste contexto, o sociólogo Hermano Carmo enumera 10 áreas fundamentais para uma Educação para o Desenvolvimento, sendo quatro de carácter transversal – "Mudança”, "Autonomia”, "Solidariedade” e "Democracia” – e seis de ordem específica – "Ambiente”, "População”, "Género”, "Cidadania Económica”, "Interculturalidade” e "Saúde”.

Fruto do desenvolvimento das TIC’s, vivemos hoje num mundo de rápidas transformações, que provocam choques culturais, não só, nas gerações mais idosas, mas, também, nas mais jovens, o que leva a que todas as pessoas tenham de aprender a se adaptarem à "Mudança” e a terem de aprender a geríla. A introdução do computador, por exemplo, provocou uma autêntica revolução em todos os sectores da actividade laboral. Os funcionários tiveram de se adaptar a este novo instrumento de trabalho e tiveram de saber tirar partido do mesmo, em diferentes situações que lhes passaram a ser exigidas. Também hoje, a juventude, mais cedo que antes, procura alcançar a sua própria "Autonomia” e, não poucas vezes, fora de valores morais, éticos e deontológicos, anteriormente adquiridos no contexto familiar e social, o que leva a que muitos jovens se isolem no seu individualismo, com todas as consequências que daí decorrem.

No âmbito da "Solidariedade”, os jovens têm de voltar a adquirir o sentido de empatia para com as crianças, adolescentes, adultos e idosos que integram as gerações vivas e têm de voltar a adquirir o sentido de alteridade, necessário à solidariedade para com as gerações futuras e para com os nossos antepassados. No primeiro caso, porque os nossos netos constituem o fundamento de desenvolvimento sustentado. No segundo caso, porque os nossos antepassados representam a defesa do património e a assunção da nossa História em todas as suas facetas positivas e negativas.

Mais do que antes, o relacionamento humano, apesar de mais competitivo, tende a ser cada vez menos autocrático e cada vez mais democrático, obrigando os cidadãos a terem de aprender competências comunicacionais indispensáveis ao exercício da "Democracia”. Para que se não viva em situação de exclusão social, é indispensável que os actuais e futuros cidadãos saibam ler, escrever, falar e escutar, ao mesmo tempo terão de aprender competências para o exercício da "democracia representativa” (escolher, respeitar e substituir representantes), e para o "exercício da democracia participativa” (preparar, tomar e executar decisões).

Para além das vertentes transversais acima referidas, o "Ambiente, do ponto de vista específico, é património comum da humanidade actual e futura, pelo que teremos de aprender a saber protegê-lo, para que possamos viver com qualidade de vida. No âmbito da "População”, não estando, por vezes, os jovens preparados para tomarem conta de si próprios, tornam-se incapazes de assumirem uma paternidade e uma maternidade responsáveis. A gravidez precoce apresenta-se como um sério problema social em Angola com reflexos negativos para com a equidade do "Género” e o crescimento da economia, já que as mulheres são consideradas como agentes estratégicos de democratização e de desenvolvimento.

A "Cidadania Económica” conduz-nos à necessidade de nos consciencializarmos que, para a nossa sobrevivência, temos de aprender para a produção, para a gestão de recursos, para a distribuição de bens e serviços e, também, para o consumo. Numa economia de mercado, temos de aprender a fazer as nossas próprias escolhas, priorizando o que é útil em relação ao que é fútil, independentemente de tudo aquilo que se publicita. Vivemos, por outro lado, num país caracterizado pela multiculturalidade e pelo plurilinguismo, pelo que se torna indispensável aprender a coexistir com a diferença. Independentemente da aprendizagem em prol da nossa própria "identidade cultural”, não podemos perder de vista o respeito pela "diversidade cultural” existente no nosso espaço nacional e planetário, num espírito aberto ao ecumenismo e à "Interculturalidade”.

Por fim, face aos elevados índices de mortalidade infantil, da necessidade de se melhorar a saúde materna e de se combater a malária, o HIV/SIDA, os contágios provocados pela COVID-19 e outras doenças provocadas sobretudo pela insuficiência de saneamento básico e pelo obscurantismo, há a necessidade de sermos educados para a "Saúde”. Para além da alimentação e da educação, a saúde é um componente determinante para o Desenvolvimento.
Se estas vertentes de formação contribuírem, de alguma forma, para fundamentar os eixos de força de uma política educativa para o nosso País, como resultado de um diálogo entre o Estado e a Sociedade Civil, sentir-me-ei necessariamente gratificado.

* Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

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