Opinião

Comunicação e violência

Manuel Rui

Escritor

Houve uma semana em que eu demandava um programa de televisão que não tivesse rainha ou Ucrânia. Lembrava-me dos tempos passados em Londres e Kiev.

06/10/2022  Última atualização 05H05

Mas fugia daquelas funeralidades da grande monarca que asilara o genocida Pinochet e dos relatos bélicos com imagens e narrativas de tendência e um sadomasoquismo de mostrar a morte de forma repetida e que a Ucrânia estava a receber armamento e dinheiro em grande escala para se defender matando russos. A televisão transformava-se num comba que nem em África em valas comuns.

Estou a verificar uma pesquisa da  National Comission on the Causesand Prevention of  Violence, concluindo que a televisão é um dos muitos fatores que contribuem para o comportamento agressivo ou transgressivo. Outro exemplo, de outra fonte, conclui que o comportamento agressivo ou antissocial de pelo menos uma parcela de jovens telespetadores aumentou através da violência na televisão e ainda o comportamento agressivo subsequente de telespetadores adultos. O Relatório da Associação Americana de Psicologia assinala que o conteúdo da TV americana contém um padrão de violência bastante elevado.

Transcrevo o direcionamento das pesquisas sobre agressividade e comportamento antissocial em quatro tópicos:

1. No sentido de se confirmar uma relação positiva entre a audiência à violência na televisão e um comportamento agressivo subsequente através da modelação pelos meios de comunicação de massa, relacionando-se, ainda, as taxas de criminalidade, violência, erotismo e pornografia na programação de TV;

2. Inversamente, pelo efeito nulo ou sem significância estatística desta relação;

3. Pela mensuração das expetativas de vitimização por crime, com base na teoria do cultivo de Gerbner.

4. De igual forma, através da busca de compreensão sobre como se processa a perceção de realidade através da violência na TV.

Segundo a teoria da aprendizagem social, ao assistirmos televisão, suas influências modeladoras podem produzir aprendizagem que, devido a uma série de fatores, podem contribuir na aquisição de representações simbólicas  atividades modelares e associações específicas de estímulo/resposta.

A teoria da estimulação (arousal hypothesis) destaca que a exposição à violência na TV aumenta a agressividade porque essa mesma violência aumenta a excitação, ou seja, estimula os telespetadores. Aqui, a palavra-chave é a estimulação, que, tendo origens diversas, seria a causa básica do aumento da agressividade nas pessoas.

Antes de iniciarmos a nossa observação, queríamos referir  que os canais de TV a cabo premium (pacotes mais completos) apresentam a mais alta percentagem de programas violentos (85%). Os programas infantis (5%).

Há fenómenos antecedentes. A democracia moderna foi inventada com violência na Revolução Francesa. Depois, a violência estendeu-se a outras violências como o regicídio de D. Carlos em Portugal. As duas grandes guerras e o soldado desconhecido.

A invasão do Vietnam apodando os defensores do país de Vietcongues. A invasão do Iraque. Do Afeganistão…e outras que alargaram o mapa-múndi. Em França, 2012, a revista Charles Hebdo arranjou polémica ao publicar caricaturas de Maomé, criador e figura sagrada do islamismo. Na altura, a sede foi incendiada e a França chegoua anunciar o encerramento de  embaixadas e escolas  em 20 países.Coisas que os muçulmanos nunca fizeram contra Cristo que, aliás, Maomé, que escreveu o Corão (não é Alcorão porque Al é o, pronome) escreveu sobre Cristo (Iça) como um profeta. Essas caricaturas veiculadas na comunicação social, produziram resposta e violência fundamentalistas em nome da Alá… e dizer Allahu Akbar (Alá é o Maior) passou a ser indicativo de abater quem pronunciasse tais palavras. A França…por causa daquela revista, passou a ser portadora de medo e ataques mortíferos de toda a maneira. Uma verdadeira corrida pela violência.

Imaginemos o que se ensina nas escolas. O esforço dos professores (os que não são maus) que fazem do ofício uma missão de criar o futuro e quando envelhecerem encontrarem os seus ex-alunos professores universitários. Os professores, por regra mal pagos, em alguns países, deslocados centenas de quilómetros de sua residência.

E os alunos, nas redes sociais, vendo toda a violência na televisão. Na América, onde por tradição e uma emenda constitucional, a posse de armas é liberalizada, os pais levam os filhos adolescentes a clubes de tiro para aprenderem a manejar armas, tem acontecido um aluno entrar numa sala de aula e matar professores e colegas de rajada. Outras vezes, o jovem, pelos filmes de televisão e internet, aprendeu como se fazem explosivos. Fez e matou pessoas.

Recentemente, na europa, os crimes, principalmente de feminicídio, são feitos com facas (já tinha começado em Paris). Parece que é mais barato e invisível. Uma faca esconde-se mais facilmente que uma arma. Em Portugal tem uma televisão que tem hora só de crime como se fosse futebol. No Brasil, é demais, agora que um homem que aqui se não refere por pudor, adiantou lei para liberalizar o armamento. E tem um programa sobre crime com narrativa como se de futebol se tratasse. Parece que a violência dá mais dinheiro a quem a narra do que a quem a pratica…

O problema é do conceito de democracia que já está desmascarado na atual União Europeia que abriga a neofascista italiana. A democracia devia ter limites. Nem fascistas, neofascistas, nazis ou neonazis não podem entrar em pleitos ou parlamentos democráticos.

Por cá, felizmente, andamos a poupar as facas de cozinha que não são muitas. Na minha infância, em casa só tínhamos uma faca. E, hoje, a minha empregada doméstica quando agredida pelo marido dava-lhe com o pau de bater o funje. Zangaram-se. Ela foi para casa da mãe. Ele já veio aqui pedir perdão. Ela vai voltar a casa com os filhos. E vão-me convidar para um almoço. Faltam cadeiras mas vamos resolver. Sem facas. Temos uma grande cultura herdada dos ancestrais, muitos que foram de escravos para o outro lado do mal(mar), das armas e das facas.

Lembrem-se. No fim da guerra pediram para entregarmos as armas. Entregámos. Isto é cultura que dá vergonha na cara.

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