Cultura

“Continuamos a ser poucos a fazer géneros tradicionais por termos mercado fechado”

Manuel Albano

Jornalista

Dos registos memoráveis na infância vivida entre a educação recebida de berço pelos progenitores e demais parentes, o cantor e compositor Mito Gaspar revelou em entrevista ao Jornal de Angola que encontrou na música a forma de poder exprimir e dar a conhecer a sua matriz cultural, vivida entre a educação rígida dos progenitores, na qual transformou a música num exercício de continuidade das raízes de Katenda, Sukeco, Kalandula e Cacuso. Para si, a música na sua vida é um factor existencial e não comercial.

02/12/2022  Última atualização 08H00
Mito Gaspar regressa para a sua terra natal e diz nunca ter sido um homem das grandes cidades © Fotografia por: DR

No meio rural, Mito Gaspar recorda que os cantos e provérbios estavam sempre presentes, o mesmo acontecia nas cerimónias fúnebres, as colheitas, as caçadas, as brincadeiras à volta da fogueira, na qual era transmitida a sabedoria popular. "Tudo aquilo era motivo de festejos, acompanhado com cântico, batuques e histórias”, lembra.

Poucos sabem que na década de 1980, Mito Gaspar foi detido e investigado pelo sistema do antigo partido único vigente no país, por ter feito uma errada interpretação de um tema seu, na qual musicalizou o poema "Renúncia Impossível”, do primeiro Presidente de Angola, Agostinho Neto, em língua nacional kimbundu, depois de uma actuação na Cidade Alta.

Na época, ressalta, existia entre a plateia um "iluminado” que entendeu interpretar a letra na sua perspectiva, pensando que estava a usar uma linguagem agressiva contra o regime. "O homem interpretou à sua maneira a tradução de um poema que musicalizei da autoria de Agostinho Neto, retirado da obra‘Renúncia Impossível’, que naturalmente, não poderia ser usada uma linguagem literal.”

O músico explicou que procurou analisar o espírito e o sentimento exteriorizado pelo Poeta Maior, na época. Foi ao âmago do sentimento de um homem que, simplesmente, renuncia a vida e perdeu a confiança dos homens. "Foi simplesmente o que cantei, mas infelizmente fui mal  interpretado”, recorda.

Mito Gaspar recorda que tudo aconteceu no Futungo de Belas. Posto em liberdade, disse, passou a temer pela vida e nesta época já gozava de uma certa simpatia de algumas figuras políticas e religiosas com influências como o falecido escritore deputado Mendes de Carvalho, o Cardeal Dom Alexandre do Nascimento e o escritor e antigo Presidente da Assembleia Nacional Roberto de Almeida que o acolheram e asseguraram que iriam reverter a situação de modo a minimizar os receios que temia pela sua sobrevivência.

Mito Gaspar revela que as razões pelas quais o fizeram regressar para a sua terra natal podem ser múltiplas, mas apega-se no facto de que nunca ter sidoum homem das grandes cidades, no entanto, entendeu que a permanência em Luanda resultaria somente pela construção de uma trajectória artística no mundo da música. "Havia o problema da inserção ao meu meio linguístico e sociocultural que prezo muito e faço questão de manter vivo.”

Um das maiores referências da música tradicional revela que na capital do país havia poucas possibilidades de conseguir manter no activo os seus costumes. "Não me revia ficar a falar português todo o tempo, uns porque se sentem diminuídos, outros, porque se quer conhecem e dominavam as línguas nacionais, poucas eram as oportunidades, mesmo no meio artístico, nas quais me poderia comunicar na minha língua materna, manter viva os costumes do meu povo”.

Por outro lado, Mito Gaspar conclui que já não tinha nada por conquistar em Luanda e preferiu não ser mais um, daí,ter decidido enveredar para o empreendedorismo, coisa que sempre quis fazer. "Sempre tive uma paixão para o turismo e a hotelaria. A capital não me oferecia as condições, razão pela qual, regressei para Malanje, província que melhores condições tem pelos seus recursos naturais e paisagísticos  para a implementação de projectos no ramo do turismo”.

