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Como Agostinho Neto é visto em “Farrapos de Memória”

Antero Abreu (1927-2017)* pertenceu ao círculo de amigos mais próximos de Agostinho Neto, daí que fomos compulsar o seu livro de memórias, publicado postumamente pela Fundação Agostinho Neto em 2019, em busca de referências à convivência de longos anos, desde os tempos da Casa dos Estudantes do Império em Portugal. Intitulado “Farrapos de Memória”, o livro efectivamente, em algumas das notas avulsas que abarcam a trajectória do autor entre Portugal e Angola, apresenta o retrato, ainda que fragmentado, de um Agostinho Neto pouco antes e depois de proclamar a Independência e assumir o cargo de Pesidente da República Popular de Angola.

26/06/2022  Última atualização 09H00

"Uma noite, eram aí umas dez horas, telefona-me o Presidente Neto. Vem até cá, preciso de falar contigo. A esta hora? E como é que eu volto, às tantas da noite? Não te preocupes, eu mando a minha segurança contigo. Meto-me no carro e rumo ao Futungo. O Neto começou por dizer umas coisas, e depois foi ao que o preocupava. O que acontecia? Uns amigos (seriam os chamados "catetenses”, que na altura se murmurava que o aconselhavam?) há alguns tempos vinham-lhe a dizer que um membro do Governo pertencia, ou, melhor, tinha pertencido, pois já se haviam extinguido, aos Cacs. Os "Cac’s”, abreviatura de Comités Amílcar Cabral, eram, tal como os Comités Henda, organizações clandestinas de gente do MPLA, ou tida como tal, que advogavam uma radicalização do processo revolucionário angolano. Circulavam panfletos mais ou menos explosivos, sabiam de cor os luminares do marxismo (mais erudição revolucionária só na OCA, Organização Comunista de Angola, de índole maoista), e não eram meigos para a direcção do Partido. No fundo, gente nova ou gente mais crescida deslumbrada por poder discutir com alguma ciência e consciência ideias políticas e, como de costume nessa altura (creio que isso ainda hoje acontece), influenciada por Lisboa. De qualquer modo, se não chegavam a provocar a divisão no seio do MPLA, como veio a acontecer com os nitistas, causaram pelo menos grande inquietação e desconforto.

Neto, como é natural, não podia aceitar que o desautorizassem de dentro, tendo na altura de travar uma guerra, a dos sul-africanos e da Unita, e uma ingente tarefa, a de fazer o País arrancar, para o que a unidade do Partido era fundamental. E estava magoado porque um seu governante, no qual sempre depositara a maior confiança desde os tempos da guerrilha, pudera chegar ao ponto de enfileirar numa organização clandestina que o alvejava. Chamou o camarada e fez-lhe perguntas. Neto não queria acreditar que lhe tivessem dito a verdade. Mas era: o suspeito confirmou.

Na conversa comigo, Neto falou, falou, repetiu-se, não saía daquele assunto, que bem se via lhe doía. Larguei-o às tantas da manhã, descoroçoado por não lhe ter podido dar qualquer ajuda, pois mal conhecia o tal governante e o assunto em causa era-me completamente alheio. Pensei durante o regresso: aquele já foi. Engane-me, pois os tempos passaram e o Neto nunca o demitiu.”

***

"Acabada a sua formação de médico em Portugal, o Agostinho Neto regressou a Luanda. Foi morar com um irmão numa das casas da Bricon, à Rua Paiva Couceiro, no limite do chamado Bairro do Cruzeiro, destinado a funcionários públicos (o irmão do Neto pertencia aos Serviços de Saúde). Mais tarde mudou-se para habitação própria, com a mulher, a Maria Eugénia, o seu primeiro filho, o Mário Jorge, a mãe, a D. Maria, e duas irmãs, a mais velha delas a Ruth. Era numa rua paralela àquela, ainda por terminar. Como já "contei” numa minha poesia, quando eu ia visitar o Neto, os vizinhos, brancos, vinham espreitar. Um deles era empregado da Lello, simpático, mas que diziam ser da Pide. O Neto abriu consultório não muito longe, em S. Paulo, já nas bordas da cidade asfaltada. Volta e meia eu ia passear com o Neto e sua família no meu carrito de advogado em princípios de vida. Certa feita, fomos parar ao meio do corso de Carnaval, à Avenida Brito Godins, hoje Avenida Lenine, e vi-me atrapalhado, condutor principiante, suando por todos os poros, naquele arranca-pára no meio de foliões, com o carro fechadinho por causa das mangueiradas de água e dos arremessos dos saquinhos de fuba. O ar de desconforto dos meus acompanhantes não sei se se devia ao calor e confusão reinantes se à manifesta atrapalhação do condutor.

