Entrevista

Entrevista

“Começámos a actividade político - militar muito cedo”

Gilberto Pedro Nelumba ou simplesmente Beto Nelumba, como é conhecido entre os amigos, é um antigo pioneiro do MPLA, forjado na luta de libertação contra o jugo colonial português. Filho de Simão Pedro Nelumba, nacionalista morto pela UPA/FNLA e de Maria dos Anjos Carmo Cunha, também nacionalista, antiga guerrilheira e co-fundadora da OMA (Organização da Mulher Angolana), Beto Nelumba desde cedo esteve engajado nas tarefas em prol da luta armada, por influência dos progenitores e irmãos mais velhos, em Kinshasa, para onde os pais se tinham refugiado. Na sua trajectória, no Maquis, conheceu de perto o comandante Hoji ya Henda de quem disse ter sido “um grande amigo”. Na entrevista ao Jornal de Angola, por ocasião do 46º aniversário da proclamação da Independência, aproveitou para desmistificar a existência de Augusto Ngangula.

19/11/2021  Última atualização 08H55
© Fotografia por: Vigas da Purificação| Edições Novembro
Como antigo pioneiro do MPLA, fale-nos das suas memórias antes da proclamação da Independência Nacional a 11 de Novembro de 1975.
Antes de mais, quero realçar que a minha família toda, desde os pais até ao último Nelumba, estava engajada na luta de libertação nacional contra o jugo colonial português. Em 1962, fugimos para o Maquis com o pai, a mãe e os manos. Em Kinshasa, começou a actividade política do pai e da mãe bem como dos manos mais velhos, que foram as primeiras crianças a organizar a primeira organização de pioneiros do MPLA denominada "Kudianguelas”. Falo de José Eduardo Carmo Nelumba (Gegé), do Agostinho Fernando Nelumba (Nando, o general Sanjar), do Eduardo Gomes Nelumba e de outros companheiros.Em 1965, depois da expulsão do MPLA de Kinshasa, o movimento instalou-se em Brazzaville e em Dolisie, esta última uma vila congolesa que faz fronteira com Cabinda, portanto a nossa 2ª região político-militar. É precisamente em Dolisie onde começo a minha actividade como pioneiro, nos primeiros internatos criados pelo MPLA, em 1967.
Quais as tarefas que os pioneiros desempenhavam?

A direcção do movimento sempre primou pela formação dos quadros e isso abrangia os pioneiros. Além dos estudos, que era o objectivo principal, a formação integral fazia parte das nossas actividades quotidianas, pois podíamos estar na lavoura para o nosso sustento ou na instrução de preparação combativa. Aqueles adultos que saíram de Angola e que não sabiam ler e escrever, tinham os CIR (Centro de Instrução Revolucionária) onde eram capacitados até à 4ª classe e muitos depois eram enviados para o exterior, nos países socialistas, para a consolidação da formação académica. Muitos de nós começámos a actividade política e militar muito cedo, no internato 4 de Fevereiro, e tendo em conta o momento em que estávamos a viver tínhamos que nos considerar guerrilheiros, independentemente da idade. Lembro-me das palavras do comandante Hoji ya Henda quando dizia que no MPLA não havia crianças, que todos éramos iguais e que cada um podia cumprir a tarefa que lhe era dada.
Está a querer dizer que mesmo sendo pioneiros participavam em acções de preparação combativa?

Sim. Era obrigatória a preparação combativa e tínhamos que ter este conhecimento porque o Exército português atacava as bases e nós tínhamos que saber quando e como entrar num refúgio ou numa trincheira para nos protegermos, saber de onde vêm os tiros, para que lado devo fugir e tudo isso. Por outro lado, havia muitos infiltrados da PIDE que davam informações sobre as nossas bases e dos centros dos guerrilheiros, daí a necessidade de termos que nos preparar. Havia necessidade de conhecermos estas coisas. Devo acrescentar que em 1967, quando se inaugurou o Internato 4 de Fevereiro, abriu-se o CAF Centro Angolano de Formação Acelerada onde pioneiros com uma certa idade tiveram que fazer uma formação acelerada de três meses de guerrilha para reforçar a recém criada 3ª região político-militar, no Moxico e Cuando Cubango.
Falou de Hoji ya Henda. Em que circunstâncias conheceu esse comandante?

