Entrevista

“Considero esta edição como a do carnaval da coragem”

Foi a meio desta semana que finda, no espaço da associação que dirige, sediada na Tourada, que o secretário-geral da Associação Provincial do Carnaval de Luanda (APROCAL), António de Oliveira “Delon”, concedeu esta entrevista ao Jornal de Angola. Sobre a organização da grande festa cultural que arranca hoje na Nova Marginal, Delon levantou preocupações de vária ordem, sendo a mais sonante o atraso das verbas destinadas aos grupos. Optimista, não obstante os problemas levantados, Delon exorta os luandenses a estarem expectantes por acreditar ser uma edição cujo despique reserva grandes surpresas.

22/02/2020  Última atualização 08H54
João Gomes | Edições Novembro

 

A dias da realização do Carnaval, como é que estamos em termos de preparação desta edição de 2020?
Lamentavelmente, não posso dizer que estamos bem, porque estamos a viver algumas situações que comprometem os ajustes da procura do nosso carnaval. Apesar de já estarmos, neste momento, na semana derradeira do nosso carnaval, os pagamentos aos grupos só foram feitos ainda na ordem dos vinte por cento. Quer dizer que estamos a acusar uma desvantagem muito grande no que toca a apoios e assistência de elementos que são obrigatórios na potencialização do nosso carnaval.

Afinal, já receberam ou ainda não?
Os grupos já receberam algum dinheiro, mas ainda na ordem de apenas vinte por cento do bolo total que de facto já deviam ter recebido a esta altura. E vinte por cento não é nada para as necessidades que apresentam. Por outro lado, nesta altura, os preços do mercado ficam um bocadinho “agressivos”, porque a procura é muita. Normalmente, os preços disparam, o que causa um prejuízo muito grande aos prestadores de serviços quanto aos valores disponíveis.

Estimativamente, quanta gente é movida para mão de obra?
Dentre alfaiates, carpinteiros, serralheiros e outros que se prestam a vários serviços, estamos a falar numa ordem de cerca de quatro mil pessoas que nesta fase do ano conseguem estar envolvidas na parte organizativa do carnaval.

A que se deve esse quase habitual atraso?
Tecnicamente, não posso explicar com precisão a razão deste atraso. Contudo, posso adiantar que desde que estou envolvido com o carnaval, e isso já remonta a 1968, não tenho memória de ter acontecido uma coisa desta natureza na história do carnaval.

Esse atraso acaba por frustrar a intenção da realização de um carnaval que fizesse jus à comemoração dos 45 anos da independência nacional…
Isto é verdade. Os grupos estão a se preparar, mas gostariam de fazer um carnaval na dimensão dos festejos do quadragésimo quinto aniversário da independência do país. Queríamos abrir o ano com uma grande festa, com um carnaval de superar todas as edições.

Mas parece que é o contrário, não?
Não sendo muito céptico em relação ao que está a acontecer, acredito que existam grupos que vão surpreender. Que darão de facto um carnaval na dimensão dos festejos dos 45 anos da independência, impondo no Entrudo todo o tipo de inovações possíveis. Agora, acredito também que há grupos que vão estar muito distante dessa realidade, e temos que começar a nos preparar para isso, tendo em conta as dificuldades financeiras que estamos a viver. Mas acredito que a crise pode também estimular o espírito criativo. Porque quando temos muito, vamos buscar produtos de todas as partes do mundo, e quando é o contrário até o simples papel já serve para alguma coisa na grande alegoria.

Este atraso é referente à fatia dada pelo Governo Provincial de Luanda ou a que é dada pelo Ministério da Cultura?
A verba em atraso é a que é canalizada por via do Ministério da Cultura. Porque a nível do Governo de Luanda nós estamos bem, tanto que temos as infra-estruturas a serem montadas. Quanto aos nossos parceiros, que são igualmente patrocinadores, já garantiram que poderiam contribuir mas não podemos forçar. O mais educado é aguardar pela disponibilidade financeira dos patrocinadores.

