Reportagem

Consequências da seca no Cunene com dias contados

César Esteves

Jornalista

Os primeiros habitantes, vindos de várias partes da província do Cunene, começaram a fazer-se à povoação de Cafu, comuna de Xangongo, município de Ombandja, ainda muito cedo.

13/07/2021  Última atualização 08H10
Projectos de combate à seca © Fotografia por: kindala Manuel | Edições Novembro
Ver pulsar de perto o coração do projecto que surge para combater, "de forma radical”, os efeitos da seca na província, bem como saudar o seu mentor, o Presidente da República, João Lourenço, é o grande objectivo. O Chefe de Estado, que visitava a província pela segunda vez, em menos de dois anos, elegeu como um dos pontos da sua agenda de trabalho de dois dias ao Cunene uma visita às obras do projecto, para se inteirar do seu andamento.

 O primeiro ponto da empreitada a visitar foi a central de bombagem do Sistema de Transferência de Água a partir do rio Cunene, na zona de Cafu, para abastecer as localidades de Ombandja e Namacunde, que dista 135 quilómetros da cidade de Ondjiva. Esta parte do projecto, que já está a ser preparada para receber o betão de limpeza, é praticamente o coração. É a partir daqui que se vai dar a tomada da água do rio Cunene para o sistema de distribuição.

 Duas vias terraplanadas levam para lá. O primeiro é um caminho aberto apenas para a circulação dos equipamentos usados na construção do canal e das chimpacas. Este mede cerca de 30 quilômetros. O outro, de aproximadamente 35 quilómetros, é a estrada terciária que passa pela cadeia do Peu-Peu. Os dois caminhos fazem muita poeira e atravessam matas até chegar a Cafu.
 Acreditava-se, por isso, que o Presidente da República fosse evitá-los, optando por se deslocar de helicóptero. Em Cafu, a população, que já se encontrava reunida no terreno, entoava canções de boas-vindas na língua local, ao mesmo tempo que mostrava a riquezas das danças tradicionais.

O casamento entre o som produzido por dois batuques tocados, de forma harmónica, por igual número de senhoras, e as canções entoadas levou as ministras de Estado para a Área Social, Carolina Cerqueira, das Finanças, Vera da Daves, Educação, Luísa Grilo, Juventude e Desporto, Ana Paula do Sacramento, da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social, Teresa Rodrigues Dias, e da Acção Social, Família e Promoção da Mulher, Faustina Inglês, a despir-se das funções para se juntarem ao grupo e exibirem alguns toques. Aqui, chamou atenção o toque das ministras Vera Daves e Ana Paula do Sacramento, pela forma como acompanhavam as canções.

 Em meio a este ambiente eufórico, começa a chegar ao local uma caravana de carros empoeirados. Há dúvida em relação aos ocupantes. Não tarda, um homem dirige-se a uma das viaturas, abre a segunda porta lateral e quem desce é o Presidente da República, acompanhado da Primeira-Dama, Ana Dias Lourenço. Muitos não querem acreditar. O Presidente fez o troço do Peu-Peu. Desce da viatura, saúda a população, que corresponde com alegria, e dirige-se a uma tenda montada no local.  

Aqui, recebe do ministro da Energia e Águas, João Baptista Borges, e do director-geral do Instituto Nacional de Recursos Hídricos, Manuel Quintino, explicações pormenorizadas sobre o projecto. Terminado este momento, faz a tão aguardada visita guiada às obras da central de bombagem, com o ministro da Energia e Águas a dar algumas explicações sobre a empreitada. No final, o Presidente da República regressou pelo caminho aberto apenas para a circulação dos equipamentos em uso na construção do canal e das chimpacas, para ver de perto as obras. Aqui, por duas vezes, desceu da viatura para se inteirar dos trabalhos. Depois deste momento, rumou para a cidade de Ondjiva, de onde, minutos depois, regressou para a capital do país.

O projecto visitado pelo Presidente da República é tecnicamente conhecido como Sistema de Transferência de Água a partir do rio Cunene, na zona de Cafu, para abastecer as localidades de Ombandja e Namacunde. Faz parte de um leque de três primeiros projectos estruturantes de combate aos efeitos da seca, aprovados para a província do Cunene. É o único em execução neste momento.

