Especial

Conferência da ONU sobre o clima começa segunda-feira

César Esteves

Jornalista

Vários líderes mundiais, entre os quais o Presidente da República, João Lourenço, são aguardados, segunda-feira (01), em Glasgow, Reino Unido, para participarem na 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, também chamada de COP26, que se estende até ao dia 12 de Novembro.

31/10/2021  Última atualização 08H35
© Fotografia por: DR
O Chefe de Estado, que desde o início do mandato, em 2017, vem dedicando uma atenção especial às questões ambientais, deixou, ontem, o país com destino à cidade escocesa, para participar na Cimeira. 


Amanhã, os líderes mundiais vão estar presentes na cerimónia de abertura, promovida pelo Primeiro-Ministro do Reino Unido, para dar-lhes as boas-vindas à Cúpula de líderes mundiais.

Até terça-feira, os líderes de todo o mundo terão a oportunidade de mostrarem as acções ambiciosas que estão a executar em seus países e internacionalmente.

O evento, realizado sob a presidência do Reino Unido, está envolto em muita expectativa, por se esperar que os líderes mundiais consigam encontrar caminhos que possam limitar a elevação da temperatura a 1,5 grau célsius. Espera-se que as partes se comprometam em atingir metas superiores às da Cimeira de Paris, realizada em 2015.

Na Cimeira da capital francesa, todos os países concordaram em trabalhar juntos afim de limitar o aquecimento global bem abaixo dos 2 graus e almejar a meta de 1,5 grau, de modo a se adaptarem aos impactos de um clima em mudança, bem como disponibilizar dinheiro para cumprir tais objectivos.

Os países comprometeram-se, igualmente, a apresentar planos nacionais, estabelecendo o quanto reduziram as suas emissões.  Ficou, ainda, acordado que, a cada cinco anos, voltariam com um plano actualizado, que reflectisse a sua maior ambição possível naquele momento.

Conforme plasmado no Acordo de Paris, as partes são obrigadas a realizar, a cada cinco anos, um processo conhecido coloquialmente como "mecanismo de catraca". Ou seja, os países submeteram as contribuições pretendidas nacionalmente para reduzir as emissões de gases de efeito estufa em comparação com um cenário de "negócios como de costume".

Acontece, porém, que os compromissos assumidos em Paris não chegaram perto de limitar o aquecimento global a 1,5 grau, deixando, assim, a janela para alcançar este feito fechar-se a cada dia que passa. Por essa razão, a Cimeira de Glasgow está a ser encarada como a "mão” que deve impedir que essa janela se feche completamente.

A Cimeira tinha sido planeada para acontecer em Novembro do ano passado, mas não aconteceu devido à pandemia da Covid-19. O local da conferência, o SEC Centre em Glasgow, foi convertido, em Maio de 2020, em um hospital temporário para pacientes com Covid-19.


Vantagens da meta 1,5 grau

Por que razão os líderes mundiais querem, nessa cimeira, encontrar mecanismos que limitem a elevação da temperatura a 1,5 grau célsius?

De acordo com dados disponibilizados pela organização do evento, com 2 graus de aquecimento global, haveria impactos generalizados e severos sobre as pessoas e a natureza. Um terço da população mundial seria exposta, regularmente, ao calor severo, levando a problemas de saúde e a mais mortes relacionadas ao calor.

Quase todos os recifes de coral de água quente seriam destruídos, e o gelo do Mar Ártico derreteria inteiramente pelo menos um Verão por década, com impactos devastadores na vida selvagem e nas comunidades que eles sustentam.

Com a meta de 1,5 grau, acredita-se que os impactos seriam graves, mas menos severos. Haveria menos riscos de escassez de alimentos e água, menos riscos para o crescimento económico e menos espécies em risco de extinção. As ameaças à saúde humana pela poluição do ar, doenças, desnutrição e exposição ao calor extremo também seriam menores.
Para cumprir essas metas, os países deverão acelerar a supressão do carvão, estimular investimentos em energias renováveis, reduzir o desmatamento e agilizar a mudança para veículos eléctricos. Nessa COP, espera-se que os líderes trabalhem juntos para capacitar e incentivar os países afectados pela mudança climática a proteger e restaurar os ecossistemas, construir defesas, implementar sistemas de alerta e tornar a infra-estrutura e a agricultura mais resilientes, a fim de evitar a perda de moradia, de meios de subsistência e de vidas.


