Opinião

Contemplando o que o Ebo expõe

Há três anos que vinha prometendo a mim mesmo e à tia Mariana que iria conhecer o Ebo. Tentámos, Beto Martins e eu, em 2019, sem sucesso, pois, chegados à Kibala fomos informados que a anfitriã se encontrava no hospital da CADÁ a cuidar da filha adoentada.

21/11/2021  Última atualização 09H05
A viagem que seria para o Ebo, à data ainda sem asfalto, acabou tendo como destino a Gabela e a CADÁ, regressando no dia seguinte a Luanda.

Eis que a natureza surpreendeu-nos negativamente e levou a nossa mãe Mariana, forçando a nossa ida ao Ebo para a última despedida. Assim, num ambiente impróprio para turismo, pude ver o monumento (provisório) que homenageia os combatentes (governamentais) da célebre Batalha do Ebo, onde se expõem, entre outras sobras da guerra, três carros de assalto despedaçados que terão pertencido ao exército invasor sul-africano (ao tempo da segregação racial).

Vi também os cemitérios (vários ao longo da rodovia) que mostram a arte fúnebre desse povo. Os eboenses constroem sumptuosas necrópoles, dando formas habitacionais e de outras figuras geométricas às campas. Construir a campa de um defunto é um dos principais rituais deste povo, quando o assunto é homenagear quem nos deixou e manter a proximidade entre os que ainda vivem e os que se anteciparam no caminho sem volta.

Sendo povos vizinhos dos Kibala, os eboenses também têm sepulturas construídas em pedras e, às vezes, sobre pedras. Mas não é tudo! Lá estão também as pinturas rupestres de Dalambiri e uma minúscula vila que se acha no interland, a 25 quilómetros da comuna de Condé, estrada Kibala-Gabela.

Os eboenses, que só vêm iluminação eléctrica, gerada por fonte térmica, das 18 horas às 22 horas clamam por uma subestação, já que os condutores de alta tensão que ligam Lawka ao Wambu passam a metros da sede municipal.

"Aqui, o que mais nos faz falta é energia para fazer surgir a pequena indústria e conservar os alimentos”, reclama Júlia Kixindo, trabalhadora da única hospedaria da vila.

A juventude também clama por escolas e não entende por que razão lhes "deram o PUNIV, quando não há universidade”, sendo um "instituto que não forma técnicos médios”.

Nas conversas com jovens e adultos, deu para perceber que um Magistério ou instituto agrário teria melhor serventia e "resolveria mesmo, no caso do Magistério, o problema de escolas sem professores ou professores vindos de longe que abandonam os alunos por falta de habitação e mantimentos nas comunidades em que foram despachados”.

Outra petição dos eboenses tem a ver com a asfaltagem da picada (maltratada) que Liga Gabela-Ebo-Waku.
"É a solução para que a nossa sede municipal deixe de ser um enclave e destino final, pois os carros provenientes da zona costeira e com destino ao Waku ou Wambu passariam por aqui e dariam vida à vila”, sugeriu Manuel André, um dos poucos professores da localidade.

Soberano Kanyanga

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