Depois de deixar Kinshasa, foi o comandante Henda quem me recebeu em Dolisie, em 1965, na companhia dos camaradas Ingo, Dilolwa e Jika. Foi nessa altura em que ele me encorajou a cumprir tarefas de adultos, mesmo sendo mais jovem, praticamente uma criança.Depois desse contacto directo, tornamo-nos amigos, e muito amigos mesmo. O camarada Henda visitava constantemente o nosso internato da vila de Dolisie e nas suas deslocações fazia questão de conversar sempre comigo. Lembro-me que uma das últimas visitas do comandante Henda foi entre meados de Junho ou Julho de 1966 que tive a oportunidade de conversar com ele e disse-me que seria transferido para outras missões na 3ª região e que dentro em breve iria regressar para a 2ª região, para dar continuidade às tarefas político-militares. Daí nunca mais nos vimos até à sua morte. Pessoalmente não sei porquê, mas posso afirmar que tive uma relação muito estreita com o comandante Henda.
Augusto Ngangula é para muitos um personagem ou um mito criado para a educação patriótica dos pioneiros. Recorda-se de quando começou a ouvir falar de Ngangula?

Vou ser sincero! O Augusto Ngangula existiu e não é um mito. Afirmo isso apesar de não o ter conhecido, mas com base nas informações que tenho é de que ele estava num internato na 3ª região. Sobre a morte, a verdade é que foi encontrado o corpo dele, esquartejado, a escassos quilómetros do CIR onde se encontrava o camarada Lúcio Lara como director, no interior do Moxico. Posteriormente, foram feitas averiguações, seguiram-se as pegadas e concluiu-se que foram os portugueses que o assassinaram. Aliás, depois de algum tempo, estudei com alguns pioneiros que vieram do Leste que tiveram oportunidade de conhecer o Ngangula e conviver com ele. É o caso do Chinhama e o Camona, que testemunharam sobre a vida de Ngangula.
Então o Ngangula é personagem real da nossa história…

O Ngangula existiu sim como pioneiro.  Não é  nenhum mito como muita gente tenta fazer passar.  Ele existiu de facto.
Na sua opinião sente que os antigos combatentes e antigos pioneiros são valorizados pelo contributo dado na luta de libertação nacional?

Eu, particularmente digo que não. Ainda não se dá o real valor aos esforços daquelas pessoas, daqueles combatentes, jovens e crianças que, na realidade estiveram engajados de corpo e alma neste projecto libertador. Vamos ser realistas e falo isso como militante do MPLA, movimento onde eu e a minha família sempre pertencemos e demos o nosso contributo.Hoje em dia é muito estranho constatar a existência de 20 mil, 30 mil e mais antigos combatentes e me pergunto onde é que saíram estes antigos combatentes? O que sei é que no Maquis éramos muito poucos e não chegávamos a estes números. Muitos fugiam de entrar nas matas, outros não aceitaram abraçar a causa da luta de libertação, uns estavam nos Congos, na Zâmbia, Tanzânia e noutros países como refugiados mas não aceitaram entrar nas matas e dar o seu contributo para lutar contra o colonialismo português e hoje querem ser ou são considerados antigos combatentes. Por outro lado, não é dignificante o subsídio de 19 mil ou 23 mil que auferem os antigos combatentes. Urge a necessidade de se corrigir isso, porque para uma pessoa que abandonou tudo para se dedicar à causa da revolução, isso não é reconhecimento. Muitos vivem na mendicidade, faltando-lhes o pão para comer e quando morrem não têm um enterro condigno! É lamentável!Devemos honrar o esforço desses heróis vivos, ontem muito jovens, com 17, 18 ou 20 anos, hoje na casa dos 50, 60 que deram tudo de si para a libertação do país, percorrendo a pé distâncias inimagináveis como sair do Moxico para irem apoiar a 1ª região, jovens que saíam de Brazzaville a pé para vir apoiar a 1ª região, isso sim era patriotismo e espírito de missão por Angola. É triste constatar que muitos destes combatentes estão a morrer e não têm qualquer reconhecimento.
Como acha que devem ser honrados os mortos e vivos dessa luta?