Por que COP?
COP significa Conferência das Partes. As Partes são os signatários da Convenção - Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC) — um tratado acordado em 1994 que tem 197 Partes (196 países e a União Europeia).
A conferência deste ano, realizada pelo Reino Unido em conjunto com parceiros da Itália, será a 26ª reunião das Partes, daí a COP26. As conferências das Nações Unidas sobre mudanças climáticas estão entre as maiores reuniões internacionais do mundo. As negociações entre governos são complexas e envolvem autoridades de todos os países do mundo, bem como representantes da sociedade civil e da mídia global.


Angola trabalha no processo da transição entre as  energias poluentes e amigas do ambiente
Em entrevista, este mês, ao jornal Financial Times, o Presidente da República deu a conhecer que o país já começou a trabalhar no processo de transição entre as energias poluentes e as energias amigas do ambiente, "ou seja, as energias renováveis”.

O Chefe de Estado, que foi recentemente distinguido, em Washington, pela International Conservation Caucus Foundation (ICCF), pelo empenho em causas ambientais, disse que o Estado angolano está a trabalhar com uma empresa americana, para projectos de produção de energia solar, "num valor considerável”.


Plantação de mangues
No dia 23 deste mês, o Presidente da República participou, em Luanda, numa campanha de plantação de mangues, na orla costeira da Comunidade do Papu, comuna dos Ramiros, município de Belas, numa iniciativa da Associação Otchiva e a Sonangol, que rubricaram, neste mesmo dia, um acordo para a protecção e restauração dos ecossistemas de mangais.

O Chefe de Estado, que plantou, juntamente com a Primeira-Dama da República, Ana Dias Lourenço, cerca de duzentos pés de mangues naquela orla costeira da Comunidade do Papu, referiu que o mundo já falou "bastante” sobre a necessidade da protecção do meio ambiente e, agora, é chegado o momento de se dar um basta às falas e ter-se a consciência de se levar a cabo acções concretas, pequenas ou grandes, para a materialização deste fim.

As personalidades presentes ou ausentes

Alok Sharma
O presidente da COP 26 deixou as funções de ministro britânico da Economia para dedicar-se a tempo inteiro a este cargo, que terá sido rejeitado pelo antigo Primeiro-Ministro David Cameron. Discreto na forma como trabalha, reconhece que dá uma imagem de ser "extremamente aborrecido”, mas quer ser julgado pelos resultados. Este ano, foi acusado de "hipocrisia”, por viajar de avião para dezenas de países em plena pandemia, mas defendeu-se dizendo que encontros pessoais são "essenciais”.
 
Boris Johnson

O Primeiro-Ministro britânico tem sido acusado de fazer pouco para pressionar líderes internacionais e obter mais compromissos de redução de emissões de gases com efeito de estufa. Embora fosse um ciclista activo, antes de ser Primeiro-Ministro, é um ambientalista tardio que demorou a reconhecer a importância das energias renováveis. A cimeira é vista como mais uma oportunidade para promover o Reino Unido como uma potência mundial no pós-Brexit, mas as tensões com a China poderão comprometer os resultados.

Cyril Ramaphosa
O Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, deve ser uma ausência, assim como o mexicano Andres Manuel Lopez Obrador. São desfalques importantes.


António Guterres
O secretário-geral da ONU tem insistido no "caminho catastrófico” que o mundo está a tomar, se não conseguir limitar o aquecimento global. No sexto relatório do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), os cientistas prevêem que a temperatura global subirá 2,7 graus Celsius (ºC) em 2100, se se mantiver o actual ritmo de emissões de gases com efeito de estufa.