Em números exactos, em quanto está orçada a realização desta edição do carnaval de Luanda?
O nosso projecto é ambicioso, e a estimativa rondava um valor de 187 milhões de kwanzas. Queríamos, a nível de alguns serviços e apoios directos ao grupos, melhorar alguns itens, como subsídios, prémios e o valor do júri. Queríamos fazer um aumento no sentido de garantir uma maior envolvência e maior entrega de todos os servidores.

Parece que não teremos o habitual grupo homenageado. Pesaram razões financeiras?
Não teremos grupo homenageado, mas não é por questões financeiras. A verdade é que nós tínhamos concebido, há dois anos, um projecto especial de homenagem a grandes figuras da cultura angolana, com destaque para saudoso presidente António Agostinho Neto, o nacionalista António Jacinto e o escritor Boaventura Cardoso, então secretário de Estado da Cultura. São figuras de uma grande dimensão e que merecem um tratamento especial. Por não termos conseguido organizar as condições técnicas e financeiras para esta homenagem, então decidimos que este ano ninguém será comtemplado nesta categoria. Falhou a concepção e a projecção. Acho que o ano que vem não falhará.

Em jeito de curiosidade, quais são os grandes pontos comerciais que alimentam os acessórios do nosso carnaval?

Os pontos que alimentam o nosso carnaval são mesmo as nossas fontes do mercado paralelo, como o Asabranca, Arreiou Arreiou (São Paulo) e o Hoji-ya-Henda, onde é praticamente o nosso polo que fornece quase tudo aos grupos. Só para termos uma ideia, quase 70 por cento do material que se gasta no carnaval é comprado nos armazéns do Hoji-ya-Henda. A Casa da China também, mas não se equipara ao Hoji-ya-Henda. De resto, ficam a cargo dos nossos alfaiates, os nossos serralheiros, as nossas costureiras que vão dando a sua mão.

A alegoria já foi criticada, tendo muitos grupos apresentando paupérrimos trabalhos. Essas realizações arrojadas não têm prejudicado?
E muito! Mas quanto às alegorias, já se nota uma grande mudança. Porque os artistas plásticos já se engajam na festa e conseguimos ter bons resultados.

Tudo indica que este ano seja o último carnaval a ser dançado com "playback", e ainda assim as dificuldades são enormes. Não é um pouco mais oneroso sem "playback"?
É sim bem mais oneroso. Mas há uma proximidade muito grande entre a APROCAL e o gabinete da Cultura do Governo Provincial de Luanda, da qual tem resultados acesos debates sobre a estrutura do nosso carnaval. Foi no ano passado que realizamos o encontro provincial do carnaval, onde foram levantadas várias situações, dentre elas a preparação atempada do carnaval. Agora, precisamos começar mais cedo. Vamos realizar oficinas, uma iniciativa do secretário de Estado, João Pedro da Cunha Lourenço. A ideia é que todos os meses consigamos ter motivos de pensar o carnaval.

Exigiria muito esforço da APROCAL…
Sim. Apesar de não ter sido fácil fazermos o que temos feito, porque os obstáculos são muito grandes e ainda não nos conferiram o estatuto de uma organização de utilidade pública.

O acesso ainda continua a ser um grande problema…
Sim, e reconhecemos. E a Polícia Nacional tem ajudado imenso, porque não tem sido fácil. A enchente é tanta que às vezes nos dá a entender que a Ilha, a Viana ou o Sambizanga estão todos dentro da marginal. Suportar todos esses foliões não é fácil

Luanda volta ao carnaval de rua, programado para terça-feira, e um dos grandes receios é a segurança. Está garantida?
Sim. Porque aqui há uma dupla responsabilidade, tanto da APROCAL como das administrações municipais e o Comando Provincial de Luanda, no que toca ao acompanhamento. Pensávamos fazer um roteiro por onde os grupos haveriam de passar, mas chegamos à conclusão que a prática não é bem assim. Deixamos que os grupos sigam o seu trajecto pelos seus bairros e assim puderem convencer outras simpatias que possam ajudar os grupos das suas localidades.

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