Opinião

Conferência de doadores para Angola uma abertura para a paz e progresso

Uma grande parte da comunidade internacional ainda carrega sobre os seus ombros uma dívida moral de elevado peso para com o povo e a nação angolana pelo seu apoio ao conflito armado, criado e montado pelas forças retrógradas do apartheid e que constituiu uma fonte permanente de destruição de vidas humanas e de infra-estruturas físicas durante os 40 anos protagonizados.

27/10/2019  Última atualização 05H39

Sem uma perspectiva futurista e sem ter em linha de conta a posição geopolítica de Angola no contexto mundial e em particular da África Central e Austral, alguns países deixaram-se levar numa aventura militarista apoiando uma guerra fratricida, que a nada conduziu a não ser a referida destruição física e moral.
Dando-se conta deste facto já no final, deixaram em aberto a possibilidade de organizarem uma conferência de doadores, sob a égide das Nações Unidas, tendo em vista a recuperação das infra-estruturas destruídas.
Esta intenção, então manifestada, tem ainda actualidade se se tiver em consideração, a posição estratégica do país, como tampão para impedir que forças desestabilizadoras e portadoras do terrorismo tragam de novo o caos para os países da África Austral.
Com efeito, o país estava devastado, com milhões de pessoas mortas ou feridas, prevalecendo entre estas um grande número de amputados, como consequência do accionamento de minas; infra-estruturas rodoviárias e ferroviárias, completamente destruídas, os centros industriais paralisados como consequência das sabotagens nos centros de produção e de fornecimento de energia.
A actividade agrícola foi paralisada e as populações forçadas a fazer o êxodo para as cidades, em busca de maior segurança e conforto.
No final do conflito, em 2002, o país teve necessidade de endividar-se para realizar investimentos públicos em estradas, pontes, aeroportos, caminhos-de-ferro, centrais hidro e termoeléctricas, centrais de captação e tratamento de águas e muitos outros.
Foi efectuado um esforço gigantesco de reconstrução nacional que obrigou o país a recorrer ao endividamento externo, que em 2017 atingiu 63 por cento da dívida pública e 84 do produto interno bruto.
Dados mais recentes elaborados por alguns analistas prevêem que o serviço da dívida em finais de 2019 venha a atingir 116,3 por cento das receitas provenientes dos impostos.
A confirmar-se esta previsão, Angola encontra-se sozinha nesta batalha titânica, apesar de ser também um potencial aliado de todos os possíveis doadores nesta luta comum, com um tremendo sufoco da dívida que obstaculiza o seu desenvolvimento e a modernização.
A conferência de doadores, que então se preconizava, tinha em vista a recuperação económica do país, o que por sua vez iria permitir o desenvolvimento económico dos países limítrofes na SADC, tais como a Zâmbia, República Democrática do Congo, Zimbabwe, Namíbia e África do Sul, todos eles afectados pela guerra em Angola.
Através do incremento do comércio, tendo também em vista benefícios evidentes para os países doadores, que veriam aumentadas as transacções comerciais nos dois sentidos, ascendente e descendente, e encurtando distâncias, através da utilização do Caminho-de-Ferro de Benguela e do Porto do Lobito, com saída para o Atlântico.
A principal característica, para além do reescalonamento com maturidades mais alargadas, era a concessão de empréstimos com juros bonificados, muito baixos, de modo a fazer face aos encargos bastante dispendiosos, do processo de recuperação económica.
Haveria, pois, a vantagem de anular barreiras comerciais e abrir espaço a vários níveis, ao mesmo tempo que se iria criar um ponto de entrada e saída nas economias da região e, quiçá, mundiais.
Desta forma, Angola optaria por financiar o seu futuro através das respostas às enormes necessidades de desenvolvimento dos países vizinhos.
Ao enorme capital, que precisa urgentemente de canais de investimento, os seus vizinhos ainda tendem a aumentar rapidamente a demanda.
Para além de facilitar o comércio entre a Europa e a América, a rota do Caminho-de-Ferro de Benguela e do Porto do Lobito permitiria também avanços em áreas como telecomunicações, fornecimento de gás e petróleo, cobre, lítio e outros minerais.
A humanidade, hoje em dia livre dos preconceitos da guerra fria e dos choques ideológicos, criou condições para que todos os países possam vir em auxílio das populações e povos devastados por guerras fratricidas, que, no caso de Angola, afectaram também todos os países da região da África Austral e que buscam a sua recuperação económica.
Por conseguinte, estão criadas as condições para que todos os países, do Ocidente e do Leste, sem excepção, da América ou da Europa, da Ásia ou de África possam vir a abraçar-se num gesto de fraternidade e amizade numa conferência de doadores, livres de pressões e complexos.
O objectivo é facilitar a reconstrução de Angola, facultando o auxílio económico extensível aos países limítrofes, de modo que possam alcançar o crescimento económico e a integração que os caracteriza actualmente.
Neste contexto, torna-se necessário criar instituições de fortalecimento da internacionalização dos capitais, apostando na recuperação económica e na melhoria dos níveis de consumo material da população, além da criação de uma forte estrutura estatal de oferta de serviços sociais nas áreas da saúde, educação e emprego e segurança social.
Uma vez traçado este honroso e dignificante caminho, ter-se-ia erguido e repetido a criação de um verdadeiro Plano Marshall, numa extensão que, partindo de Angola para sul até à África do Sul e para norte até à Nigéria e Mali, arrastará consigo a vantagem inequívoca de unir povos, nações e continentes num único sentido da paz, do progresso e do bem-estar.
* Antigo ministro das Finanças e governador do BNA

 

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