Opinião

Condicionamentos

Caetano Júnior

Jornalista

Da natureza humana é o recurso à astúcia, sobretudo quando se confronta com situações que lhe são ou lhe poderão ser desfavoráveis. Nos contextos em que, por exemplo, se lhe opõe um difícil opositor, num qualquer concurso, no desporto, numa disputa eleitoral - nem que seja para delegado de turma - acontece também o Homem apelar a estratégias nada higiénicas, do ponto de vista moral, para tentar limitar a acção de quem tem pela frente.

05/12/2021  Última atualização 09H28
O artifício é muito corrente no desporto, no qual é, amiúde, visível a pressão que equipas mais humildes fazem cair sobre o árbitro, queixando-se de uma alegada protecção ao adversário, quando se trata de um chamado "grande”.

Cada vez que um "pequeno” reclama, a arbitragem pode acabar coagida, tendendo, por exemplo, a ser branda na avaliação de lances em que o "queixoso” merecia punição mais severa, ou fazendo "vista grossa” a um "fora do jogo”, que obrigaria à interrupção da jogada. E a formação à partida favorita à vitória, conhecedora do potencial que reúne, acaba também condicionada, e até "constrangida”, por saber que, em circunstâncias normais, não terá dificuldade alguma para transpor o adversário.


Quem acompanha o desporto, o futebol, sobretudo, sabe perfeitamente do que se trata.Em concursos, disputas e processos, condicionar é também uma estratégia, embora de baixo jaez, de que o Homem faz recurso para atingir objectivos, que pode significar o derrube, puro e simples, do edifício de moralidade erguido pelo opositor. Há até condicionamentos que levam as vítimas ao "peso de consciência”, sobretudo de pessoas mais fracas do ponto de vista psíquico-emocional; de quem não está acostumado ao "jogo baixo” que muitas vezes envolve uma querela. Daí que os contendores devam estar prevenidos para golpes sub-reptícios, furtivos, capazes de abalar a moral, a integridade de quem se quer justo, honesto, digno e honrado adversário.

Nas disputas políticas, os condicionamentos revelam-se mais, subtil ou grosseiramente. As lamúrias, as queixas, estão presentes, evidenciadas, quase sempre, por emblemas partidários que, muitas vezes, insistem em não reconhecer incapacidade para responder a quem se lhes opõe. Pelo menos com argumentos sustentados em teorias que convergem para a atracção do voto popular e consequente derrube da intenção de continuidade de quem governa. E quando assim ocorre, a estratégia é, grosso modo, fazer limitar a acção contrária, por meio de insinuações, calúnias, não raras vezes atribuindo, antecipadamente, o fracasso na empreitada a alegadas irregularidades de quem (ele próprio acredita) vai ganhar o pleito.

Nestes tempos que separam o país das eleições do próximo ano, o clima político, o debate à volta do que será o pleito, a pré-campanha, enfim, o cenário comprova a tese do condicionamento.


De outra forma, não há como perceber a ênfase que se atribui a aspectos tão acessórios e o viés com que se olha para elementos essenciais. Há pouco mais de dez dias, foi promulgado o Diploma que altera a Lei Orgânica sobre as Eleições, depois de reapreciada, a favor da "igualdade entre os concorrentes, da sã convivência, lisura e verdade eleitoral”. Portanto, mais um degrau foi galgado no percurso que leva às eleições, o que obriga os políticos, fazedores de opinião e sociedade civil, no geral, a uma reflexão profunda. À avaliação devem emergir, entre outros, temas como o tempo que resta para o pleito, o que está por fazer, como se preparam ou como se comportam os partidos concorrentes na pré-campanha.

Paralelamente, outros elementos do processo devem ser trazidos à abordagem, como é o voto no exterior ou o que privilegiar, o que escrutinar nos procedimentos para as eleições, nestes poucos meses que restam até Agosto. Debates que ajudariam a reforçar o conhecimento sobre as eleições, propiciar aprendizados e a dar resposta a quem procura ver esclarecidos elementos inerentes à votação do próximo ano. Seria, de facto, uma das formas de discutir o essencial. Mas não é o que se vê.

Ao invés, assiste-se ao esbanjar de energia em torno do "acessório” e até de futilidades, que em nada fortalecem o conhecimento necessário sobre o processo. Até figuras de quem se esperavam esclarecimentos oportunos, importantes descobertas sobre o que aí vem - afinal, há quem vai votar pela primeira vez -, chegam a condicionar quem concorre, tornando-lhe, de certa forma, dependente a acção. De facto, antecipar a fraude eleitoral, numa eventual vitória do partido no poder, só pode ser uma manobra saída do "Manual para a Desmoralização do Opositor Político”, no sentido de o deixar confuso, indeciso, enfim, para desarmá-lo, limitá-lo, manietá-lo.

A insinuação faz dos principais candidatos à vitória nas eleições reféns do que possa vir a ocorrer em 2022, sob o argumento da fraude. A alusão é dos tipos mais graves de condicionamento, pois coloca em causa um País, um Povo e um Governo. Prevendo um ambiente pós-eleitoral marcado pelo espectro da fraude, os amantes da instabilidade podem aproveitar para accionar os mecanismos que potenciam distúrbios, que semeiam o caos, como ocorreu já em muitos países acabados de sair de eleições. É a espécie de chantagem com que se confronta quem se preparou para ganhar uma partida. Por aqui, também se compreende a ameaça com um alegado "movimento social”, que não é mais do que o convite para a desordem.

O que falta, a muitos dos nossos políticos, é sentido de responsabilidade. Ao invés, estão carregados de egoísmo, de tal forma que procuram vingar-se de reveses pessoais, carregando todo um país para o caos. Aproveitam-se da vulnerabilidade das pessoas e da falta de esclarecimento de grande parte delas para atirar-lhes areia aos olhos. Tenham, ao menos, algum "Fair-Play”, no momento do mais significativo acto em democracia; num dos mais importantes exercícios de cidadania.

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