No cume da carreira

No auge da carreira, Mito Gaspar toma a decisão de fazer algo mais para além da música. Quando tinha acabado de fazer sair o terceiro disco "Pambuya Njila”, em 2005, decidiu regressar para a terra dos ancestrais e de lá, criar um projecto de sustentação para o futuro, quando sentir já não existir força suficiente para continuar a deixar o legado na música. "Procurei desenvolver uma actividade na qual pudesse viver com alguma dignidade, porque da música não é possível, pelo menos, no estilo de música que faço”, admitiu.

O que para muitos poderia parecer um caminho inverso, Mito Gaspar deu uma resposta vitoriosa a todos aqueles que duvidavam do seu sucesso no campo empresarial. Contrariamente àquilo que muitos colegas das artes fazem, Mito Gaspar referiu que preferiu fazer diferente. "Depois de tudo conquistado na música, não tinha mais nada para aprender em Luanda, por isso, não tive receio do fracasso quando decidi regressar para as minhas origens”.

O seu conceito de vida rural, contacto com a natureza, sublinhou, não se enquadrava com as grandes cidades, muito menos, o seu género musical. Luanda, reconheceu oferece condições de trabalho melhores que as demais províncias. Quanto muito, disse, são as questões técnicas, os estúdios, as possibilidades de encontrar mais músicos para as parcerias, mais oferta para a produção musical que levam os artistas a fixarem residência em Luanda. "Continuamos a ser poucos a fazer géneros musicais tradicionais por causa da pouca oferta e ser ainda um mercado fechado em Luanda, diferente em outros cenários do país.”

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Para Mito Gaspar é indiferente como gostaria de ser lembrado: "Não me preocupo com isso. Aliás, nunca me passou pela mente. Penso que tudo que as pessoas podem saber sobre mim, está presente nas minhas obras. Procuro deixar um legado musical com alguma verticalidade, que privilegia trazer para o conhecimento do mundo, uma realidade cultural que existe, mas é ainda ignorada em certos ambientes”.

A importância da valorização das matrizes culturais, segundo no interlocutor, deveriam estar mais presentes nas instituições do ensino geral como forma de ajudar a torná-las melhor conhecidas. "O problema é que a culpa morre sempre solteira, porque temos vergonha de assumir o que é nosso. Também quero entender porquê de tantos complexos. Precisamos criar um estatuto de estudo das línguas nacionais como se oficializou o português. Precisamos começar da base se quisermos corrigir as coisas”, alertou.

O gosto pela música, disse, começou na família. "Fui e sou de uma família muito ligada à identidade do seu povo. A fase da prática da circuncisão, foi uma grande escola para mim e os outros meninos da minha época, muito para além do corte do prepúcio para os jovens. Foi uma escola de iniciação à vida social, perceber questões básicas, como respeitar os mais velhos, perceber que deves toda devoção aos progenitores e ao país. Nas histórias, constavam os provérbios, que depois emana naquilo que é o conhecimento ancestral da matriz cultural”.

O legado, disse, deve ter como objectivos principais a preparação dos adolescentes para a vida adulta. "Tudo isso fez de mim, essa pessoa que se entregou à causa da música”. Todo esse legado e transmissão de valores,reafirma, não pode ser visto como mera diversão, mas como factores identitários.

Desde cedo, garantiu, nunca buscou na música a satisfação profissional, por isso adquirir outras valências. "A música é um factor existencial para mim. É primário. As outras valências servem-me para ter maior expansão sobre as exigências da vida. Defendo que não se vive da música. Hoje, tenho as coisas organizadas  porque tive que me potencializar e arranjar formas de sobrevivência. Não há valores que paguem o que se faz pela música, a arte não pode ser vista apenas na prespectiva de entretenimento”.

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