Uma das tardes fomos, o Neto e eu, ao Baleizão, esse que se tornou um monumento à cerveja e às sandwiches de presunto. Conversamos sobre variados assuntos, e a certa altura veio à baila, como sempre, Angola, melhor dizendo, o futuro deAngola, pois falar desta não podia ser senão falar do seu futuro. Arrisquei uma débil pergunta: - Isto não pode vir a ser um Brasil? Neto respondeu: - É muito tarde. Depois de um silêncio acrescentou. - Olha à tua volta. Quantos negros vês? O problema é de ordem económico-social. Olhei ao redor. Na verdade, negros eram só os empregados de Luanda. E, contudo, no contexto colonial o Baleizão era o lugar mais democrático de Luanda, onde iam desde o camionista e o soldado até ao director de serviços e ao capitalista. Certa feita até lá apareceu, mas já depois do 4 de Fevereiro, o Governador-Geral de Angola, o General Silvino Silvério Marques, o que causou grande excitação e acenos de cabeça aprovativos. Estava-se na época da "psico-social”, capa colonial de aparente democratização, até para os que haviam deixado de ser "indígenas”.

Arrastado por mim, o Neto, ainda não Presidente da República, mas Presidente do MPLA, apareceu uma noite no Baleizão. Foi um sururu, para o qual não terá deixado de contribuir a presença da guarda pessoal do visitante, que contudo não empanou o clima de afecto que envolveu o Neto e a sua família. Estava-se no início da descolonização...”

***

"Eu e o Neto raramente falávamos de política. Eu não queria importuná-lo, sabendo-o cansado das tremendas tarefas de Presidente do MPLA e de Presidente da República, a quem toda a gente procurava com os mais variados assuntos. Ele, presumo, guardava essas coisas para os colegas da direcção do MPLA. Era um homem de partido, acima de tudo. Uma vez, ainda vivia e tinha os escritórios no Bairro do Saneamento, ao pé da Imprensa Nacional, convidou-me para lá aparecer e conviver com os seus camaradas da direcção do Movimento e outros militantes, ao que eu lhe respondi que não era homem de partido. Neto olhou-me admirado. Mas eu era assim, feliz ou infelizmente.

Uma das conversas com Neto incidiu sobre a África do Sul e o apartheid numa altura em que aquele regime estava a ser internacionalmente condenado. Eu lera nos jornais que um país qualquer da América do Sul se tinha oferecido para recolher os brancos da África do Sul no caso de eventual perseguição ou expulsão do país se a maioria negra assumisse o poder, assunto de que toda a gente falava.

- Era uma boa solução – disse eu.

Neto não fez um gesto, limitou-se a observar. – Mas a África do Sul é o país deles.

Senti-me profundamente envergonhado. E vi que tinha à minha frente um homem da estatura de Mandela.”

***

"Neto não gostava dos "russos” (dos soviéticos), como se insinuava? Não sei. Nunca o ouvi falar abertamente contra eles, como certos dos seus camaradas do exílio e de luta, alguns bem chegados a ele, que diziam sem disfarces que os "russo” eram uns "campunas” (rústicos) e outros mimos assim. Pelo contrário, Neto dava a entender que os "russos” é que não gostavam dele, que não consideravam a República Popular de Angola um verdadeiro país socialista (comunista). Porque dizes isso?, perguntava-lhe eu. Porque, entre outras coisas, quando há reuniões de determinados ministros de países comunistas, o ministro de Angola do sector correspondente nunca é convidado.