O Estado angolano tem recursos suficientes para satisfazer este grupo de pessoas, cujos filhos em idade de ingressar no ensino médio ou universidade lutam e muitos não conseguem entrar numa universidade. Estes deviam ter prioridade e deviam estar isentos de alguns impostos, deviam ter um cartão ou documento que lhes possibilitasse a resolver alguns problemas sociais por que passam, muitos de nós não tem uma casa condigna e não consegue dar o melhor aos filhos, enquanto há outros, cujos pais pertenceram à Pide, estão por aí, a beneficiar de toda a liberdade e das riquezas. Penso que o Estado angolano, através do Ministério dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria deveria ver quem são os verdadeiros antigos combatentes, aqueles que estiveram nas cadeias da Pide, em S. Nicolau ou aqueles que lutavam na clandestinidade para melhor serem dignificados.
Que avaliação faz do actual processo de recadastramento dos antigos combatentes? Muitos dos antigos pioneiros estão de fora desse processo quando deveriam merecer outro tratamento…

Na minha óptica, muitos dos funcionários que estão no Ministério dos Antigos Combates são pessoas que não conhecem e não têm sensibilidade para tratar de assuntos relacionados com os antigos combatentes e são pessoas que estão ali simplesmente para cumprir ordens. Acho que se o próprio Ministério estivesse interessado em pôr pessoas capazes de seleccionar os verdadeiros antigos combatentes e saber quem é quem, isso não podia acontecer. As coisas devem ser esclarecidas. É claro que hoje em dia já não há nenhum antigo pioneiro com 30 anos, mesmo com 40 anos são pouquíssimos. Na sua maioria são de 50 para cima e é lógico que estes deveriam transitar da categoria de antigos pioneiros para antigos combatentes porque éramos considerados todos guerrilheiros. Penso que essa separação não é salutar, os antigos pioneiros devem sim ser considerados antigos combatentes, no actual processo de recadastramento, sob pena de estar-se a cometer uma grande injustiça contra estas pessoas. O Ministério deve saber que a nossa linha de actuação era os estudos, mas que também éramos chamados para reforçar algumas frentes de combate.Há exemplos concretos de pioneiros que foram reforçar a Frente Leste, saídos da 2ª região e a partir dos anos 70 os que ficaram começaram a participar directamente em acções de combate após treinos militares intensivos.
Enquanto antigo pioneiro recorda-se de algum episódio que lhe marcou?

Há muitos episódios, mas o que me marcou mais, certamente, foi a saída do comandante Henda para o Leste, a morte dele em Caripande, a 14 de Abril de 1968, e porque só depois de uma semana é que tivemos conhecimento. Isso marcou-me também  porque éramos muito amigos. O outro facto que me marcou bastante é o desaparecimento do meu pai, porque até hoje não sei onde está o seu corpo. Também havia momentos bons e momentos maus, principalmente quando viesse um camarada ferido de uma frente ou morto num ataque dos portugueses.Um outro momento que me marcou foi em 1973, quando rebentou a confusão da revolta activa, porque o MPLA entrou em crise e muitos países que nos apoiavam deixaram de o fazer, tivemos uma crise financeira e passámos fome, sobrevivendo com uma alimentação precária que vinha dos países escandinavos, principalmente da Dinamarca.
Onde é que se encontrava no dia da proclamação da Independência?

No dia 11 de Novembro de 1975 encontrava-me no Lucapa. Quando saí da guerrilha, fui directamente para a Lunda de onde sou natural. Já na Lunda consegui organizar a OPA – Organização dos Pioneiros Angolanos e o meu irmão, Dino, ajudou a organizar a JMPLA e a minha mãe, a OMA.
E como descreve aquele momento?