Xi Jinping
O Presidente da República Popular da China é talvez o líder mais aguardado na COP26, mas circulam rumores de que não vai participar. A China é o segundo maior emissor mundial de gases com efeito de estufa, a seguir aos Estados Unidos. Cerca de 60% da energia é produzida a partir de carvão e Pequim planeia construir mais centrais, embora também esteja a investir fortemente em energias renováveis. Tem como objectivo a neutralidade carbónica em 2060, mas a comunidade internacional quer ver medidas mais drásticas.


Vladimir Putin

Continua incerta a participação do Presidente russo, cujo relacionamento diplomático com o Reino Unido é tenso há vários anos. O país é um dos principais produtores de hidrocarbonetos do mundo e também um dos maiores poluidores do mundo. Tradicionalmente céptico relativamente às alterações climáticas, Putin afirmou este mês a intenção da Rússia de atingir a neutralidade de emissões carbono até 2060, uma estratégia mais ambiciosa do que a fixada até agora, mas sem adiantar pormenores sobre o caminho a seguir para lá chegar.


Joe Biden
O actual Presidente dos Estados Unidos inverteu a posição do seu antecessor, Donald Trump, contra o Acordo de Paris, e não só tem uma política de redução de emissões, como prometeu duplicar o financiamento aos países em desenvolvimento para se adaptarem e protegerem-se do impacto das alterações climáticas. Juntamente com o enviado especial John Kerry, pode dar um impulso importante nesta questão

Scott Morrison
O Primeiro-Ministro australiano também mudou de ideias e pretende agora viajar até Glasgow, depois de ter sido bastante criticado por anunciar que iria faltar à conferência. O país é dos membros do G20 que tem resistido a comprometer-se com novas metas nacionais mais ambiciosas, para a redução de emissões de carbono. A Austrália é um dos maiores produtores mundiais de carvão e gás natural.

Greta Thunberg
A adolescente sueca é actualmente a activista ambiental mais reconhecida no mundo.  Chegou a ameaçar não participar, em solidarieda-de com os países menos desenvolvidos, por causa da distribuição desigual das vacinas contra a Covid-19. Dela esperam-se palavras duras e verdades cruas contra os dirigentes internacionais.


Família Real britânica

O Príncipe Carlos, herdeiro da coroa, e o Príncipe William, vão falar durante a conferência e interagir com os líderes internacionais. O príncipe Carlos é um activista ambiental desde os anos 1970, tendo recentemente revelado que o seu automóvel usa como combustível uma mistura de bioetanol feito de resíduos de queijo e vinho. Aos 95 anos, a rainha Isabel II deixou escapar um pensamento. "É muito irritante quando eles falam, mas não fazem”, disse, recentemente, a propósito da COP26.


António Costa
O chefe do Governo português chega a Glasgow com reputação de visionário, pois Portugal foi, em 2016, o primeiro país do mundo a comprometer-se a alcançar a neutralidade carbónica em 2050, meta entretanto adoptada pelos principais países ocidentais. Foi também dos primeiros a ratificar o Acordo de Paris e acelerou o fim das centrais de eletricidade a carvão. Estará na COP26 acompanhado pelo ministro do Ambiente e Acção Climática, João Pedro Matos Fernandes.


Papa Francisco
O chefe de Estado do Vaticano cancelou no início do mês a deslocação à cimeira, mas tem intensificado apelos ao consenso entre países sobre as questões climáticas. Em Setembro, pediu à COP26 que aja "com urgência para oferecer respostas eficazes à crise ecológica sem precedentes”. 


David Attenborough

O naturalista, conhecido pelos documentários sobre a vida animal produzidos pela BBC, foi nomeado Defensor do Povo da COP26, o que significa que irá argumentar em nome da população junto dos líderes mundiais e outros participantes, urgi-los a acelerar medidas que travem as alterações climáticas. Nos últimos anos, tornou-se num activista mais assertivo sobre os riscos para a biodiversidade.


Jair Bolsonaro
O Presidente brasileiro não deverá deslocar-se a Glasgow e é conhecida a sua relutância em questões ambientais. Desde a chegada ao poder, a desflorestação e incêndios na Amazónia, maior floresta tropical do mundo e que é determinante no clima global, dispararam.

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