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Confinamento leva ao êxodo na Índia

A decisão do Governo in-diano de fechar fábricas e decretar o confinamento, há uma semana, deixou centenas de milhares de pessoas sem rendimento e muitos migrantes que trabalham nas cidades, ganhando ao dia, a tentar regressar à aldeia natal. Sem dinheiro ou comida, houve quem tentasse seguir a pé ou apanhar um autocarro apinhado para voltar a casa, com cenas de multidões amontoadas nas estações, o oposto à ideia de isolamento social. Sem recursos ou trabalho, a fome é uma ameaça tão grande como o coronavírus.

03/04/2020  Última atualização 09H44
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"Não conseguia pagar o quarto onde estávamos, por isso não tinha escolha, tinha de sair", disse à AFP Ranjit Kumar, que caminhou com a mulher e o filho, de 2 anos, durante dois dias para chegar a um terminal de autocarros nos arredores de Deli. E o cenário lá era de milhares de pessoas a tentar entrar num deles.
"Para sobreviver, tivemos de voltar à minha aldeia. Não havia outra opção", contou Mamta, de 35 anos, que, juntamente com o marido, trabalhava numa fábrica de automóveis, em Gurgaon, nos arredores de Deli, que foi encerrada por causa do coronavírus. Com os quatro filhos caminharam cinco dias até chegarem a Sidamai, em Uttar Pradesh, a cerca de 200 quilómetros de distância.
“A única coisa que nos manteve a andar era que não havia mais nenhum lado para ir”, disse ao “The Guardian”. “Mas, apesar de termos chegado à aldeia, não temos dinheiro ou comida. Não sei como vamos sobreviver. A fome vai matar-nos antes do coronavírus”, lamentou.
O mesmo explicou Mubashar, um refugiado rohingya que vive num campo em Deli, à Al Jazeera: “Estamos a enfrentar tanto a fome, como o coronavírus ao mesmo tempo. Mas acho que a fome nos vai matar antes do vírus”, referindo que sem hipótese de trabalhar, pelo menos durante mais duas semanas, já tinha cortado as refeições para apenas uma por dia e que, mesmo assim, não terá alimentos suficientes.

Abrigos criados

O Primeiro-Ministro indiano, Narendra Modi, ordenou o confinamento total do país, de 1.300 milhões de habitantes, durante, pelo menos, 21 dias. Quando o êxodo se tornou num problema, no domingo, o Governo ordenou que as fronteiras estaduais e distritais fossem fechadas, dando ordem para as autoridades locais organizarem abrigos temporários.
De acordo com a informação oficial, por todo o país, já foram criados 21 mil destes abrigos, que albergam 660 mil pessoas. Outros 2,3 mi-lhões estarão a receber apoio alimentar. Estima-se que a economia informal do país empregue 424 milhões de indianos, ou seja, 90 por cento da força de trabalho
A 26 de Março, a Índia tinha anunciado um pacote de emergência no valor de 22,5 mil milhões de dólares para ajudar os mais pobres durante este período. A ideia é usar pacotes de ajuda já existentes, alargando-os para permitir a distribuição gratuita de comida e de dinheiro às famílias mais pobres. Estas podem contar com 500 rupias (cerca de seis euros) por mês durante os próximos três meses.
As autoridades temem que três em cada dez pessoas que tenham migrado da cidade para o campo possam estar infectadas com o coronavírus. Na terça-feira, a Índia tinha 1200 casos confirmados de Covid-19 e 32 mortes, mas os peritos duvidam dos números oficiais, dizendo que a Índia está a testar muito poucas pessoas.
Um vídeo partilhado no Twitter por um jornalista do “Times of India” e pelo jornal “The Hindu” parecia mostrar os migrantes a serem desinfectados à mangueirada por homens em fatos protectores no Estado de Uttar Pradesh. O magistrado local indicou que os bombeiros tinham recebido ordens para desinfectar os autocarros, mas "entusiasmaram-se" e usaram o desinfectante nas pessoas. Outras autoridades falaram de uma acção “excessivamente zelosa” de alguns funcionários, “por ignorância ou medo”.
Um quarto das mortes está relacionado com uma cerimónia numa mesquita no bairro de maioria muçulmana de Nizamuddin Oeste, em Deli. Centenas de pessoas, incluindo vários estrangeiros, participaram no en-contro, tendo o bairro sido isolado pelas autoridades de saúde, que procuram, em todos os cantos do país, por pessoas que tenham estado no evento, no final de Fevereiro.

Elefantes para turistas passam fome

Elefantes mal alimentados e acorrentados em lugares turísticos vazios. Na Tailândia, a vida de 2.000 elefantes depende de uma ajuda financeira de emergência para que os seus donos, que ficaram sem receita, devido à pandemia de Covid-19, os consigam alimentar.
Desde que cessou o fluxo de turistas, Ekasit, um elefante de 43 anos, está trancado, com as patas presas, mais de 18 horas por dia num acampamento a cerca de 30 quilómetros ao oeste de Chiang Mai (norte). O seu dono não tem comida suficiente para alimentá-lo. A única opção para Ekasit é procurar bananas no templo vizinho e percorrer a estrada em busca de folhagens, muito escassas durante a estação seca, especialmente severa este ano.
"Não é suficiente. Ele tem apenas metade da sua ração diária. A sua saúde está em perigo", diz à AFP o seu guardião, Kosin.
O mesmo acontece em muitas instalações onde os elefantes, por estarem menos alimentados e presos, "às vezes lutam entre si e magoam-se", relata Saengduean Chailert, do Elephant Nature Park, um abrigo para 84 destes animais.
Mesmo antes da pandemia, as condições de vida destes animais já eram stressantes. Muitos parques na Tailândia vendem um discurso de ética e respeito no tratamento destes animais, mas escondem, na verdade, um negócio sem escrúpulos de duras condições de existência para os elefantes. No final de Janeiro, com a expansão do novo coronavírus, esta situação tornou-se ainda mais alarmante.
O vírus obrigou os visitantes chineses (mais de 25 por cento dos turistas) a permanecerem em casa. Depois, os campos foram abandonados, à medida que a doença avançava no mundo, obrigando muitos países a bloquearem as fronteiras.
Em meados de Março, as autoridades ordenaram o encerramento temporário de todos os parques de elefantes para tentar conter a propagação do Covid-19. Até ao momento, foram registados mais de 1.500 casos de contágio na Tailândia.
Mae Taeng, um dos maiores parques do país, recebia até 5.000 visitantes por dia antes da crise e tinha uma receita significativa, com passeios com elefantes e polémicas apresentações com os animais a dançar ou a pintar. No cenário actual, dezenas de pequenas estruturas não podem mais arcar com os gastos. A maioria aluga os elefantes, por preços entre 640 e 1.100 euros por mês. A isso, somam-se os cerca de 45 euros para alimentar estes animais diariamente e pagar ao seu cuidador.
"Muitos não conseguirão reabrir, após a crise", afirma Saengduean Chailert. Vários parques já devolveram os animais aos seus donos. Apesar da proibição da sua exploração na indústria florestal, desde 1989, alguns correm o risco de serem "colocados de novo no transporte de madeira, causador de inúmeros ferimentos", teme o presidente da Thai Elephant Alliance Association, Theerapat Trungprakan. Outros animais já começam a "voltar a mendigar" nas ruas com os seus cuidadores.

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