Um momento de muita emoção pois pude sentir que a partir daquela altura era um cidadão do mundo e tinha diante de mim a minha bandeira e a minha identidade.
"O filme Sambizanga despertou consciências a nível mundial”
O filme "Sambizanga” de que participa como um dos personagens, representa parte da história de luta do MPLA. Passados esses anos desde a sua realização, como se revê no mesmo documentário?

O filme Sambizanga apareceu numa altura própria porque no mundo poucos conheciam a realidade de Angola, principalmente na Europa Ocidental. O filme, depois da sua concepção pela realizadora Sarah Maldoror, esposa do grande nacionalista e  primeiro presidente do MPLA, Mário Pinto de Andrade, em 1972, em Brazzaville, foi exibido na Europa, principalmente nos países escandinavos e teve uma repercussão muito grande ao ponto de mobilizar apoios para o MPLA. Organiações progressistas desses países mobilizaram-se no apoio à causa justa  do povo angolano. Na verdade, é um filme como qualquer outro, mas naquele momento teve a sua importância. Devo sublinhar que é bom que a nova geração se reveja nele porque baseou-se num livro de Luandino Vieira: "A vida verdadeira de Domingos Xavier”. É bom que a juventude leia e assista ao filme para saber o que é que muitos de nós, o povo angolano passou. Portanto, é um documentário ainda válido que está aí e deve ser entendido porque retrata a trajectória da nossa luta contra o colonialismo português. Aconselho as pessoas a ler o livro e ver o filme.
Podemos então dizer que o filme contribuiu para o conhecimento da história do MPLA e de Angola, no geral?

O Sambizanga contribuiu muito para a elevação da nossa consciência patriótica. Os principais actores eram figuras próprias nossas inseridas no nosso meio, como são os casos do camarada Yayá, que interpretou o papel de Domingos Xavier, o camarada Totoy Monteiro (Talangongo), o meu irmão Adelino Nelumba, a Elisa de Brito (de nacionalidade cabo-verdiana), esposa do doutor Katiana. Participou também um congolês que trabalhava na rádio congolesa, o velho Petelo, o doutor Manuel Videira, o Joãozinho (bebé que aparece às costas da Elisa de Brito) e muitos outros.
Como foi produzido este filme. Houve alguma preparação antecipada?

Devo dizer que 90 por cento dos actores do filme Sambizanga não tinha qualquer experiência ou formação de teatro ou de realização. Simplesmente fomos seleccionados sem qualquer critério acho, a equipa da Sarah Maldoror recebeu o financiamento do Governo francês, foi a Brazzaville e a Dolisie onde seleccionou os personagens. Na verdade uns não aceitaram porque tinham medo de serem expostos e que o seu rosto podia aparecer além fronteiras e em Angola e pôr em perigo os seus familiares. Outros simplesmente rejeitaram porque não se achavam com qualidades.
Perfil

Nome: Gilberto Pedro Nelumba

Naturalidade: Lucapa, Lunda-Norte

Pai: Simão Pedro Nelumba

Mãe: Maria dos Anjos Carmo Cunha

Formado em Geologia de Petróleo e Gás na ex-União Soviética e trabalha no Instituto GeológicoDiz gostar de política e, por isso, aproveitando as horas vagas, conseguiu formar-se em Ciências Políticas, na Universidade Agostinho Neto.

Adora a leitura e a escrita, estando a ultimar a preparação de alguns artigos de investigação de fenómenos políticos e sociais de África.

Quanto ao desporto, diz gostar de assistir a bons jogos de futebol, porque lhe recorda a infância.

 Sublinha ser adepto do clube 1º de Agosto.

Para  lazer, gosta de ficar ao lado da família.

Nos pratos preferidos, gosta de "um bom funge com peixe seco grelhado e maxanana”.

Quanto a bebidas, a preferência recai para a quissângua e água.

Prepara um livro de memórias, quase em fase de revisão para posterior publicação.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Entrevista