Arrancou em 2019 e vai terminar, conforme prometeu o representante da construtora Sinohydro, Li Xun Feng, antes de Fevereiro do próximo ano. Está dividido em dois lotes. O primeiro consiste na construção da captação de água do rio Cunene, do sistema de bombagem, da conduta pressurizada, de um canal a céu aberto, a partir de Cafu até à localidade de Cuamato, e a construção de dez chimpacas.

 O segundo lote consiste na construção do canal adutor a partir da localidade de Cuamato, até Ndombondola, e um canal adutor que vai sair de Cuamato até Namacunde. Consta, igualmente, desta empreitada a construção de 20 chimpacas. Ao todo, vão ser construídas 30 chimpacas.

Cada uma delas vai medir 100 metros de comprimento, 50 de largura, cinco a seis de profundidade e a capacidade de armazenamento de água vai variar entre 25 mil metros cúbicos (25. 000. 000 de litros) e 30 mil metros cúbicos (30.
000.000 litros). A rede de canais adutores terá uma extensão aproximada de 160 quilómetros. Está orçado em mais de 135 milhões de dólares.  Numa primeira fase, vai retirar do rio Cunene, para abastecer as zonas afectadas pela seca, um caudal de dois metros cúbicos por segundo e, posteriormente, tão logo as condições hidrológicas do rio Cunene permitirem, um caudal de seis metros cúbicos por segundo. Vai beneficiar 235 mil habitantes e 250 mil cabeças de bois.    
  
Os outros dois projectos são a construção da barragem de Calucuve e o seu canal associado, com uma extensão de 111 quilómetros, entre as localidades da Mupa e de Ondjiva, com 44 chimpacas. Outra parte desta empreitada é a construção da barragem do Ndúe e seu canal associado, numa extensão de 75 quilómetros, entre o Ndue e Embundo, e 15 chimpacas. Estes dois projectos não arrancaram na mesma altura que o primeiro, por razões de ordem financeira. Mas, na reunião com a governação local, o Presidente da República anunciou que esta situação já está ultrapassada, devendo, por isso, as obras arrancar em Outubro deste ano.

 Nesta mesma ocasião, o Chefe de Estado anunciou um quarto projecto de combate aos efeitos da seca para a província do Cunene. Trata-se das obras da margem direita do Rio Cunene, a reabilitação da represa da Cova do Leão e a transferência de água do rio Caculuvale, para quatro sedes municipais, nomeadamente Cahama, Otchindjau, Oncócua e Chitado. Estas obras vão arrancar no início do próximo ano. A par destes quatro projectos, o Presidente da República disse que vão ser recuperados, ainda este ano, os diques e açudes existentes na região do Curoca, considerado o epicentro da seca no Cunene.

 "Isto significa dizer que o sofrimento das populações e dos animais aqui da província do Cunene vai mudar, de forma radical, nos próximos anos. Estimamos que seja a partir de 2023 em diante, na medida em que estes quatro projectos forem sendo concluídos”, garantiu João Lourenço.

Estas são as primeiras respostas concretas ao problema da seca na província do Cunene, desde a independência de Angola, ou seja, há 45 anos. Até antes destes projectos, o problema da seca na província do Cunene era combatido com furos de água. Foram abertos em toda a província, até aqui, mais de 700 furos, mas foram incapazes de atenuar o sofrimento da população, porque, na sua maioria, eram negativos.

"Estas perfurações têm sido feitas de forma empírica e só estão a gastar dinheiro”, desabafou a governadora, na reunião da governação local, em que participou o Presidente da República.

Em função disso, Gerdina Didalelwa defende furos, mas só depois de um estudo aturado, por empresas com capacidades técnicas e um conhecimento apurado em águas. A província está outra vez a viver uma situação de seca. Estão, neste momento, afectadas 514 mil e 855 pessoas. Nos centros de deslocados espalhados em todos os municípios da província verifica-se um fenómeno nunca antes registado: um total de 4.684 pessoas encontra-se acolhido nestes lugares.

 A governadora disse que, no passado, essas pessoas eram assistidas nas próprias residências. Além deste número, há ainda 2.619 pessoas refugiadas na vizinha Namíbia. A governadora revelou que a maioria são crianças, com idades compreendidas entre os cinco e dez anos. "As crianças constituem a maioria em relação aos adultos”, lamentou.

