Opinião

Concorrência entre economias

Juliana Evangelista Ferraz |*

Após um período crítico, decorrente da crise da pandemia da Covid-19, a economia mundial tem-se caracterizado por uma fase de retoma, a contar com as previsões de crescimento económico, não só para os países desenvolvidos, mas, sobretudo, para as economias emergentes, que se preparam para entrar num novo ciclo de crescimento, motivado pela retoma do gigante asiático - a China -, que é responsável por cerca 20 por cento do PIB mundial. Segundo as previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI), em 2022 a economia mundial irá crescer cerca de 4 por cento, EUA 5,2 por cento, Zona Euro 4,3 por cento, China, 5,6 por cento, África Subsaariana 3,8 por cento, Nigéria, 2,7 por cento, África de Sul 2,2 por cento e a economia nacional 2,9 por cento.

18/01/2022  Última atualização 09H30
Estes registos são animadores, mas é essencial que este crescimento tenha um impacto na conjuntura de desemprego um pouco por todo mundo, uma vez que os Estados Unidos registam uma taxa de desemprego de 3,9 por cento, a Zona Euro de 7,2 por cento e a China de 3,8 por cento. Esperam-se, nos próximos anos, enormes desafios às economias destes países, na sua capacidade de geração de riqueza e criação de postos de trabalho. Estes três gigantes económicos, por imperativos que se prendem com a competitividade e o crescimento, têm protagonizado aquilo a que podemos chamar de "uma verdadeira guerra monetária”, com o fim de garantir os seus interesses económicos, tirando maior proveito dos ganhos do comércio internacional e das relações bilaterais que mantêm com o resto do mundo.

A moeda americana tem apresentado sinais de enfraquecimento face ao Euro. Porém, os diversos programas de financiamento destinado às empresas e famílias, para alavancar a economia americana, contribuíram de certa forma para a meta da inflação de cerca de 7 por cento e vários analistas já prevêem que, até ao final primeiro trimestre do ano, o Banco Central Americano tome medidas para o agravamento da taxa de juro para atenuar a pressão inflacionista, o que, por efeito de contágio, também poderá ocorrer na Zona Euro.

Hoje, mais de 60 por cento da riqueza gerada pela economia mundial provém do sector de serviços. Nesta óptica, este sector tem ganhado uma importância decisiva nas economias mais avançadas, com uma contribuição expressiva no produto e criação de emprego. Este compreende ofícios com realce a profissionais das áreas da Saúde, Informática, Estatísticas, Programação, Logística,  sem descurar as áreas de Energia Solar, Transportes, Serviços Financeiros, Telecomunicações, Restauração etc.

A tendência de crescimento deste sector é justificada no século XXI pela explosão demográfica mundial. Prevê-se que a população do planeta irá atingir o número de 10 biliões nos próximos 28 anos. Segundo Henri Leridon, especialista em demografia, esta possível aceleração ao crescimento da população mundial poderá pôr em causa o desenvolvimento e a sustentabilidade da existência humana, pois com este nível de densidade populacional prevê-se uma pressão excessiva sobre os recursos naturais e ambientais, com impactos dramáticos nas economias.

O crescimento do sector terciário (ST) não depende unicamente da densidade populacional, mas é fortemente influenciado pelas populações que atingem níveis de rendimentos consideráveis, vêem-se necessitadas de aceder a um conjunto de bens e serviços, que anteriormente não usufruíam em razão da restrição causada pelo nível de rendimento.

Outro factor catalisador na aceleração do ST é gestão do conhecimento e inovação tecnológica - nunca na história da humanidade se investiu assim e passamos gradualmente de uma economia de perfil industrial para uma do conhecimento, em que a matéria-prima é o saber. As áreas de conhecimento científico abrem a oportunidade à criação e desenvolvimento de novos serviços, criando oportunidades de emprego. A análise da evolução do ST permite observar duas realidades distintas:

- Decorrente dos países desenvolvidos, onde o ST tem uma elevada participação na economia, marcado pelo estilo de vida elevado dos cidadãos, com rendimentos elevados, e sofisticação da organização económica. Portanto, uma indústria com forte capacidade criadora e de distribuição de riqueza.

- Por outro lado, quanto as economias pouco desenvolvidas, podemos verificar um ST, tímido, marcado por problemas estruturais de varia ordem, como desemprego e fraca capacidade de gerar e de distribuir renda para os cidadãos e famílias. Podemos mesmo afirmar que grande parte do crescimento fraco nestes países provem também desta caracterização.

Em relação ao contexto da comunidade para o desenvolvimento dos países da África Austral (SADC), a situação da fraca capacidade do sector de serviços tem vindo a melhorar. Um estudo da Academia das Ciências americana concluiu que, durante as duas últimas décadas, registou-se uma evolução positiva na atracção de investimento estrangeiro para as principais economias desta zona, atraindo mais investimento que qualquer outra zona em desenvolvimento, isto, numa base per capita.
 Estes avanços são importantes para a consolidação das economias e desenvolvimento do sector terciário.


* Economista

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