Reportagem

Continuam a desordem e a falta de higiene nos mercados de Luanda

Tudo aponta que as medidas definidas pelas autoridades de Luanda, visando a prevenção do contágio da Covid-19, tardam a surtir efeito em muitos mercados e vai continuar a imperar a desordem e falta de higiene. Foi o que constatou a reportagem do Jornal de Angola, na manhã de terça-feira, 14, no período das 9 às 12 horas, durante a ronda realizada em vários espaços de venda

16/04/2020  Última atualização 08H30
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No mercado dos Congolenses, distrito do Rangel, indiferente ao risco de contágio, comerciantes e clientes tomaram de assalto os passeios e outros espaços adjacentes. Era gente por todo lado. Uns permaneciam à porta dos armazéns e outros faziam compras a berma das estradas e nos passeios. Na sua maioria desprotegidos e desrespeitando o distanciamento de um metro entre si, conforme recomenda as medidas de protecção contra à Covid-19, comerciantes e clientes privilegiavam o comércio. 

Devido o enorme aglomerado de pessoas, na popular rua das “Pedrinhas”, por exemplo, nada fazia crer que vigora o Estado de Emergência. Os dois quintais de comércio de bens alimentares estavam cheios. As viaturas mal conseguiam circular, obrigando os automobilistas a buzinas constantes para que os cidadãos deixassem a estrada livre. Mesmo assim, a marcha era feita com lentidão, porque a maioria recusava-se a abrir espaço de manobra à circulação.

Apesar das péssimas condições de higiene e saneamento, comerciantes e clientes não davam a mínima importância. Para se ter uma ideia, clientes que optaram pela “sócia” na compra dos frescos faziam a divisão à porta de entrada dos armazéns, local onde igualmente abandonavam o lixo no chão.
Vencidos pelo cansaço e teimosia dos clientes, os seguranças dos estabelecimentos comerciais sentiam-se impotentes para organizar a entrada e saída destes. A confusão era tanta que nem mesmo os agentes da polícia e da fiscalização conseguiam impor ordem.

Na via principal de acesso ao triângulo dos Congolenses e em toda a extensão do percurso que vai dar ao mercado, a venda no passeio era um facto. Marta Bernardo, tal como as colegas de ocasião, conhece de cor e salteado os truques para evitar ser surpreendida pelos efectivos da Polícia Nacional. A vendedora, de 32 anos e voz branda, contou que, regra geral estende no chão um saco com pouco produto para venda. O resto fica nas costas. Quando os efectivos aproximam, pega nas pontas do saco, junta e foge.
A actividade comercial é também extensiva a algumas moradias nos arredores. Inúmeros portões abertos com bancadas expostas com ovos, farinha de trigo, fuba, feijão, açúcar, sal, óleo, entre outros produtos, abundam, não obstante a vigência das medidas de restrição.

Concentrados nas imediações do mercado

Em número bastante reduzido, no interior do mercado dos Congolenses apenas tem estado a funcionar a área de venda de bens alimentares. Neste entretanto, os vendedores preteridos decidiram concentrar-se com os produtos nas imediações do mercado. Ao grupo, junta-se os técnicos que vendem e reparam telemóveis, calçados, roupas, acessórios de segurança para viaturas, entre outros serviços. Também podem ser encontrados junto a base de autocarros de uma empresa privada, posto de combustível da Sonangol, defronte ao antigo Cine Ngola e outros pontos próximos.

Desprovido de máscaras, luvas e rodeado de outros vendedores, Manuel Silva, 35 anos, vendedor de acessórios de segurança para viaturas desrespeitava o distanciamento de um metro. O comportamento adoptado pelo vendedor estendia-se aos demais colegas, contudo, a maior preocupação do grupo é a fraca procura de clientes devido ao Estado de Emergência, quando há um mês o negócio corria de feição.

Manuel Silva, que é casado e pai de três filhos mora no município de Viana. De casa para o mercado e vice-versa, até pouco tempo atrás gastava 600 kwanzas em transporte, mas as rotas curtas elevaram os gastos para mil kwanzas. Ainda assim, acha que vale a pena do que ficar em casa, senão a família corre sérios riscos de passar fome. “Prefiro arriscar a minha vida a ter que deixar a família sem comer. Com ou sem clientes, todos os dias sou obrigado a fazer alguma coisa para ter comida em casa”, disse Manuel Silva que minimiza os riscos de contrair a pandemia da Covid-19.
Há cinco anos na pele de negociante de calçados, Francisco João, 39 anos, é categórico: “Em casa não fico. Prefiro desobedecer o Estado de Emergência e ir atrás do meu ganha-pão. Se ficar em casa, quem vai me dar de comer”.

Viúvo e pai de quatro filhos, desde que foram obrigados a suspender as vendas Francisco João vem acumulando perdas. Para quem tinha um lucro diário de três mil kwanzas e é responsável pelo sustento dos filhos não tem sido fácil digerir a situação, daí que a venda de cartões de recarga de telemóvel serve de alternativa. Quase serve desprotegido, o jovem está permanentemente em busca de clientes. “Nem sempre a sorte está do meu lado, há dias que não consigo vender nada e regresso a casa de mãos vazias”, lamentou.

São Paulo e Mabunda encerrados

Localizado no distrito do Sambizanga, o mercado do São Paulo está provisoriamente encerrado devido a recorrentes violações as medidas de prevenção à Covid-19. Após desinfestado e melhoradas as condições de organização e sanitárias, de acordo com fonte da administração, o espaço pode ser reaberto nos dias definidos. Os armazéns próximos ao mercado e os localizados junto a zona da Gajajeira também foram encerradas, porém, de forma clandestina os comerciantes insistem em continuar com as vendas.
“Ficam espalhados pelos cantos ou então sentam em pequenos bancos de madeira junto à porta dos armazéns”, denunciou um dos populares, que se recusou identificar. Medida idêntica foi tomada no mercado da Mabunda, distrito da Samba. Para contrapor a decisão, as vendedeiras invadiram algumas ruas do distrito para comercializar o peixe, legumes, hortaliças e outros produtos. Nesses pequenos espaços de comértcio, as enchentes registadas pela reportagem do Jornal de Angola desrespeitavam as medidas de protecção e combate à Covid-19.

Clientes preferem arriscar
Perdida no aglomerado de clientes, Adelaide António, 25 anos, tem na rua das “Pedrinhas” um dos locais de eleição para compras. Apesar dos apelos para acatar o distanciamento social, por força da necessidade, a jovem não resiste em frequentar o espaço. Explicou que, no regresso à casa, antes de entrar faz a higienização como medida de prevenção para salvaguardar a própria saúde e da família. Adelaide António recorre quase diariamente à rua das “Pedrinhas” por estar desprovida de condições para conservar os alimentos.
“Todos os santos dias gasto cerca de 1.500 kwanzas para comprar comida para casa”, disse Adelaide António, que levava consigo nos vários sacos o tomate, cebola, fuba de bombó, jimboa, quiabo e um quilo de coxa. Madalena Jesus, por sua vez, também não se coíbe de fazer compras nas “Pedrinhas” apesar do risco de contágio. Foi até ao local com o propósito de comprar feijão, hortaliça, peixe, farinha musseque, fuba, entre outros produtos.
“Embora resida no bairro Prenda, é nas Pedrinhas onde normalmente sinto-me mais confortável para fazer compras devido aos preços praticados”, disse Madalena Jesus, que quando abordada carregava consigo um frasco de vinagre para a higienização das mãos.

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