Neto gostava dos "russos”? Não sei. Certa vez, falando-lhe eu no Mussulo, no intervalo duma pescaria, de que constava que os "russos” andavam com pesca intensiva nas costas de Angola a dar cabo dos nossos recursos piscatórios actuais e futuros, e perguntando-lhe se isso era verdade, respondeu-me com uma frase muito subtil: - Nós ainda não somos independentes... Vieram-me as lágrimas aos olhos, porque concluí que o boato não era falso. E assim murchava uma vez mais, como depois da Hungria em 1956 e da Checoslováquia de 1968, o meu entusiasmo pela União Soviética e o "internacionalismo proletário” que aquele país personificava, andor reacendido pela ajuda que estávamos a receber na guerra pela independência a seguir ao 25 de Abril.

Neto não deve ter gostado nada da atitude dos soviéticos quando receberam em Moscovo, com honra de chefe de Estado, Nito Alves, quando este visitou, como Ministro da Administração Interna de Angola e membro do Bureau Politico do MPLA, a União Soviética. Mas não ouvi da boca do Neto uma palavra a esse respeito, talvez até porque não era ainda do conhecimento geral.

E Neto menos deve ter gostado ainda de saber que, a viverem escondidos nos muceques de Luanda, com os célebres agitadores nitistas conhecidos por "kudibanguelas”, estavam agentes da KGB que, na altura do golpe de Estado frustrado se esgueiraram para a Santa Mãe Rússia, sendo um deles quase apanhado pela Polícia com o pé no estribo do avião soviético que o levou.

Tudo isto me traz à memória uma discussão que houve no Palácio num jantar em que éramos convidados de Neto, eu mais a minha mulher, a Maria do Carmo Medina e a mulher dum dos Velosos (o arquitecto, não o irmão que foi julgado juntamente com Neto e mais outros cinquenta no Tribunal Plenário do Porto em 1957 por actividades revolucionárias). Falou-se dos discursos de Nito Alves, antes e depois de ser ministro, verdadeiros libelos radicais, inflamados, tintos de um certo racismo. Eu dizia ao Neto que chamasse o seu ministro e colega de direcção do partido e lhe moderasse os extremismos e a retórica, ao passo que as duas senhoras defendiam entusiásticas o seu vigor revolucionário. Neto respondeu-me: - Mas se ele fala, porque é que os seus colegas de Partido não falam também? A condescedência de Neto naquele momento deixou-me perplexo, confesso-o. Mas Neto acabou por assumir o papel de que o destino o incumbira e daí a tentativa de golpe de Estado e a tragédia que se lhe seguiu.

A Maria do Carmo Medina devia sofrer a influência dos nitistas (fraccionistas se lhes chamava, porque fugiam organizadamente à linha equilibrada da direcção do MPLA) na convivência que com eles tinha na Comissão Administrativa de Luanda, em breve demitida, e talvez com alguns comunistas portugueses que rondavam o regime sem perceberem nada do processo revolucionário angolano, assim influenciando (ou deixando-se influenciar) por dirigentes do Partido Comunista Português que volta e meia ali apareceram episodicamente. Sofria do que eu dizia ser "miopia política” (expressão do agrado do Manuel Rui). Quando o golpe de Estado nitista abortou, foi afastada do cargo de Secretária para os Assuntos Jurídicos do Presidente, e Neto, que com ela tinha uma relação de amizade muito antiga, ordenou que lhe dessem o lugar de juíza numa Vara Cível de Luanda.

A Maria do Carmo Medina era uma mulher muito recta e generosa, sacrificada e lutadora, que amava Angola, mas a História não a acompanhou. Teve depois uma carreira judicial brilhante, secundada por um percurso académico de grande proficiência na Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto, o que cimentou o respeito que aliás nunca lhe foi negado.”

*Antero Abreu foi membro da União dos Escritores Angolanos, da Fundação Dr. António Agostinho Neto e da Academia Angolana de Letras. Foi ainda deputado à Assembleia do Povo, Procurador-Geral da República e embaixador em Itália e Malta

 

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