 A província conta com um sistema convencional de captação, tratamento e distribuição de água potável desde 2014, com uma extensão de 172 quilómetros e capacidade de 1024 metros cúbicos de água por hora, a partir de Ombadja, propriamente na vila de Xangongo. Conta ainda com um sistema de distribuição de água de Ombala Yo Mungo, inaugurado este ano, que beneficia 2200 pessoas.

 O Cunene possui, igualmente, sete mil e 100 ligações domiciliares, que poderão ser reforçadas com mais um projecto de ligação para as restantes localidades de Ondjiva e outras áreas da província. Apesar disso, a governadora defende a abertura de pelo menos 200 chimpacas em todos os municípios.

 ADMINISTRADORA CRISTINA NAMZOMUNU
Muitos benefícios para a comunidade


A administradora municipal de Namacunde, Cristiana Namzomunu, disse que estes projectos estruturantes de com- bate aos efeitos da seca, aprovados para a província do Cunene, vão trazer muitos benefícios às comunidades, sobretudo de Namacunde, por ser uma das mais assoladas pela calamidade natural.

 Contou que, neste momento, os habitantes dessa região têm de andar longas distâncias, de um lado para o outro, à procura de água para o consumo familiar. De-pendendo da aldeia, povoação ou vila, prosseguiu, há quem chegue a caminhar dez quilómetros para conseguir água. Cristiana Namzomunu disse que essa caminhada é, muitas vezes, feita com o gado.
 "Olhando para a dimensão deste projecto e o impacto que vai gerar na vida das pessoas, só nos resta agradecer ao Executivo”, realçou.

   Para o administrador municipal de Ombadja, Hilário Sikalepo, este projecto significa tudo para o povo de Cunene, de uma maneira geral, e para o da sua zona de jurisdição, de forma particular. O administrador disse não ter dúvida de que se trata de uma iniciativa que vai combater os efeitos da seca na vida das populações das zonas afectadas. Sem precisar o número de cabeças de gado que terão morrido em consequência da seca, na sua zona, sublinhou apenas que os estragos provocados pela calamidade são enormes. "Ceifou até vidas humanas”, desabafou.

 Bento Hituka Vali, soba grande da comuna de Xangongo, não esconde a alegria que sente ao ver nascer na província vários projectos de combate aos efeitos da seca. Disse não terem visto, desde o tempo colonial, iniciativas do género na província.
"Razão pela qual aplaudimos muito a iniciativa do Presidente da República”, frisou.
O soba grande salientou que este projecto vai ajudar a aumentar a prática da agricultura na região, impedir o sofrimento do gado, bem como colocar um ponto final às grandes deslocações das populações em busca de água.

 O Rei da Ombala Onalueke, comuna do município de Ombadja, Mário Setipamba, disse não haver registo, desde a Independência do país, há 45 anos, de um projecto concreto que resolvesse o problema da seca no Cunene, tal como estes se propõem a fazer.
 "A chegada destes projectos constitui motivo de alegria para nós. E esta alegria a que me refiro não é apenas da pessoa que está a falar, mas da comunidade que represento”, realçou.

 Disse haver pessoas na sua comunidade que, para conseguir água, têm de percorrer mais de 10 quilómetros, acompanhados do gado. "Mas, com a chegada destes projectos, temos a certeza que este sofrimento vai chegar ao fim”, vaticinou.


Outras províncias
O ministro da Energia e Águas, João Baptista Borges, assegurou que o plano de acção de combate aos efeitos da seca não se circunscreve apenas à província do Cunene. Disse que o mesmo integra, também, projectos e acções para as províncias da Huíla e Namibe.
 "Este plano não compreende apenas projectos estruturantes. Combina projectos estruturantes com acções mais imediatas, como a construção de furos, reabilitação e construção de diques e açudes, chimpacas e outras soluções locais”, realçou.

Na província do Namibe, está em curso a elaboração do estudo de viabilidade técnica, económica e ambiental para a construção de seis barragens de retenção de água, o lançamento do concurso público para a recuperação e desassoreamento de 43 barragens de alvenaria e represas de retenção de água, nos municípios da Bibala, Camucuio, Moçâmedes e Virei.

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